Este é um blogue sobre cinema e filosofia (na sala de aula e não só). Mas também sobre música, arte, literatura, entre outras coisas que enriquecem a minha vida. Neste sentido, é também um blogue pessoal.
Hoje sugiro um pequeno vídeo a que fiz referência nas aulas. O protagonista é o filósofo inglês Nigel Warburton, autor de excelentes obras de divulgação filosófica, e nele são apresentados de forma clara e criativa alguns dos problemas filosóficos da teoria do conhecimento.
É uma boa maneira de suscitar perplexidades e despertar a curiosidade em relação a estes problemas filosóficos.
A primeira sugestão
cinematográfica do ano é um filme que os meus filhos me sugeriram
insistentemente nos últimos meses e cuja edição em dvd descobri neste Natal. Refiro-me a “Sr. Ninguém” (Mr. Nobody, 2009), escrito e realizado
pelo belga Jaco Van Dormael, com Jared Leto (actor e vocalista da banda 30 Seconds To Mars), Sarah Polley e Diane
Kruger nos principais papéis.
No ano de 2092, Nemo
Ninguém, um homem de 118 anos, é o último mortal entre os seres humanos que se
tornaram imortais devido aos avanços científicos, envolvendo o rejuvenescimento
perpétuo de telômeros. Entrevistado no seu leito de morte, ele revê a sua vida,
surgindo sérias dúvidas sobre se as suas memórias são reais ou apenas
existências possíveis nascidas na sua imaginação.
O filme utiliza habilmente diferentes
teorias científicas, nomeadamente a teoria do Big Bang e a teoria das cordas. Quanto aos aspectos
filosóficos, são de destacar as perplexidades que provoca quanto à natureza do
tempo e à função da memória na definição do “eu”, mas também por levantar outros problemas filosóficos, tais como a questão do livre arbítrio, a questão ética de
saber o que é uma boa escolha ou a dúvida gnosiológica acerca da distinção
entre a realidade e a ficção.
Juntemos a tudo isto um bom
ritmo narrativo, um bom trabalho dos actores, uma excelente utilização de
imagens esteticamente muito fortes e uma rica banda sonora – e eis-nos perante
um bom filme para iniciar o novo ano.
Deixo-vos com algumas
imagens do filme e o trailer original.
Esteticamente considerado, Truman Show está
naturalmente muito longe de ser uma obra prima. Mas poucos filmes terão a
capacidade de suscitar uma tão grande diversidade de problemas filosóficos como
o filme de Peter Weir. Refiro-me, naturalmente, a problemas filosóficos que
fazem parte dos conteúdos da disciplina de filosofia no ensino secundário.
Ademais, acresce a essa “filodiversidade” o carácter intuitivo, actual e
“realista” da situação de que o filme parte: um reality show. Comecemos precisamente por aqui.
Cada vez mais as programações televisivas incluem
programas deste tipo. E são cada vez mais as horas que lhes são concedidas,
muitas vezes em horário nobre. As estatísticas sobre as audiências mostram-nos
que cada vez há mais espectadores para estes programas. É aqui que os nossos
alunos “entram”, vítimas de um voyeurismo social generalizado, um autêntico
rolo compressor que tudo “normaliza” à sua passagem. E é aqui que a filosofia
deve entrar em cena.
A filosofia nasce do espanto, da interrogação
crítica, do olhar outro que põe em causa a glorificação do olhar “normal”, do
pensar o “mesmo”. Platão celebrou o prisioneiro que se liberta da vida falsa da
caverna; Descartes dizia que viver sem filosofar era como “ter os olhos
fechados sem nunca se esforçar por os abrir”; nesse sentido, Truman é o herói
filosófico que se liberta, o ex-prisioneiro da caverna, aquele que ousa abrir
os olhos e tornar mais autêntica a sua vida.
Tenho vindo a defender que o cinema, com a
suainsuperável capacidade de suscitar
no espectador a identificação com o “herói”, permite aos jovens colocarem-se na
“pele” das personagens e reflectirem filosoficamente sobre os grandes problemas
filosóficos. Paradoxalmente, é precisamente a identificação afectiva com o
herói que facilita o distanciamento crítico em relação à realidade. Assim
entendido, o cinema funciona como um laboratório virtual onde se produzem
diferentes e estimulantes “experiências mentais” filosoficamente relevantes.
Posto isto, regressemos à sala de cinema.
Como já referi, o filme Truman Show permite
abordagens filosóficas invulgarmente diversificadas, no que às disciplinas
filosóficas diz respeito. Vejamos quais.
Comecemos pela filosofia da acção e o problema
filosófico do livre arbítrio. Toda a vida de Truman, decidida e supervisionada
por Christof, obedece a uma apertada rede de condicionamentos sociais que tem
como objectivos principais reduzir as suas escolhas a um leque o mais estreito
possível de possibilidades e, assim, garantir o sucesso do programa televisivo.
Ou seja, quanto mais Truman se parece com uma simples personagem, mais o
argumentista/realizador, Christof, se parece com Deus. Ora, apesar de todos os
condicionamentos sociais hábil e estrategicamente engendrados (fobia ao mar e à
navegação, por exemplo), há algo em Truman que lhes resiste. Predisposição
genética, como gostam de invocar os deterministas radicais? Ou será uma vontade
livre que está para além da herança genética e dos condicionamentos sociais,
como afirmam os defensores do livre arbítrio? Está lançado o debate.
Também a ética perpassa por todo o filme. Desde
logo quando surge a questão: é moralmente errado enganar uma pessoa se, com isso, se proporcionar satisfação e bem-estar a milhões de outras pessoas? Funcionará
neste caso o princípio da maximização da felicidade tão caro ao utilitarismo
(proporcionar o máximo de bem estar ao maior número possível de pessoas)? Ou
será que, como defende Kant, a dignidade da pessoa humana está para além de
tais cálculos? Finalmente: ao decidir abandonar o programa, estará Truman a ser
egoísta? Quem decide, afinal, o que é certo e errado? É tudo subjectivo? Ou será
que o bem e o mal são relativos a cada sociedade? Ou...
E eis-nos já na inevitável paragem seguinte: a
filosofia política. No filme refere-se que a adopção de Truman foi a primeira
realizada por uma empresa, com toda a legalidade. Deveria tal coisa ser permitida?
Deverá o Estado estabelecer limites à exposição pública da vida privada dos
cidadãos? Se sim, quais? E que dizer dos contratos de trabalho celebrados entre
a empresa e os actores que participam no programa? Fazer de esposa como se
fosse a vida real?!
Chegados aqui, percorremos já cerca de 2/3 do
programa de filosofia. Mas poderíamos ainda, no final do 10º ano, explorar como
tema de opção o problema do sentido da vida e teríamos mais uma vez a odisseia
de Truman no centro da discussão...
As férias de Verão já lá vão e estamos em Janeiro,
a iniciar a unidade de teoria do conhecimento do 11º ano. Entre outras coisas,
questionamos o valor e a solidez das nossas crenças acerca do mundo.
Descobrimos, com Platão, o texto histórico da alegoria da caverna e a coragem
de um prisioneiro que ousou libertar-se. Surpreendemo-nos com a bizarra
hipótese do génio maligno inventada por Descartes, que serviu de inspiração aos
irmãos Wachowski em Matrix: imagina
que existe um ser poderosíssimo que se diverte a enganar-nos. Imagina, ainda,
que esse ser perverso e mau tem o poder de criar em nós falsas impressões, de
tal maneira que tudo à nossa volta não passa de uma ilusão, como se
estivéssemos num daqueles sonhos em que tudo parece real, mas não é. Poderá a
nossa vida ser apenas um sonho permanente de que ainda não despertámos?
Termino com um excerto da entrevista que Christof
concede a uma estação de televisão. À pergunta do entrevistador “porque nunca
descobriu Truman a verdade?”, Christof responde com toda a convicção:
“As
pessoas aceitam a realidade do mundo em que vivem. É tão simples como isso.”
Será?
Deixo-vos com o trailer do filme
(*) Produzi este texto no âmbito de uma acção de formação intitulada Por dentro do filme II - Produção de Guiões de trabalho, a partir de filmes seleccionados, que decorreu em Portimão e teve como formadora Graça Lobo. Foi a melhor acção de formação que frequentei em toda a minha vida de professor.
Quando, há uns anos, comecei a utilizar o cinema nas minhas aulas de filosofia, este foi um dos trabalhos de alunos que me deram o sinal de que valia a pena continuar. Por isso retribuo agora com a publicação do artigo, entretanto enviado pela autora via facebook. Obrigado, Tatiana!
Tatiana Nora
ex-aluna da Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes
Os filmesMatrix e Vanilla Sky
e
a hipótese cartesiana do Génio Maligno
por
Tatiana Nora
Neste trabalho
irei abordar o problema da realidade e o problema da liberdade associados à
hipótese cartesiana do génio maligno e
mostrar de que forma estes estão retratados nos filmes Matrix, dos Irmãos Wachowsky, e Vanilla
Sky, realizado por Cameron Crowe.
A hipótese do
génio maligno, também designada por “dúvida hiperbólica”, por ser uma hipótese
bastante exagerada, foi imaginada por René
Descartes, um filósofo do século XVII, e diz que pode existir um ser
semelhante a Deus, mas perverso e maldoso, que nos manipula, nos ilude e nos
engana em relação ao que acreditamos ser verdade, podendo tudo ser apenas uma
espécie de “realidade virtual”. Afirma Descartes:
“Vou supor, por consequência, não o Deus sumamente
bom, fonte da verdade, mas um certo génio maligno, ao mesmo tempo extremamente
poderoso e astuto, que pusesse toda a sua indústria em me enganar. Vou
acreditar que o céu, o ar, a terra, as cores, as figuras, os sons, e todas as
coisas exteriores não são mais que ilusões de sonhos com que ele arma ciladas à
minha credulidade.”
Esta hipótese foi
proposta por Descartes quando este começou a pôr tudo em causa, utilizado a sua
dúvida como método para chegar a uma verdade absoluta (o cogito) e provar que existe conhecimento, e assim conseguir refutar
a tese do cepticismo, que diz que não existem verdades absolutas e,
consequentemente, não há conhecimento.
No filme Vanilla Sky, a hipótese do génio maligno
não está retratada na perfeição, embora David,
o protagonista, viva alguns momentos de realidade virtual, que podem remeter
para esta hipótese. Resumido o filme em poucas palavras: David, um homem bonito
e bem sucedido, tem um acidente em que fica desfigurado e a partir daí a sua
vida desmorona-se. Desesperado, David procura uma solução e encontra na internet
uma empresa, chamada Extensão de Vida,
que promete fazê-lo viver uma vida perfeita, mas em realidade virtual, empresa com
a qual David acaba por assinar um contrato. É exactamente nesta parte que Vanilla Sky se diferencia da hipótese do
génio maligno. Em dois aspectos: o primeiro é que, ao assinar o contrato, David
está a escolher ser “enganado”, e a hipótese do génio maligno diz que pode existir
uma espécie de Deus mau que nos engana a todos, mas este não nos dá a escolher
se queremos ou não ser enganados; o segundo é que David, e as outras poucas
pessoas que assinaram o mesmo contrato com esta empresa, são as únicas a ser “enganadas”,
e segundo a hipótese de Descartes, todas as pessoas são enganadas pelo génio
maligno. Neste filme, a única coisa que nos remete para a hipótese do génio
maligno é o facto de que, embora David tenha assinado o contrato para viver
numa realidade virtual, enquanto está a vivê-la não sabe que o está a fazer. Em
relação ao problema da realidade, neste filme temos a hipótese de assistir a
dois tipos de realidades: a realidade “real” e a realidade virtual, e David só
consegue distingui-las no final do filme, quando descobre que tinha assinado o
contrato com a empresa Extensão de Vida.
Quanto ao problema da liberdade, neste filme vemos claramente que David é
livre, pois é ele próprio que escolhe viver na realidade virtual, e embora esteja
imóvel e preso à máquina, mesmo assim ele tem a hipótese de escolher voltar a
viver uma vida real.
No filme Matrix, a hipótese cartesiana do génio
maligno está tão bem retratada sob a forma das máquinas, que até podíamos
considerá-las como sendo o “génio maligno do século XXI”. Neste filme, com
excepção de um pequeno grupo de humanos livres que vivem no mundo real, aproximadamente
no ano de 2199, todos os outros humanos do mundo estão a viver numa realidade
virtual, que julgam ser o mundo real, através de um programa de computador, o Matrix, ao qual estão ligados através
das máquinas sem qualquer hipótese de escolha, tal como na hipótese de
Descartes do génio maligno. O pequeno grupo livre, cujo objectivo é ganhar a
guerra que está a haver entre os humanos e as máquinas, para poderem libertar o
resto da humanidade, é constituído por pessoas que sobreviveram às máquinas e
por outras que viviam na realidade virtual, mas que, por desconfiarem que a Matrix existia, foram “desligadas” das
máquinas e trazidas para o mundo real. Foi desta forma que Neo, o protagonista do filme, foi trazido para a realidade:
Neo:“Neste momento estamos dentro de um programa de computador?”
Morpheus: “É assim tão difícil de acreditar?”
Em relação ao
problema da realidade, tal como no filme Vanilla
Sky, Matrix também conjuga a
realidade real com a realidade virtual, mas neste filme é possível aos
personagens que não estão ligados às máquinas perceberem se estão na realidade
real ou na realidade virtual, pois eles é que escolhem o momento em que querem
entrar na Matrix. Quanto ao problema
da liberdade, só uma pequena minoria da humanidade é livre, todos os outros
estão presos às máquinas sem poderem sair de lá.
Na minha opinião,
ambos os filmes retratam o problema da realidade de forma parecida, pois ambos
têm momentos de realidade “real” e de realidade “virtual”, embora em Matrix os personagens consigam
distinguir as realidades uma da outra e em Vanilla
Sky o personagem não consiga. Já o problema da liberdade é abordado de forma
diferente, sendo que a forma como é abordado em Matrix tem mais a ver com a hipótese do génio maligno de Descartes
do que no filme Vanilla Sky.