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sexta-feira, 18 de outubro de 2013

"Até que ponto devemos dizer a verdade?", um artigo de crítica filosófica da autoria de Joana Gonçalves

Joana Gonçalves, a jovem autora do artigo

Até que ponto devemos dizer a verdade?

por

Joana Gonçalves

Para realizar este artigo filosófico, inspirei-me numa passagem de um livro que li recentemente, “Memórias de Anne Frank”. Neste livro, o autor, Theo Coster, judeu e ex-colega de Anne, reúne cinco ex-amigos desta e recordam como eram as suas vidas durante a 2ª Guerra Mundial. Ao longo do livro, o autor acaba por recordar também a sua própria história dando-nos o testemunho em primeira mão de um sobrevivente ao Holocausto.

Numa passagem do livro, quando o autor faz referência ao seu percurso de vida, ao longo de todos aqueles anos em que os judeus foram perseguidos, conta-nos que não viveu um período atribulado tal como muitos dos seus colegas. Theo foi identificado como uma pessoa “normal” graças a um mero acaso que, segundo ele, lhe salvou a vida: algum tempo antes de se iniciar a guerra, o seu pai tinha sido obrigado a preencher um formulário sobre a ascendência dos seus avós. Este preencheu-o dizendo que Theo tinha dois avós judeus e dois não-judeus quando, na realidade, ambos os lados da família eram judeus. Quando um funcionário público recebeu esse formulário, identificou Theo como uma criança não judaica nos seus documentos de identificação, passando então a ser considerada uma criança “normal”.

O que mais me chamou à atenção na vida desta personagem é que sobreviveu à custa de uma mentira. Talvez se tivesse sido reconhecido como judeu, tal como Anne Frank fora, não tivesse tido a sorte de escapar impune a esta época histórica. Mas, afinal, até onde devemos encarar a verdade? É errado mentir em qualquer circunstância? A verdade é que na prática muitos de nós põem de parte essa hipótese. A mentira é vista por muitos como algo indesejável e incorreto. Mas será que realmente existe algum critério que separe as ações “moralmente boas” das “moralmente más” e que classifique a mentira como um ato incorreto em qualquer circunstância? Por exemplo, seria errado mentir a um criminoso que procurava um amigo nosso, de modo a salvar-lhe a vida? Deveríamos mentir para salvar a vida de alguém da nossa família?

Immanuel Kant afirma que nenhum indivíduo deve mentir em circunstância alguma e que devemos agir de acordo com o Dever e não a pensar nas consequências das nossas ações. Segundo Kant: “(…) o dever de veracidade não faz qualquer distinção entre pessoas –umas em relação às quais poderíamos ter este dever, outras a propósito das quais dele nos poderíamos dispensar– mas porque é um dever incondicionado, que vale em todas as condições.” Assim, segundo este filósofo, o pai de Theo fez mal em ter mentido para salvar a vida do filho. O seu dever era ter afirmado que este tinha quatro avós judeus, independentemente de conseguir ou não sobreviver à perseguição dos alemães, pois o mais importante era respeitar os deveres universais.

Já John Stuart Mill, um filósofo inglês do século XIX, defende uma perspectiva utilitarista, afirmando que devemos agir de modo a maximizar a felicidade, isto é, proporcionar o máximo de bem-estar ao maior número de pessoas possível. Segundo Mill, a atitude do pai de Theo foi correta pois permitiu que este sobrevivesse, sendo que qualquer pessoa na mesma situação deveria ter agido da mesma maneira.

Podemos ainda abordar a situação desta família segundo outra perspectiva: o egoísmo ético. Esta teoria diz-nos que devemos agir apenas em função do interesse de cada um e do próprio bem-estar. Ayn Rand, uma escritora de origem russa, afirma que “alcançar a própria felicidade é o objetivo moral mais elevado do ser humano”. Sendo assim, para um egoísta ético o pai de Theo agiu moralmente bem ao mentir para salvar a vida do filho pois agiu em função dos seus interesses.

Na minha opinião, a justificação do egoísmo ético face a este problema filosófico é a mais plausível. O pai do autor, ao querer salvar a sua família, sentiu-se na obrigação de mentir. É claro que muitos judeus acharam que não era o mais acertado e aceitaram o seu estatuto social, mas esta foi a forma de conseguir dar relevância aos seus interesses. Mas será que o que o pai de Theo fez foi o mais correto? Não sei e duvido que alguém saiba responder a esta questão com uma certeza absoluta. Uns considerarão que sim, outros que não. Mas deixemos isso ao critério de cada um.



COSTER, Theo, Memórias de Anne Frank, Porto, Edições Asa, 2012

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Foi você que pediu uma consciência moral?

Johnny Depp no filme Sweeney Todd


BARBA OU CABELO? [1]

1
           
            E se um dia um desconhecido lhe oferecer flores, dizendo:

            “Rachei-a de alto a baixo, como um animal, porque ela contava as moscas no tecto enquanto fazíamos amor.” [2]

            que irá pensar, cara leitora, de tal impulso?
           
            E já agora: e porque não uma situação como esta, em que

2

            A senhora Maria deixou a sopa ao lume, fogão no mínimo não vá o feijão queimar-se, bate com firmeza na janela da vizinha e fica à espera:    nada, como de costume, tem de bater outra vez  truz truz  não é que seja má pessoa que até nem é, mas já está dura de ouvido, a Ti Mariana, é por isso que demora, demora, mas olha, parece que já lá vem, ligeira no andar como quem tem de compensar, e a língua afiada que o bairro bem conhece  sempre vais, hã? olha qu’essa camone não vale o trabalho!  mas a senhora Maria não pára, lá vai ela rua acima, dizendo para si mesma que sim que vai, até que nem custa nada, vendo bem, é ir num pé e vir noutro, porque apesar de não ser íntima, sempre se é vizinha, e morrer-se assim como a alemã do 7º,  toda queimada que ficou, coitadinha da Ingrid!  valha a verdade que era um tanto esquisita, diz-se que nem cozinhar sabia, mas isto as estrangeiras é o que se sabe, bem arreadinhas, coisa e tal, sempre no laró mas cozinha nada, e com isto tudo a senhora Maria está já quase a chegar, mas é bom que se despache se não quer ficar sem sopa, e como ela quer a sopa resolve despachar-se e vai daí acelera o passo, pés meio dentro  é melhor tirar o avental  meio fora dos chinelos pretos dos trezentos - e uff! até que enfim, lá chega ela ao cemitério.
            Tudo estava a correr bem (se é que se pode dizer isso de um funeral), o padre Ardósias, apesar de que ainda era cedo, não havia dúvida que estava sóbrio, a família da Alemanha tinha vindo e tudo, mas vestidas assim, senhora Maria, vestidas assim! coscuvilhava a invejosa da Gertrudes, a choradeira da ordem ainda não tinha começado, se bem que um funeral sem choro não é funeral nem é nada! (e esta Gertrudes que não se cala...), a coisa estava portanto a correr dentro dos conformes - e é então que o viúvo se passa completamente dos carretos!
            Nunca tinha visto o menino Edmundo assim!  diria mais tarde a mãe Gija, ama de tudo quanto é garoto lá no bairro, e que o criara desde pequeno. Começava então um nunca mais acabar de pontapés e cabeçadas e socos e cuspidelas e arranhões e tudo, o padre é que as pagou, o Edmundo às cavalitas dele só gritava  eu bem a avisei, eu bem a avisei  e o padre a tentar safar-se  a refeição é sagrada  continuava o Edmundo  a refeição é sagra...  pumba!, um murro bem nos queixos  toma lá a bênção, que é p’ra não me sujares a batina  e a poeirada era tal que já nem se via nada, e o Edmundo  que bem que corre o maganão  zás, num ápice e já estava empoleirado bem no cimo da figueira  vou-vos contar porquê, ai isso é que conto  mas lá se ia acalmando, até já falava mais baixo  mas eu não saio cá de cima!  pois bem, que ficasse  deixem lá ficar o gajo!  e o Edmundo ficava e ameaçava  o primeiro filho da pu...  e a sirene da polícia a aproximar-se  que me tente agarrar...  mas a coisa compunha-se, todos mais calmos, fez-se o jeito ao Edmundo  se quer contar que conte!  e o Edmundo que sim que queria e vai daí conta mesmo, e fica-se então a saber que

            “Com a minha mulher, senhor, passava-se com os ovos estrelados o que se passa com as crianças, nunca a deixavam em paz. A diferença é que as crianças crescem e acabam por se desenvencilhar sozinhas, enquanto que os ovos estrelados... E que se poderá comparar a dois ovos bem estrelados? Comemo-los como o maior dos dons do céu. Passa-se o mesmo com tudo, é uma questão de precisão. Sou pedreiro, sei do que estou a falar. O que é importante para os ovos é a quantidade e a temperatura do óleo onde os deitamos - partidos e despejados com cuidado - e o momento exacto em que temos de os tirar, no instante em que a clara está inchada como a massa de um sonho. Os ovos estrelados não devem “colar”, como ela dizia. Nunca mais o disse, graças a Deus. Um ovo estrelado em que já não se vê a gema ou cuja clara ainda está transparente ou rasgada não é um ovo estrelado nem é nada.
Mas quem poderia prever que a queimadura seria tão grave?” [3]

            A senhora Maria estava estupefacta. Incredulidade no olhar, espanto e medo estampados no rosto, são as pernas que a levam dali para fora,  com licença estou com pressa!  mas a verdade é que está mesmo embora se não lembre porquê, tenta correr sem cair e quase o consegue,  porcaria dos chinelos dos trezentos!  levanta-se ligeira e é então que se lembra: a sopa! esqueci-me da merda da sopa!  e desata a correr por ali abaixo, um pé calçado e outro não, ainda bem que o marido não estava, pensa ela,  logo o Serafim, que detesta violências  e é verdade que ele não estava, não senhor, mas o que a senhora Maria não sabe é que ele não poderia ter lá estado mesmo que quisesse, porque entretanto
3

            O senhor Serafim aproveitou a folga da manhã para ir ao barbeiro. Não ao do costume, que infelizmente está de férias, mas ao novo que abriu no centro da vila. Dirige-se para a cadeira quando chega a sua vez  barba ou cabelo? repara que é novinha em folha só barba, por favor enquanto se senta confortavelmente. Depois de lhe espalhar a espuma pelo rosto e de afiar as navalhas na tira de couro, o barbeiro inicia finalmente o seu trabalho.
            É só então que, em surdina como nas confidências, começa a contar ao senhor Serafim a seguinte história:

            “Sou barbeiro. É uma coisa que pode acontecer a qualquer pessoa. Quero dizer que até esse dia fui um bom barbeiro. Cada qual tem as suas manias, eu não gosto de borbulhas.
            Aconteceu assim: comecei a barbeá-lo calmamente, ensaboei-o com habilidade, afiei a navalha no braço da cadeira e suavizei-a na palma da mão. Sou um bom barbeiro! Nunca cortei ninguém e ainda por cima esse tipo não tinha uma barba muito espessa. Mas tinha borbulhas. Devo reconhecer que nas suas borbulhas não havia nada de especial, no entanto, incomodavam-me, enervavam-me, revolviam-me as tripas.
            A primeira, contornei-a bem, sem grande dificuldade, mas a segunda começou a sangrar. Então, não sei o que me deu, acho que é uma coisa muito natural, aprofundei a ferida e depois, sem poder deixar de o fazer, com um só golpe, cortei-lhe a cabeça.” [4]

            O senhor Serafim sente-se um tanto atordoado. Poderia jurar que o seu rosto está branco como a cal, mas prefere não o fazer. A verdade é que o senhor Serafim não gosta nada de proferir afirmações que não possa provar. Em condições normais, levantar-se-ia para verificar junto a um espelho até que ponto se justificaria a sua suspeita quanto à coloração do rosto. Mas acontece que a presente situação tem muito pouco de normal. Mesmo que quisesse, o senhor Serafim não conseguiria levantar-se, pois tal não lho permitiriam as tremuras que parecem ter tomado conta das suas pernas. E se, por hipótese absurda, o senhor Serafim se tivesse podido levantar e dirigir junto a um espelho, o seu olhar estaria tão turvo e nublado que não conseguiria constatar com a objectividade necessária a coloração do seu rosto.
            Agora que pensa nisso, o senhor Serafim dá-se conta de que deveria ter-se dirigido para casa, imediatamente após ter saído do barbeiro. Realmente, se ficara tão perturbado, porque viera para o café, que ainda por cima está tão cheio? Assim é mais provável que reparem nele, como acontece com o senhor que está sentado na mesa em frente, a olhar fixamente na sua direcção. Também não tem muito sentido ter pedido café com leite e lhe ter deitado açúcar, ele que habitualmente toma descafeinado com um único adoçante. Resta-me mexer com insistência o meu café, para que o açúcar se dissolva bem, pensa para consigo o senhor Serafim, e é isso mesmo que ele sente dever dizer ao senhor que está sentado à sua frente, atendendo ao olhar estranho com que o observa. Sem parar de mexer com a colher, e depois de informar o seu vizinho de mesa de que o açúcar não se encontra ainda suficientemente derretido (sempre com um sorriso nos lábios e a boa educação de que tanto se orgulha), o senhor Serafim encontra-se finalmente com o espírito liberto para tentar entender os mais recentes acontecimentos dessa tarde.
            Que atitudes tão estranhas podem as pessoas ter, pensa o senhor Serafim. Porque lhe teria o barbeiro contado aquilo da borbulha? Tê-lo-ia morto realmente? Como era possível alguém tirar a vida a outra apenas porque não suporta borbulhas? Já não saberão as pessoas  dominar os seus impulsos? Estas e outras interrogações ocupam neste momento o cérebro do senhor Serafim, enquanto a sua mão direita continua, voltas e mais voltas, remexendo com a colher no café com leite, num gesto mecânico, próprio de quem se esqueceu do que está a fazer.
            É então que o senhor sentado à sua frente puxa de uma pistola e dispara no peito do senhor Serafim.

4

            É quase meia-noite. O juiz Garcia revolve-se no leito sem conseguir dormir, apesar do adiantado da hora e do cansaço do corpo. Acende de novo a luz, reacende o cachimbo e semicerra os olhos, expressão muito usual no juiz Garcia quando resolve pensar em algo que o preocupa deveras.
            Esta noite o juiz Garcia não se sente nada feliz, poder-se-ia mesmo afirmar que se encontra um tanto deprimido. O julgamento de hoje no tribunal fez surgir no seu espírito um conjunto pouco homogéneo de pensamentos, constituído por recordações do tempo em que iniciou a sua carreira, algumas preocupações de natureza ética e também por vagas mas incómodas sensações de desalento. Como pessoa metódica que se habituou a ser, o juiz Garcia vai analisar os seus pensamentos um a um, começando por aqueles que lhe ocorreram em primeiro lugar, critério que utiliza habitualmente em situações semelhantes.
            O julgamento de hoje, por exemplo. Não restaram dúvidas quanto à justeza da sua decisão, o próprio condenado o reconheceu. Não, não era disso que se tratava. O problema era o réu, ou melhor, o seu desconcertante à vontade ao confessar o crime, os olhares entediados que cruzava com os jurados, a expressão indiferente com que ouviu a sentença. É nisto que pensa de momento o juiz Garcia, cachimbo na mão, enquanto um leve odor a caramelo emana subtilmente do tabaco, aconchegando os pensamentos num embalo doce, como que a chamar pelas mais queridas das recordações, aquela por exemplo em que...
            Riohacha, algures na América Latina. A pequena cidade onde começou a carreira, já lá vão mais de trinta anos. Vem-lhe agora à memória o seu primeiro grande julgamento, o dos gémeos Vicario e sua irmã abandonada no altar, mais a faca de matar porcos e a honra lavada com sangue, e o ventre de toureiro do noivo arrependido, esfaqueado uma e outra vez e mais outra ainda, tudo isto à luz do dia, bem no centro da praça principal. Lembra-se também do pacto de silêncio que a cidade celebrou, o que permitiu a absolvição dos réus, por absoluta falta de provas e total ausência de testemunhas. Ah!, que bem que sabe ao juiz Garcia recordar esses tempos, em que matar era como que a reparação de uma injustiça, realizada com honra e sem prazer, lamentada pelos homens e compreendida por Deus...
            Enquanto saboreia um último travo do cachimbo e se prepara para dormir, o juiz Garcia pega mais uma vez na pasta acastanhada que contém as actas do julgamento desse dia e relê, a páginas 327 do processo, a insólita confissão do réu:

            “Começou a mexer o café com leite com a colherzinha. O líquido quase transbordava da chávena empurrado pelo movimento do utensílio de alumínio (o recipiente era vulgar, o sítio ordinário e a colher estava arredondada pelo uso). Ouvia-se o barulho do metal contra o vidro. Tim, tim, tim, tim. E o café com leite girava, girava com uma cova no meio. Um maelstrom. E eu encontrava-me sentado mesmo à frente. O café estava à pinha. O homem continuava a mexer, a mexer, imóvel, e sorria ao olhar-me. Senti uma coisa subir por mim acima. Fitei-o de tal maneira que se viu na obrigação de se explicar:
            - O açúcar ainda não está derretido.
            Para mo provar, bateu com a colher várias vezes no fundo do copo. Recomeçou a mexer metodicamente a beberagem, com uma energia redobrada. Voltas e mais voltas, sem parar, eternamente. Voltas e mais voltas e mais voltas. E continuava a olhar para mim, sorrindo. Então puxei da pistola e disparei.” [5]

            Foi você que pediu uma consciência moral?



[1] In CAFÉ, Carlos, Entre o Prazer e o Dever — Variações em torno da moral kantiana, Portimão, Livraria Teorema, 1999, pp. 13 a 16. Este texto, originalmente designado Abertura, foi encenado pelo grupo de Teatro A Gaveta com o título, que entretanto adoptei, de Barba ou cabelo?.
[2] AUB, Max, Crimes Exemplares, Lisboa, Edições Antígona, 1995, pág. 24
[3] Idem, pág. 43
[4] Ibidem, pág. 18
[5] Ibidem, pág. 19

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Nietzsche, Hello Kitty e a Filosofia



NIETZSCHE, HELLO KITTY E A FILOSOFIA


            Muitas pessoas não gostam nada de filosofia. Haverá decerto boas razões para isso. Talvez não tenham gostado da disciplina na escola, por exemplo. Mas também acontece não se gostar porque se vê a filosofia como uma espécie de galeria de notáveis inacessíveis. Vou tentar mostrar neste texto que essa ideia etérea, enfadonha e quase religiosa acerca da filosofia é uma ideia errada.
Há cerca de dois anos, a zona ribeirinha de Portimão foi agitada por uma instalação intitulada Nietzsche e Hello Kitty. Era constituída por um automóvel literalmente forrado com  fotos, desenhos e páginas de livros. Lá dentro, encontravam-se diferentes e surpreendentes objetos e frases que exprimiam pensamentos do filósofo. A frase que se segue não estava lá mas poderia muito bem-estar:

NÃO SEJAS CAMELO.
PORTA-TE COMO UM LEÃO E TEM A CORAGEM DE VOLTAR A SER CRIANÇA!

Que quereria o filósofo dizer com isso do “camelo”? Estará a chamar-nos nomes? E porquê portarmo-nos como um leão? Eu até sou do Benfica... E já agora: “voltar a ser criança”? Como é isso possível? Não se vê logo que isto não tem ponta por onde se lhe pegue?! Por acaso até tem, caro leitor. Pegue numa cadeira e ouça.
Nietzsche disse mal de quase tudo, principalmente dos moralistas e dos padres. Ele próprio confessou que isso lhe dava muito gozo, mas não era por essa razão que o fazia. Nietzsche achava que a Humanidade tinha cometido um erro tremendo. O erro era este: os homens já não sabiam rir! Tinham-se convencido de que a alegria e o prazer eram coisas más e inventaram a Moral, os “bons costumes” e as religiões para terem a ilusão de que essa vida séria, cinzenta e desinteressante que eles levavam seria mais tarde recompensada. Por isso começaram a dizer mal desta vida (que para Nietzsche é a única que existe...) com a esperança de atingirem a “vida eterna”. Ou seja: tornaram-se camelos.
            O camelo é um animal de carga. Existe para levar pesos às costas e espera ser recompensado por isso. Como o moralista, portanto. Um camelo carregado é como um homem subjugado pela moral: submete-se às normas e aos deveres, despreza o corpo e o prazer e faz da vida um sofrimento absurdo. Não satisfeito com isso, o moralista diz mal dos que vivem realmente a vida. Só ergue a cabeça para desdenhar deles, dos que se divertem. Chama-lhes pecadores, irresponsáveis e coisas do género. Depois, volta à rotina bafienta a que chama virtude e lá continua ele, orgulhoso do seu calvário. Até que um dia, farto de tudo isto, o camelo se transforma em leão.
            O leão acordou. O seu rugido poderoso faz tremer tudo à sua volta: os hábitos, os valores, as Igrejas. Ninguém o domina, nada fica de pé. O leão é a revolta contra a moral e os “bons costumes”. O leão diz que tudo não passara de um erro, um longo e estúpido erro, e que, afinal, Deus não existe e que é preciso recuperar de novo a esquecida alegria de viver. Cumprida a sua missão, o leão transforma-se em criança.
            Destruídos os valores tradicionais, desmascarada a virtude, a criança que havia em nós pode agora brincar à vontade, sem sombra de pecado nem medo de castigos. Como escreveu Nietzsche, “a criança é inocência e esquecimento, um começar de novo, um jogo, uma roda que gira por si própria, um primeiro movimento, um sagrado dizer que sim.” Como a Hello Kitty, o Noddy ou Peter Pan…
            Assim falava Friedrich Nietzsche.
            Se a filosofia fosse algo parecido com uma servil veneração de espíritos brilhantes supostamente infalíveis, este artigo ficaria decerto por aqui. Mas não é. A filosofia é um exercício crítico, não uma aceitação dogmática das palavras dos “mestres”. Ler um filósofo criticamente é submetê-lo ao insubstituível tribunal da razão, ao desafio do contraditório. Darei de seguida um pequeno exemplo de como isso se faz.
            Nietzsche é um pensador fascinante. E sedutor. Como ficar indiferente a alguém que escreve coisas como “o que se faz por amor está para além do bem e do mal”? Ou ainda: “não há fenómenos morais, mas apenas uma interpretação moral de fenómenos”… Platão temia o efeito inebriante da poesia, a que chamava o “canto mágico”. Para ele, a filosofia não pode esquecer-se da avaliação crítica das teorias e argumentos dos filósofos. No caso de Nietzsche, por exemplo, há perguntas que têm de ser feitas. Eis algumas: porquê destruir todos os valores? Será que a humanidade andou adormecida e enganada durante séculos? Não servem os valores morais para, entre outras coisas, orientarmos as nossas ações e educarmos os nossos jovens? O que aconteceria se cada um de nós se reservasse o direito de, em nome da “Vida” ou do “Amor”, impor aos outros o que considera como “Bem”? Se os valores morais existentes estão errados, será que tudo é permitido?
            “Derrubar ídolos — eis o que constitui o meu ofício. Não sou um homem, sou dinamite” — gostava Nietzsche de afirmar. Sábia frase, esta. Realmente, idolatrar os pensadores e os “mestres” é um erro grave. Sabe-se que todos os ídolos têm pés de barro. E que, mais cedo ou mais tarde, alguém perceberá isso. Portanto, o melhor é mesmo submeter todas as teorias de todos os filósofos ao fogo cruzado do debate racional. A dinamite da filosofia é o debate crítico de ideias. É por esse motivo que a filosofia deve ser praticada e faz sentido celebrá-la.


Nota: este texto foi publicado pela primeira vez na edição de 19/11/09 do jornal barlavento.online

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Até onde devemos dizer a verdade? Um artigo de crítica filosófica escrito pela aluna Denise Fernandes

Denise Fernandes, a jovem autora do artigo


Até onde devemos dizer a verdade?
por

Denise Fernandes

            Até onde devemos dizer a verdade? Com que preço?
Estas foram algumas das minhas perguntas quando assisti a um episódio da série Anatomia de Grey.  Este último episódio da temporada 6 da série, começa por mostrar-nos a raiva de um homem (Gary Clark) que perdeu a mulher nas instalações do hospital onde agora se encontra. O seu objectivo é matar todos os médicos que estiveram relacionados com o que aconteceu com a sua esposa, como o chefe do hospital, a rapariga que desligou as máquinas que pôs fim à vida da sua mulher, o médico que operou e todos os que se metessem entre ele e o seu objetivo.
No decorrer do episódio, o hospital torna-se um sítio onde o pânico é geral. Miranda Bailey, uma médica, encontra-se no quarto duma paciente (Mary), quando Charles Percy, outro médico, entra no quarto dizendo que o homem com a arma se encontra no andar. Miranda diz ao colega para se esconder dentro da casa de banho e diz a Mary para fingir que está morta, e esconde-se debaixo da cama. Gary Clark entra no quarto. Após uns minutos ouve barulho dentro da casa de banho, dirige-se para lá e mata-o quando ele confirma que é médico. Sem aparente razão, Gary desconfia que alguém se encontra debaixo da cama e aí Miranda Bailey tem de enfrentá-lo. Quando Gary lhe pergunta se é médica enquanto lhe aponta uma arma à cabeça, Miranda entre soluços diz que não é médica, mas sim enfermeira, e com isto, Gary Clark pede desculpa pelo incómodo e dirige-se para a saída continuando a sua busca.
Miranda Bailey mentiu, isso é um facto. Admitindo que é errado mentir, ela agiu mal. Mas a pergunta que temos de nos fazer é: qual é o preço da verdade? Miranda mentiu porque percebeu que seria a única coisa que lhe daria a hipótese de continuar com vida. Se Charles tivesse mentido teria continuado com vida, assim como Miranda continuou.
Sinceridade, não mentir, ser verdadeiro: há excepções? Se sim, quais? Como sabemos quando estamos “autorizados” a mentir? Podemos mentir para evitar que o relacionamento acabe? Podemos mentir para evitar que fiquem com uma má imagem nossa? Uma mentirinha dada pelos pais para o filho não ficar como mau exemplo? Um médico pode mentir, se esse mentira for para o bem do paciente?
Segundo Immanuel Kant, não devemos mentir em circunstância alguma, nem para nosso próprio bem ou de alguém que amamos. Um outro filósofo, Benjamim Constante, acha o acto de não mentir um dever. Mas juntamente com o conceito de “dever” há o conceito de “direito”. E onde não há direito não há dever. Ou seja, só quem tem direito de ouvir a verdade a merece.
Penso que no caso de um assassino nos perguntar o local onde uma pessoa se encontra, nós podemos mentir, pois essa pessoa, uma vez que não respeita o dever também não tem o direito à verdade, pois entre manter a nossa honra ou a nossa vida, ou a vida de outro, devemos escolher a vida. Isto é, portanto, uma hierarquia de valores.
Arthur Schopenhauer argumenta que podemos mentir em algumas situações, desde que não haja injustiça. Temos o direito de mentir para própria protecção, pois impedir que um humano se defenda é injusto.
Qual deles está certo? Ou menos errado?
Na minha opinião, se tivesse de escolher entre as três opiniões, excluiria logo a de Kant, pois a vida é um bem que deve ser protegido e não devemos abdicar de uma vida (nossa ou de outra pessoa) só para protegermos a nossa honra.
Não concordo quando Arthur Schopenhauer diz que nós temos o direito de mentir para nos protegermos, porque se assim fosse, um assassino em tribunal estaria autorizado a mentir sobre o que realmente aconteceu para se proteger e isso seria mau para as possíveis próximas vítimas. Resta Benjamim Constante, que hierarquiza correctamente os valores, não colocando a honra primeiro que a vida.
Parece que Miranda não será julgada por ter mentido, pelo menos por alguns.

Fontes utilizadas : Grey’s Anatomy, Sanctuary