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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Filosofia em vídeo com Nigel Warburton.


Hoje sugiro um pequeno vídeo a que fiz referência nas aulas. O protagonista é o filósofo inglês Nigel Warburton, autor de excelentes obras de divulgação filosófica, e nele são apresentados de forma clara e criativa alguns dos problemas filosóficos da teoria do conhecimento.
É uma boa maneira de suscitar perplexidades e despertar a curiosidade em relação a estes problemas filosóficos.
Divirta-se. 


quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Mr. Nobody, um bom filme com grande riqueza filosófica.


A primeira sugestão cinematográfica do ano é um filme que os meus filhos me sugeriram insistentemente nos últimos meses e cuja edição em dvd descobri neste Natal. Refiro-me a “Sr. Ninguém” (Mr. Nobody, 2009), escrito e realizado pelo belga Jaco Van Dormael, com Jared Leto (actor e vocalista da banda 30 Seconds To Mars), Sarah Polley e Diane Kruger nos principais papéis.

No ano de 2092, Nemo Ninguém, um homem de 118 anos, é o último mortal entre os seres humanos que se tornaram imortais devido aos avanços científicos, envolvendo o rejuvenescimento perpétuo de telômeros. Entrevistado no seu leito de morte, ele revê a sua vida, surgindo sérias dúvidas sobre se as suas memórias são reais ou apenas existências possíveis nascidas na sua imaginação.

O filme utiliza habilmente diferentes teorias científicas, nomeadamente a teoria do Big Bang e a teoria das cordas. Quanto aos aspectos filosóficos, são de destacar as perplexidades que provoca quanto à natureza do tempo e à função da memória na definição do “eu”, mas também por levantar outros problemas filosóficos, tais como a questão do livre arbítrio, a questão ética de saber o que é uma boa escolha ou a dúvida gnosiológica acerca da distinção entre a realidade e a ficção.

Juntemos a tudo isto um bom ritmo narrativo, um bom trabalho dos actores, uma excelente utilização de imagens esteticamente muito fortes e uma rica banda sonora – e eis-nos perante um bom filme para iniciar o novo ano.
Deixo-vos com algumas imagens do filme e o trailer original.






domingo, 24 de novembro de 2013

Uma leitura filosófica do filme Truman Show


O filme Truman Show e a filosofia (*)

Esteticamente considerado, Truman Show está naturalmente muito longe de ser uma obra prima. Mas poucos filmes terão a capacidade de suscitar uma tão grande diversidade de problemas filosóficos como o filme de Peter Weir. Refiro-me, naturalmente, a problemas filosóficos que fazem parte dos conteúdos da disciplina de filosofia no ensino secundário. Ademais, acresce a essa “filodiversidade” o carácter intuitivo, actual e “realista” da situação de que o filme parte: um reality show. Comecemos precisamente por aqui.
Cada vez mais as programações televisivas incluem programas deste tipo. E são cada vez mais as horas que lhes são concedidas, muitas vezes em horário nobre. As estatísticas sobre as audiências mostram-nos que cada vez há mais espectadores para estes programas. É aqui que os nossos alunos “entram”, vítimas de um voyeurismo social generalizado, um autêntico rolo compressor que tudo “normaliza” à sua passagem. E é aqui que a filosofia deve entrar em cena.
A filosofia nasce do espanto, da interrogação crítica, do olhar outro que põe em causa a glorificação do olhar “normal”, do pensar o “mesmo”. Platão celebrou o prisioneiro que se liberta da vida falsa da caverna; Descartes dizia que viver sem filosofar era como “ter os olhos fechados sem nunca se esforçar por os abrir”; nesse sentido, Truman é o herói filosófico que se liberta, o ex-prisioneiro da caverna, aquele que ousa abrir os olhos e tornar mais autêntica a sua vida.
Tenho vindo a defender que o cinema, com a sua  insuperável capacidade de suscitar no espectador a identificação com o “herói”, permite aos jovens colocarem-se na “pele” das personagens e reflectirem filosoficamente sobre os grandes problemas filosóficos. Paradoxalmente, é precisamente a identificação afectiva com o herói que facilita o distanciamento crítico em relação à realidade. Assim entendido, o cinema funciona como um laboratório virtual onde se produzem diferentes e estimulantes “experiências mentais” filosoficamente relevantes. Posto isto, regressemos à sala de cinema.
Como já referi, o filme Truman Show permite abordagens filosóficas invulgarmente diversificadas, no que às disciplinas filosóficas diz respeito. Vejamos quais.
Comecemos pela filosofia da acção e o problema filosófico do livre arbítrio. Toda a vida de Truman, decidida e supervisionada por Christof, obedece a uma apertada rede de condicionamentos sociais que tem como objectivos principais reduzir as suas escolhas a um leque o mais estreito possível de possibilidades e, assim, garantir o sucesso do programa televisivo. Ou seja, quanto mais Truman se parece com uma simples personagem, mais o argumentista/realizador, Christof, se parece com Deus. Ora, apesar de todos os condicionamentos sociais hábil e estrategicamente engendrados (fobia ao mar e à navegação, por exemplo), há algo em Truman que lhes resiste. Predisposição genética, como gostam de invocar os deterministas radicais? Ou será uma vontade livre que está para além da herança genética e dos condicionamentos sociais, como afirmam os defensores do livre arbítrio? Está lançado o debate.
Também a ética perpassa por todo o filme. Desde logo quando surge a questão: é moralmente errado enganar uma pessoa se, com isso, se proporcionar satisfação e bem-estar a milhões de outras pessoas? Funcionará neste caso o princípio da maximização da felicidade tão caro ao utilitarismo (proporcionar o máximo de bem estar ao maior número possível de pessoas)? Ou será que, como defende Kant, a dignidade da pessoa humana está para além de tais cálculos? Finalmente: ao decidir abandonar o programa, estará Truman a ser egoísta? Quem decide, afinal, o que é certo e errado? É tudo subjectivo? Ou será que o bem e o mal são relativos a cada sociedade? Ou...
E eis-nos já na inevitável paragem seguinte: a filosofia política. No filme refere-se que a adopção de Truman foi a primeira realizada por uma empresa, com toda a legalidade. Deveria tal coisa ser permitida? Deverá o Estado estabelecer limites à exposição pública da vida privada dos cidadãos? Se sim, quais? E que dizer dos contratos de trabalho celebrados entre a empresa e os actores que participam no programa? Fazer de esposa como se fosse a vida real?!
Chegados aqui, percorremos já cerca de 2/3 do programa de filosofia. Mas poderíamos ainda, no final do 10º ano, explorar como tema de opção o problema do sentido da vida e teríamos mais uma vez a odisseia de Truman no centro da discussão...
As férias de Verão já lá vão e estamos em Janeiro, a iniciar a unidade de teoria do conhecimento do 11º ano. Entre outras coisas, questionamos o valor e a solidez das nossas crenças acerca do mundo. Descobrimos, com Platão, o texto histórico da alegoria da caverna e a coragem de um prisioneiro que ousou libertar-se. Surpreendemo-nos com a bizarra hipótese do génio maligno inventada por Descartes, que serviu de inspiração aos irmãos Wachowski em Matrix: imagina que existe um ser poderosíssimo que se diverte a enganar-nos. Imagina, ainda, que esse ser perverso e mau tem o poder de criar em nós falsas impressões, de tal maneira que tudo à nossa volta não passa de uma ilusão, como se estivéssemos num daqueles sonhos em que tudo parece real, mas não é. Poderá a nossa vida ser apenas um sonho permanente de que ainda não despertámos?
Termino com um excerto da entrevista que Christof concede a uma estação de televisão. À pergunta do entrevistador “porque nunca descobriu Truman a verdade?”, Christof responde com toda a convicção:

“As pessoas aceitam a realidade do mundo em que vivem. É tão simples como isso.”

Será?

Deixo-vos com o trailer do filme



(*) Produzi este texto no âmbito de uma acção de formação intitulada Por dentro do filme II - Produção de Guiões de trabalho, a partir de filmes seleccionados, que decorreu em Portimão e teve como formadora Graça Lobo. Foi a melhor acção de formação que frequentei em toda a minha vida de professor. 

sábado, 15 de dezembro de 2012

Os filmes Matrix e Vanilla Sky e a hipótese cartesiana do Génio Maligno, por Tatiana Nora

Quando, há uns anos, comecei a utilizar o cinema nas minhas aulas de filosofia, este foi um dos trabalhos de alunos que me deram o sinal de que valia a pena continuar. Por isso retribuo agora com a publicação do artigo, entretanto enviado pela autora via facebook. Obrigado, Tatiana!


Tatiana Nora
ex-aluna da Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes



Os filmes Matrix e Vanilla Sky
e
a hipótese cartesiana do Génio Maligno

por

Tatiana Nora

Neste trabalho irei abordar o problema da realidade e o problema da liberdade associados à hipótese cartesiana do génio maligno e mostrar de que forma estes estão retratados nos filmes Matrix, dos Irmãos Wachowsky, e Vanilla Sky, realizado por Cameron Crowe.
A hipótese do génio maligno, também designada por “dúvida hiperbólica”, por ser uma hipótese bastante exagerada, foi imaginada por René Descartes, um filósofo do século XVII, e diz que pode existir um ser semelhante a Deus, mas perverso e maldoso, que nos manipula, nos ilude e nos engana em relação ao que acreditamos ser verdade, podendo tudo ser apenas uma espécie de “realidade virtual”. Afirma Descartes:

“Vou supor, por consequência, não o Deus sumamente bom, fonte da verdade, mas um certo génio maligno, ao mesmo tempo extremamente poderoso e astuto, que pusesse toda a sua indústria em me enganar. Vou acreditar que o céu, o ar, a terra, as cores, as figuras, os sons, e todas as coisas exteriores não são mais que ilusões de sonhos com que ele arma ciladas à minha credulidade.”

Esta hipótese foi proposta por Descartes quando este começou a pôr tudo em causa, utilizado a sua dúvida como método para chegar a uma verdade absoluta (o cogito) e provar que existe conhecimento, e assim conseguir refutar a tese do cepticismo, que diz que não existem verdades absolutas e, consequentemente, não há conhecimento.
No filme Vanilla Sky, a hipótese do génio maligno não está retratada na perfeição, embora David, o protagonista, viva alguns momentos de realidade virtual, que podem remeter para esta hipótese. Resumido o filme em poucas palavras: David, um homem bonito e bem sucedido, tem um acidente em que fica desfigurado e a partir daí a sua vida desmorona-se. Desesperado, David procura uma solução e encontra na internet uma empresa, chamada Extensão de Vida, que promete fazê-lo viver uma vida perfeita, mas em realidade virtual, empresa com a qual David acaba por assinar um contrato. É exactamente nesta parte que Vanilla Sky se diferencia da hipótese do génio maligno. Em dois aspectos: o primeiro é que, ao assinar o contrato, David está a escolher ser “enganado”, e a hipótese do génio maligno diz que pode existir uma espécie de Deus mau que nos engana a todos, mas este não nos dá a escolher se queremos ou não ser enganados; o segundo é que David, e as outras poucas pessoas que assinaram o mesmo contrato com esta empresa, são as únicas a ser “enganadas”, e segundo a hipótese de Descartes, todas as pessoas são enganadas pelo génio maligno. Neste filme, a única coisa que nos remete para a hipótese do génio maligno é o facto de que, embora David tenha assinado o contrato para viver numa realidade virtual, enquanto está a vivê-la não sabe que o está a fazer. Em relação ao problema da realidade, neste filme temos a hipótese de assistir a dois tipos de realidades: a realidade “real” e a realidade virtual, e David só consegue distingui-las no final do filme, quando descobre que tinha assinado o contrato com a empresa Extensão de Vida. Quanto ao problema da liberdade, neste filme vemos claramente que David é livre, pois é ele próprio que escolhe viver na realidade virtual, e embora esteja imóvel e preso à máquina, mesmo assim ele tem a hipótese de escolher voltar a viver uma vida real.
No filme Matrix, a hipótese cartesiana do génio maligno está tão bem retratada sob a forma das máquinas, que até podíamos considerá-las como sendo o “génio maligno do século XXI”. Neste filme, com excepção de um pequeno grupo de humanos livres que vivem no mundo real, aproximadamente no ano de 2199, todos os outros humanos do mundo estão a viver numa realidade virtual, que julgam ser o mundo real, através de um programa de computador, o Matrix, ao qual estão ligados através das máquinas sem qualquer hipótese de escolha, tal como na hipótese de Descartes do génio maligno. O pequeno grupo livre, cujo objectivo é ganhar a guerra que está a haver entre os humanos e as máquinas, para poderem libertar o resto da humanidade, é constituído por pessoas que sobreviveram às máquinas e por outras que viviam na realidade virtual, mas que, por desconfiarem que a Matrix existia, foram “desligadas” das máquinas e trazidas para o mundo real. Foi desta forma que Neo, o protagonista do filme, foi trazido para a realidade:

Neo: “Neste momento estamos dentro de um programa de computador?”
Morpheus: “É assim tão difícil de acreditar?”

Em relação ao problema da realidade, tal como no filme Vanilla Sky, Matrix também conjuga a realidade real com a realidade virtual, mas neste filme é possível aos personagens que não estão ligados às máquinas perceberem se estão na realidade real ou na realidade virtual, pois eles é que escolhem o momento em que querem entrar na Matrix. Quanto ao problema da liberdade, só uma pequena minoria da humanidade é livre, todos os outros estão presos às máquinas sem poderem sair de lá.
Na minha opinião, ambos os filmes retratam o problema da realidade de forma parecida, pois ambos têm momentos de realidade “real” e de realidade “virtual”, embora em Matrix os personagens consigam distinguir as realidades uma da outra e em Vanilla Sky o personagem não consiga. Já o problema da liberdade é abordado de forma diferente, sendo que a forma como é abordado em Matrix tem mais a ver com a hipótese do génio maligno de Descartes do que no filme Vanilla Sky.