quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Herberto Helder, Pink Floyd e a atitude crítica



Hoje, numa aula do 10º ano, a propósito de um texto de Herberto Helder, ocorreu-me falar do tema “Another Brick In The Wall”, dos Pink Floyd. E veio à discussão a função da Escola, a importância da disciplina de filosofia, o direito à diferença e o que significa ter atitude crítica, entre outras coisas. E então apercebi-me que a música poderia bem ser a banda sonora do texto. “Sê tu próprio” ou “Pensa por ti mesmo” foram alguns dos títulos sugeridos pelos alunos. Por isso resolvi fazer aqui o que não pude fazer na aula: confrontar o texto com um excerto do filme (Pink Floyd The Wall, 1982) que Alan Parker realizou a partir do álbum da banda inglesa. Cá vai:

Vou contar uma história. Havia uma rapariga que era maior de um lado que do outro. Cortaram-lhe um bocado do lado maior: foi de mais. Ficou maior do lado que era dantes mais pequeno. Cortaram. Ficou de novo maior do lado que era primitivamente maior. Tornaram a cortar. Foram cortando e cortando. O objectivo era este: criar um ser normal. Não conseguiam. A rapariga acabou por desaparecer, de tão cortada nos dois lados. Só algumas pessoas compreenderam.

Herberto Helder, in Photomaton & Vox

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Avishai Cohen Duo






A ONU comemora hoje, 21 de Setembro, o Dia Internacional da Paz. Há muitas formas distintas de celebrar a paz e o relacionamento entre os povos. Uma delas é a música. Deixo-vos com o duo de Avishai Cohen no Festival de Jazz de Viena, em 2008.



segunda-feira, 20 de setembro de 2010

A música dos Madredeus

Morreu Francisco Ribeiro, violoncelista e fundador dos Madredeus, um dos grupos mais importantes da história da música portuguesa. Entrou no grupo aos 20 anos e faleceu aos 45, vítima de cancro. "Haja O Que Houver" é a minha música preferida do grupo. Aqui fica para fruição de todos os que a apreciem.


domingo, 19 de setembro de 2010

A minha relação com a filosofia: um texto autobiográfico quase confessional

Auto retrato com flor no bolso


«Filosofia» significa, etimologicamente, «amor à sabedoria». Baptizada com nome de mulher («sofia» ou sabedoria), a Filosofia tem originado ao longo da história reacções díspares. Pessoalmente, tenho mantido com a Filosofia uma relação amorosa nem sempre pacífica. Como todas as histórias de amor, também ela tem tido altos e baixos. As reflexões intimistas despertam em nós recordações e a tentação de fazermos balanços põe-se à espreita. Oscar Wilde dizia que o único modo de nos libertarmos de uma tentação é ceder-lhe. Pois que assim seja.
Deslumbramento. Tenho para aí 13 ou 14 anos. Há assuntos que me intrigam, ideias que me atraem. A vida de cada um de nós é um «livro em branco»? Quem decide o que nele se escreve? Conforta-me a ideia de que somos nós próprios, incomoda-me a possibilidade de que tudo esteja já «escrito». É o meu primeiro amor filosófico, o problema do livre arbítrio. Voltarei a ele regularmente, com o carinho especial que dedicamos ao primeiro amor. Curiosamente, é também o problema filosófico que os alunos de Filosofia do Secundário estudam em primeiro lugar. Agrada-me a ideia de passagem de testemunho.
            Namoro, noivado, casamento. O namoro dura dois anos no liceu, o noivado assumido prolonga-se pelos quatro de Faculdade. Tenho agora vinte e dois anos e acabei o curso. As férias de Verão desse ano são a minha despedida de solteiro. Creio poder dizer que me casei oficialmente com a Filosofia a 21 de Outubro de 1984, em Pinhel, onde me apresento para dar aulas de Filosofia pela primeira vez. Em vez do tradicional «pode beijar a noiva», ouço do presidente do conselho directivo um lacónico «Aqui tem o seu horário. Tem uma aula logo às sete e meia da noite». O meu colega de grupo apadrinha o acontecimento e «tranquiliza-me» deste modo: «Olha, pá, isto não tem nada que saber. Chegas lá, fazes a chamada, escreves o sumário no quadro e enrolas os tipos a falar do programa, blá blá blá, e pronto, está a tocar para sair». Pois, o pior era o blá blá blá… Não fazia a mínima ideia do que era suposto dizer-se numa aula de apresentação e não me lembro minimamente do que disse. Recordo-me bem, isso sim, do que aconteceu depois. Era uma turma de adultos (quase todos mais velhos do que eu…) e a «aula» continuou no bar de um deles, até tarde. Estava frio e pairava no ar um aconchegante odor a lareira. Levaram-me de madrugada à estação para apanhar o comboio. Era quase manhã quando entrei em casa. Esgotado e um tanto «ressacado», como acontece por vezes na noite de núpcias.
Crise conjugal. Passado o entusiasmo próprio dos primeiros anos, os sintomas começam a aparecer. Seria impressão minha, ou era cada vez mais difícil suscitar nos alunos perplexidades que os estimulassem? Darei conta mais tarde de que o problema não residia neles nem em mim, mas sim nos programas da altura. Não é impossível motivar os jovens para a Filosofia a partir dos autores ou de uma perspectiva histórica. Mas é mais difícil e, se calhar, pedagogicamente menos recomendável. As teorias dos filósofos são respostas mais ou menos acabadas a problemas que se mantêm em aberto. E a história da Filosofia (como a história da Arte ou da Ciência), encontra um fio condutor que, embora ordene e «aconchegue» as ideias, esquece por vezes o terreno essencial de onde brotaram: a pergunta. Aprender a filosofar, em vez de aprender a Filosofia, como dizia Immanuel Kant. O caminho parece ser esse. No fundo, trata-se de um regresso: o regresso ao espanto inicial, à interrogação crítica, à perplexidade do primeiro olhar. Apaixonar-me de novo? Porque não?
Paixão da meia idade. Ressurge a ousadia, renasce  o desejo. A atenção centra-se no que é novo, no que nos faz sentir jovens outra vez. Felizmente para mim, este renascimento é um acto de fidelidade e não o contrário. Não tenho de ser infiel, não é necessário procurar fora da Filosofia o que procuro, porque ela continua jovem e sedutora. Volto à faculdade, desta vez para um mestrado em Filosofia da Natureza e do Ambiente. Encontro a Filosofia mais atraente do que nunca. Rejuvenescida, surpreende-me com novos e contemporâneos problemas: Apenas os seres humanos têm valor intrínseco ou também o têm os animais e as plantas? É moralmente errado fazer desaparecer espécies animais e vegetais? Uma espécie em vias de extinção tem mais valor do que uma espécie que o não seja? Temos o dever de manter zonas selvagens na natureza?
Iludam-se, portanto, os que vêem na Filosofia uma senhora idosa e respeitável, mas irredutivelmente ultrapassada pelo tempo. Como se pode ver, ela soube descobrir o elixir da juventude que nos mantém vivos: a capacidade de nos interrogarmos a nós próprios. Perdê-la seria catastrófico, porque ficaríamos sem a chama da racionalidade que distingue a civilização da barbárie. Perdê-la seria ficarmos mais pobres, porque ficaríamos privados do mais subtil dos prazeres do Homem: o prazer de pensar.