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segunda-feira, 21 de março de 2011

Dia Mundial da Poesia



Hoje é o Dia Mundial da Poesia. Para vós, um abraço em forma de poema:


O Poema


Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne.
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
Ou os bagos de uva de onde nascem
As raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
rios, a grande paz exterior das coisas,
folhas dormindo o silêncio
- a hora teatral da posse.

E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as casas deitadas nas noites
e as luzes e as trevas em volta da mesa
e a força sustida das coisas
e a redonda e livre harmonia do mundo.
- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.

- E o poema faz-se contra a carne e o tempo.

Herberto Helder

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Herberto Helder, Pink Floyd e a atitude crítica



Hoje, numa aula do 10º ano, a propósito de um texto de Herberto Helder, ocorreu-me falar do tema “Another Brick In The Wall”, dos Pink Floyd. E veio à discussão a função da Escola, a importância da disciplina de filosofia, o direito à diferença e o que significa ter atitude crítica, entre outras coisas. E então apercebi-me que a música poderia bem ser a banda sonora do texto. “Sê tu próprio” ou “Pensa por ti mesmo” foram alguns dos títulos sugeridos pelos alunos. Por isso resolvi fazer aqui o que não pude fazer na aula: confrontar o texto com um excerto do filme (Pink Floyd The Wall, 1982) que Alan Parker realizou a partir do álbum da banda inglesa. Cá vai:

Vou contar uma história. Havia uma rapariga que era maior de um lado que do outro. Cortaram-lhe um bocado do lado maior: foi de mais. Ficou maior do lado que era dantes mais pequeno. Cortaram. Ficou de novo maior do lado que era primitivamente maior. Tornaram a cortar. Foram cortando e cortando. O objectivo era este: criar um ser normal. Não conseguiam. A rapariga acabou por desaparecer, de tão cortada nos dois lados. Só algumas pessoas compreenderam.

Herberto Helder, in Photomaton & Vox