quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

"A Corda", de Alfred Hitchcock: como explorar o filme nas aulas de filosofia


A — FICHA TÉCNICA

A Corda 

Título original: Rope

Nacionalidade: EUA (1948)

Realizador: Alfred Hitchcock

Produtores: Alfred Hitchcock/Transatlantic Pictures

Argumento: Arthur Laurents
(a partir da adaptação da peça de teatro Rope´s End, de Patrick Hamilton)

Duração: 77 minutos

Actores e Actrizes:

James Stewart (Rupert Cadell)

John Dall (Brandon Shaw)

Farley Granger (Phillip Morgan)

Cedric Hardwicke (Mr. Kentley)

Constance Collier (Mrs. Atwater)

Joan Chandler (Janet Walker)

Douglas Dick (Kenneth Lawrence)


CURIOSIDADES ACERCA DO FILME:

Como é sabido, Hitchcock faz uma pequena aparição em todos os seus filmes. Neste, aparece logo no início ao atravessar a rua; pode ser visto, também, no néon que reflecte na janela do apartamento dos dois assassinos. 

A Corda foi o primeiro filme a cores de Hitchcock. O filme foi todo realizado em filmagens contínuas de quatro a dez minutos, teve apenas oito cortes e foi editado de tal forma que se tem a impressão que não houve cortes durante as filmagens.

O argumento foi inspirado no caso Leopold-Loeb, dois estudantes da Universidade de Chicago que assassinaram um rapaz de 14 anos de idade apenas pela emoção de matar alguém.

O filme foi rodado em apenas 20 dias num estúdio à prova de som da Warner Brothers. O cenário de fundo foi feito com nuvens de fibra de vidro e miniaturas do perfil de Nova Iorque, iluminado por 2000 luzes incandescentes e 200 letreiros luminosos. À medida que a acção se desenrola, as nuvens movem-se, o sol põe-se e as luzes acendem-se na cidade.

A Corda esteve inacessível ao público por muitos anos, pois Hitchcock havia recomprado os seus direitos, juntamente com os direitos de Janela indiscreta, O homem que sabia demais, Um corpo que cai e O terceiro tiro, para deixá-los de herança à sua filha. Esses cinco filmes ficaram conhecidos como «os cinco filmes perdidos de Hitchcock» e só foram relançados em 1984, cerca de quarenta anos após o seu primeiro lançamento. 

C — ABORDAGEM FILOSÓFICA DO FILME

PROBLEMA: HÁ VERDADES UNIVERSAIS EM ÉTICA?

Ao responderes às perguntas que se seguem sobre o conteúdo filosófico do filme, deves ter sempre presente as teorias que foram apresentadas na aula acerca deste problema filosófico. Ei-las:

A- SUBJECTIVISMO MORAL:
Os juízos morais dependem da perspectiva de cada sujeito — são subjectivos. Em Ética não há verdades universais, cada pessoa tem a sua «verdade».

B- RELATIVISMO MORAL:
Os juízos morais dependem da sociedade em que são proferidos — são relativos. Em Ética não há verdades universais, cada sociedade tem a sua «verdade».

C- OBJECTIVISMO MORAL (perspectiva naturalista):
As noções morais de certo e errado, bem e mal são idênticas para todas as pessoas — são objectivas. Em Ética há verdades universais. Sabemos o que é o bem e o mal «ouvindo» a nossa consciência. Há um sentido moral inato que faz parte da natureza humana.

D- OBJECTIVISMO MORAL (Teoria dos mandamentos divinos):
As noções morais de certo e errado, bem e mal são idênticas para todas as pessoas — são objectivas. Em Ética há verdades universais. Foi Deus quem decidiu o que é o bem e o mal. Os mandamentos divinos são válidos para todas as pessoas.


Ao longo do filme, Brandon expõe por várias vezes a sua convicção segundo a qual não é errado matar pessoas apenas para saber qual será a sensação. Eis alguns exemplos:

Nós matámos pela sensação de perigo e pela sensação de matar.

Ninguém comete um homicídio apenas pela sensação de o cometer. Ninguém, excepto nós.

As noções de bem e mal, certo e errado foram inventadas para os seres inferiores porque eles necessitam delas.

Matar também pode ser uma arte. O poder de matar pode dar tanta satisfação como o poder de criar.

  • Em qual das teorias referidas se enquadram melhor as convicções de Brandon? Porquê?

AS TEORIAS POSTAS À PROVA: exemplos de perguntas

SUBJECTIVISMO MORAL
  • Imagina que todas as personagens do filme são defensoras do subjectivismo moral e descobrem que Brandon e Phillip assassinaram David. Faria sentido que os criticassem por terem agido mal? Porquê? 
  • Rupert Cadell foi professor de Filosofia de Brandon, Phillip e Kenneth. Achas que faria sentido a existência da disciplina de Filosofia numa sociedade organizada de acordo com o subjectivismo moral? Porquê?
RELATIVISMO MORAL
  • Imagina agora que todas as personagens do filme são defensoras do relativismo moral e descobrem que Brandon e Phillip assassinaram David. Faria sentido que os criticassem por terem agido mal? Porquê?
  • Se, por hipótese, o assassínio de David ocorresse numa sociedade onde tal prática fosse considerada normal, que posição deveria assumir o pai de David se fosse defensor do relativismo moral: revolta ou conformismo? Porquê? 
OBJECTIVISMO MORAL
  • Infelizmente, crimes como o cometido por Brandon e Phillip verificam-se com alguma frequência. Considerarias estes casos como contra-exemplos à perspectiva naturalista do objectivismo moral? Porquê?
  • «Pensavas que eras Deus?», pergunta no final o professor a Brandon, escandalizado com o crime que acabara de descobrir. Agora pergunto eu: e se fosse mesmo? Sim, estás a ler bem: e se Brandon fosse, afinal, Deus? Que diria agora o professor, se fosse defensor da teoria dos mandamentos divinos: continuaria a considerar o acto de Brandon moralmente errado? Porquê?


    Para finalizar, eis a cena de abertura do filme:

sábado, 8 de janeiro de 2011

"Todas as Manhãs do Mundo": um elogio belíssimo à Música



"Todas as Manhãs do Mundo" (Tous Les Matins du Monde, 1991), de Alain Corneau, é um dos meus filmes preferidos sobre uma das coisas que mais aprecio na vida: a Música. A banda sonora, interpretada por Jordi Savall, é de uma beleza arrebatadora. Perfeita para ouvir no mp3 nas caminhadas na praia, de preferência com vento e cachecol. 
Aqui fica o trailer:

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Anúncios publicitários




Vendo






BEM ESTE ANÚNCIO NÃO É O QUE PARECE




OFERECE-SE


CÃO DE CAÇA





(Por ter perdido a cedilha)





Andar





à boleia é perigoso




PASTOR ALEMÃO









Procura operária portuguesa
Assunto sério.

Resposta ao nº 007 deste jornal




VENDEM-SE QUINTAS





à tarde e sextas de manhã




PASSA-SE




Qualquer coisa de estranho com estes anúncios





CASA




Ou continua por aí a curtir?

Contacte-nos: www.cupido.pt




ADMITE-SE





lá que num blogue de Filosofia se afixem anúncios destes? 





TROCO

QUOTA







Da província, portuguesa, séria e experiente por jovem brasileira, malandra e decadente

Resposta ao apartado 6969 BRAGANÇA









PROCURO







E continuo a procurar. Alguém me diz que merda de anúncios são estes?



terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Dersu Uzala, de Akira Kurosawa: uma sábia relação do Homem com a Natureza

O realizador Akira Kurosawa

Foi um dos filmes que os meus filhos me ofereceram no Natal. É, talvez, um dos melhores filmes que já se fizeram sobre a relação Homem/Natureza. Absolutamente imperdível. Aqui vos deixo um excerto caçado na net.


domingo, 19 de dezembro de 2010

Bibliofilmoteca n.º 2: A Filosofia Segundo Woody Allen. Uma sugestão com dedicatória para os amantes de filosofia e do cinema de Woody Allen.



   
CONARD, Mark T. , SKOBLE, Acon J. (ed.), A Filosofia Segundo Woody AllenCruz Quebrada, Estrela Polar, 2004, 323 pp.

“Se Deus existe, espero que tenha uma boa desculpa”
Woody Allen

Quem gosta de filosofia vai gostar deste livro. Quem gosta dos filmes de Woody Allen também. Quem gosta das duas coisas (e, ainda, de pensar e falar sobre isso) decerto que vai adorar.
Nesta obra colectiva que mobiliza quinze autores, os filmes de Woody Allen são revisitados a partir dos problemas da filosofia. O modo elegante e divertido como isso é feito é um dos pontos fortes do livro. O outro é a facilidade com que coloca o leitor numa posição de agradável reminiscência em relação aos filmes de Allen vistos há já muito tempo, no ambiente único das salas de cinema de então, antes de terem sido literalmente invadidas pelas pipocas e coca-colas.
Do ponto de vista da filosofia, é longa a lista de problemas, teorias e autores nele incluído. Ética, estética e filosofia da religião são disciplinas muitas vezes abordadas. Platão, Aristóteles, Kant, Nietzsche e Kierkegaard são frequentemente citados e relacionados com os filmes. Deus, castigo, moralidade, sentido da vida, identidade pessoal e felicidade são alguns dos conceitos mais discutidos.
São muitos os filmes abordados no livro. Destacarei apenas um, pelo facto de, para surpresa minha, ter sido o que se diz no livro que me levou ao filme, e não o contrário. Refiro-me a “Crimes e Escapadelas” (Crimes and Misdemeanors), de 1989, o único a “merecer” dois capítulos inteiramente dedicados. 
No capítulo 3, intitulado A Moralidade tem de ser cega? Uma análise kantiana de Crimes e Escapadelas, discute-se a universabilidade que Kant exige para a lei moral. 
No capítulo 13, intitulado Tudo são trevas: Platão, o anel de Gyges e Crimes e Escapadelas, duas das questões filosóficas discutidas são: se nos pudéssemos vingar, recuperar a nossa honra, a nossa riqueza, ou dignidade, através de meios injustos, fá-lo-íamos? Se tivéssemos a garantia da nossa impunidade, seria errado pôr de lado, por uns momentos, a consciência moral e corrigirmos injustiças para benefício pessoal?
Para finalizar, deixo-vos com a cena de abertura do filme “Manhattan”, ao som da “Rhapsody In Blue”, de George Gershwin.


quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Bibliofilmoteca: n.º 1


A bibliofilmoteca é o baú de onde irei retirando, de vez em quando, os filmes e livros de que na altura me apetece falar. Esta é a edição n.º 1.


Título:
O que Sócrates diria a Woody Allen — Cinema e Filosofia
Autor:  Juan Antonio Rivera

Edição original:
Lo que Sócrates diría a Woody Allen, Madrid, Espasa, 2003
Edição portuguesa: Edições Tenacitas, Coimbra, 2006
Tradução: Ana Doolin     Nº de páginas: 340

Citação:

«— Pode aprender-se mais filosofia vendo cinema do que lendo livros?
Não diria tanto, mas aprendi mais com muitos destes filmes do que ao ler alguns dos manuais mais respeitados.»
Juan Antonio Rivera


Juan Antonio Rivera nasceu em Madrid em 1958 e é professor de filosofia do ensino secundário em Barcelona. Tem vários livros editados e participa regularmente em diferentes revistas de filosofia, com destaque para a prestigiada «Claves de Razón Práctica». O que Sócrates diria a Woody Allen é a sua primeira obra sobre cinema e filosofia, premiada com o Prémio Espasa de Ensaio 2003. Do júri deste importante prémio faz parte Fernando Savater, de quem Rivera se considera admirador e cuja influência assume com orgulho, como se depreende do estilo claro e acessível que caracteriza a escrita de ambos.
Rivera define este livro como «uma introdução à filosofia para amantes de cinema e, simultaneamente, uma introdução ao cinema para amantes de filosofia». A estratégia por si utilizada consiste em apresentar e discutir os problemas, as teorias e os argumentos filosóficos a partir do cinema. Este estilo de divulgação da filosofia ao grande público insere-se numa tendência recente que tem vindo a conquistar cada vez mais adeptos, quer entre os professores de filosofia do ensino secundário, quer, inclusive, entre professores catedráticos de conceituadas universidades dos E.U.A., Inglaterra e Espanha, principalmente. Refiram-se, por exemplo, os já clássicos Taking the red pill. Science, Philosophy and Religion in The Matrix, de G. Yeffeth e The Matrix and Philosophy. Welcome to the desert of the real, de W. Irwin; ou, ainda, Philosophy goes to the movies. An introduction to philosophy, de Christopher Falzon e Matrix. Filosofía y Cine, de Concepcíon Pérez García, este último vencedor em Espanha do Prémio Aula 2006, que distingue trabalhos originais da autoria de professores. A última «aventura» nesta área é a colecção americana «Popular Culture and Philosophy» (os autores, sob a coordenação do catedrático W. Irwin, são maioritariamente professores universitários de filosofia), cujas obras relacionam a filosofia não apenas com o cinema, mas também com as séries de televisão, a banda desenhada, a literatura ou a música. Alguns dos mais recentes livros desta colecção têm os títulos sugestivos de A família Soprano e a filosofia (Mato, logo existo), Seinfeld e a filosofia, Super-heróis e a filosofia, Os Simpsons e a filosofia, Harry Potter e a filosofia ou O Hip-Hop e a filosofia...
              O que Sócrates diria a Woody Allen é essencialmente uma iniciação à ética. A maior parte dos temas/problemas pertence ao património perene da filosofia: o amor, a morte, a felicidade, a racionalidade, o mal, a acrasia, o acaso, a formação do gosto moral, entre outros. Mas há também teorias filosóficas que são convocadas, ilustradas e analisadas de modo por vezes surpreeendente. A alegoria da caverna de Platão, a hipótese do génio maligno de Descartes e a máquina de experiências de Robert Nozick são disso exemplo. Quanto aos 25 filmes seleccionados pelo autor, importa dizer duas coisas. A primeira é que o principal critério de escolha foi a sua relevância filosófica, e só depois a sua qualidade estética. A segunda é que, apesar disso, o autor nos presenteia com uma criteriosa selecção de filmes, desde clássicos a filmes mais recentes, que têm o condão de criar em nós, leitores, uma fascinante «reminiscência» cinematográfica. Além disso, desperta-nos um renovado interesse por filmes já vistos e quase esquecidos ou, ainda, por aqueles filmes nunca antes vistos cuja vontade de ver já tinha sido esquecida. A título de exemplo: Casablanca, Blade Runner, Citizen Kane, Desafio Total, Há Lodo no Cais, Matrix, Laranja Mecânica, Hannah e as suas Irmãs, Truman Show, O Efeito Mariposa, Dr. Estranho Amor, Parque Jurássico, etc., etc.
            O que Sócrates diria a Woody Allen pode ser uma autêntica lufada de ar fresco para os professores de filosofia. A sua leitura constituirá, decerto, uma brainstorming fascinante e imprevisível, um laboratório sempre renovado de ideias e estratégias inesgotáveis. Imagine-se, por exemplo, esta espécie de trailer filosófico: como distinguir a realidade da ilusão? Será possível que um ser mau e poderoso me esteja a fazer sentir e pensar que é real o que, afinal, não passa de uma mentira perversa? Uma sugestão para os alunos: coloquem-se no papel de Neo e Truman e… pensem!
            O que Sócrates diria a Woody Allen é um desafio que coloca frente a frente o mais antigo dos saberes com a mais recente das artes. Atreva-se e aceite-o: take the red pill

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Livre arbítrio e insucesso escolar: dois exemplos reais para reflexão



«Correio da Manhã», 7/9/08. Reportagem sobre o abandono escolar e o insucesso.  Vejamos como dois jovens entrevistados explicam o seu insucesso escolar.

João, 22 anos, família rica, já chumbou 4 vezes: «Os meus problemas começaram quando fui expulso do colégio. Tive que sair porque não podiam ter alguém como eu a perturbar as aulas». João padece de uma doença de foro neurológico chamada Síndrome de Tourette, que o leva a ter tiques motores e vocais involuntários que não consegue evitar (faz movimentos bruscos e grita na sala de aula, por exemplo).

Sofia, 17 anos, família pobre, já chumbou 3 vezes. Assume que andou «na balda» durante uns tempos e aponta como uma das causas as «más companhias».

Ambos justificam a sua conduta com factores exteriores à sua vontade: João com a doença, Sofia com as influências sociais.

A pergunta é: faz sentido responsabilizá-los pelo seu insucesso?

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

A FILOSOFIA SERVE PARA ALGUMA COISA? A resposta de Stephen Law.


No programa Câmara Clara, da RTP 2, foi exibida uma entrevista ao filósofo inglês Stephen Law conduzida por Aires Almeida, onde se discute a utilidade da filosofia. Saiba mais no blogue de notícias da Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes em

http://esmtgnoticias.blogspot.com/2010/11/esmtg-referida-na-tv.html

domingo, 21 de novembro de 2010

A FILOSOFIA SERVE PARA ALGUMA COISA? A palavra aos alunos.



A pretexto do Dia Mundial da Filosofia, quis saber o que pensam alguns dos jovens a quem a disciplina se destina no secundário. Coloquei a questão aos meus próprios alunos. Os pequenos textos que se seguem foram retirados de testes em que a pergunta foi feita ou de textos enviados por alunos expressamente para assinalar o dia. Aqui ficam os depoimentos, com um agradecimento aos seus autores.

A FILOSOFIA…

É algo de importante. Antes de ter filosofia pensava que não ensinava nada de especial, mas enganei-me acerca disso, a filosofia ensina a pensar. Quer dizer, antes de ter filosofia já sabia pensar, mas a disciplina fez-me pensar melhor, de outras formas, ensinou-me a ser crítica. (Carla Costa, 10º M)

Ajuda-nos a esclarecer dúvidas quanto ao que está certo ou o que está errado, a partir de situações e perspectivas que muitas das vezes não éramos capazes de nos colocar. (Carlos Nunes, 10º M)

Ajuda-nos a viver na sociedade, a ter a nossa opinião e a defendê-la. A filosofia serve para sermos Alguém. (Neuza Anjos, 10º M)

No meu caso, no início, não achava a filosofia uma disciplina interessante, nem motivante, nem que tivesse a ver comigo. No entanto, ao longo das aulas, fui notando que ao discutirmos problemas filosóficos, ao aprendermos a argumentar, a defendermos a nossa opinião, descobri que a filosofia afinal é importante. (Mariana Henriques, 10º M)

Dá-nos a oportunidade de nos exprimirmos sobre os assuntos que nos inquietam com imensas dúvidas e, que, por sua vez, nos intimidam por esse motivo. (Alexandra Campos, 10º M)

Permite-me ter uma mente aberta, permite-me ser melhor e acreditar que posso ser um ser humano melhor ao ouvir o que o meu amigo, colega, conhecido e desconhecido tem para dizer. O que cada um me transmitir irá ajudar-me a compreender o mundo, com a certeza de que cada um de nós, seres humanos, somos diferentes, e tanto podemos acreditar como discordar acerca do mesmo assunto. (Bianca Sebastião, 11º D)

A Filosofia está presente diariamente na minha vida, pois interrogo-me constantemente sobre determinados assuntos que não têm respostas óbvias, como por exemplo a existência de Deus. (Tatiana Brito, 10º K)

Após um ano como aluna de filosofia, posso dizer que todo esse percurso serviu para um desenvolvimento, não só como indivídua, mas também enquanto aluna, a nível da escrita e da maneira como exponho as minhas ideias. Como indivídua houve também crescimento enquanto cidadã quanto ao meu papel na sociedade. (Nicole Santos, 10º M)

A filosofia serve para lidar com questões que remotam ao tempo antes de Cristo e com as questões actuais que vão surgindo e são enfrentadas todos os dias, como por exemplo: será que Deus existe? (filosofia da religião), ou o que é a arte? (estética).
A filosofia ajuda-nos a tentar arranjar uma solução para estes problemas diários, dando assim hipótese às pessoas de verem outras perspectivas desses vários assuntos e de refutá-los. (Luís Antunes, 10º K)

É a influência da actividade crítica, transmitida pela filosofia, que nos impede de nos tornarmos dogmáticos. Questionando e refutando as opiniões, tornamo-nos seres mais esclarecidos. (Pedro Moniz, 10º M)

Ter opiniões próprias é uma das melhores características que uma pessoa pode ter, pela autonomia de conseguirmos formular opiniões e argumentos próprios sobre um problema. (Pedro Guerreiro, 10º M)

Sendo a Filosofia um meio de discussão crítica, penso que nos ajudará a desenvolver o espírito crítico e a sermos consequentes. (Jessica Pires, 10º K)

Posso dizer que, antes de entrar no secundário, não tinha quaisquer perspectivas ou noções acerca desta disciplina. Hoje, com pouco mais de um mês de Filosofia, consigo dizer sem qualquer dúvida que é uma disciplina interessante, que nos faz pensar por nós próprios sobre assuntos a que nunca demos importância. Para que serve a Filosofia? Pois bem, se não soubermos pensar por nós próprios, então também não iremos ser capazes de agir em muitas situações. (Carolina Reis, 10º M)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Elogio do livre pensamento (dedicado ao Rui Cunha)


“O bom senso é a coisa mais bem distribuída no mundo: de facto, cada um pensa estar tão bem provido dele, que até mesmo aqueles que são os mais difíceis de contentar em todas as outras coisas não têm de forma nenhuma o costume de desejarem mais do que o que têm.”


René Descartes, in O Discurso do Método

Hoje em dia, quase toda a gente se orgulha de ter opiniões. No nosso país, a generalização da liberdade de expressão conduziu a que todas as pessoas exijam ser ouvidas no que têm a dizer sobre os mais variados assuntos. Ora, a vontade de dar opiniões é uma coisa boa. O respeito pelas opiniões dos outros também. Mas há quem infira daqui a conclusão seguinte: se todos temos direito a ter opiniões, então todas as opiniões são igualmente boas. Penso que esta ideia é errada e perigosa.
É errada, porque do facto de termos o direito a algo não se segue que tudo o que fizermos no uso desse direito seja bem feito. Por analogia, isso equivaleria à afirmação seguinte: se todos os maiores de 18 anos têm o direito de conduzir, então todos os maiores de 18 anos conduzem bem. Como se vê, tal coisa não faz o menor sentido.
Mas esta ideia é também perigosa. Dizer que todas as ideias valem o mesmo é o mesmo que dizer que não vale a pena discutir seriamente nenhuma delas.  Precisamente porque valem o mesmo, confrontá-las deixa de fazer sentido. É paradoxal que um direito herdeiro da defesa da liberdade de expressão seja, desta maneira, transformado numa espécie de clorofórmio que adormece o espírito crítico.
São várias as consequências negativas deste equívoco. Uma delas é o facto deste “pântano” amorfo e acrítico poder transmitir aos menos atentos a ilusão perniciosa de que vivemos numa sociedade que valoriza o livre pensamento, o que está longe de ser verdade. Outra consequência negativa é a seguinte: ao confundirem o debate racional de ideias com uma inócua “troca de galhardetes opinativos”, muitas pessoas acabam por se dispensarem do que é essencial no debate de ideias: apresentar argumentos. Ora, da mesma forma que não há opiniões sem ideias, também não há discussão racional sem argumentos. Uma opinião tem a força dos seus piores argumentos, costuma dizer-se. Ocultá-los é uma desonestidade intelectual que choca com o dever ético de sermos verdadeiros numa discussão.
A adopção mais ou menos generalizada desta atitude pseudo-crítica é o habitat natural onde nascem e germinam os preconceitos. E não me refiro às crenças discriminatórias para com os que são diferentes de nós (racismo e xenofobia, por exemplo), mas a um tipo de preconceito menos visível e, por isso, socialmente mais virulento: as crenças que não submetemos ao crivo da avaliação racional. Neste sentido, uma ideia é um preconceito enquanto não for discutida abertamente sem reserva. Muitas das vezes, conceitos que se utilizam com frequência nas mais variadas discussões públicas não passam, de facto, de preconceitos, ou seja, de ideias que se aceitam por hábito, conforto ou pura preguiça.
É aqui que a filosofia tem um papel insubstituível na sociedade. Sócrates comparava-se a um “moscardo”, porque entendia que a sua função era fazer as perguntas incómodas que obrigavam a pensar. O Rui Cunha era um filósofo. Hoje, Dia Mundial da Filosofia, quero mostrar-vos como ele fazia com rigor e espírito crítico o que tenho estado a defender. Escolhi um texto seu sobre um conceito (preconceito?) muito utilizado no discurso pedagógico: o “facilitismo”. 
Leia-o em http://criticanarede.com/html/facilitismo.html


Obrigado, Rui, e até sempre.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Livre arbítrio: um texto já “clássico” de Fernando Savater

Vou contar-te um caso dramático. Já ouviste falar das térmitas, essas formigas-brancas que, em África, constroem formigueiros impressionantes, com vários metros de altura e duros como pedra. Uma vez que o corpo das térmitas é mole, por não ter a couraça de quitina que protege outros insectos, o formigueiro serve-lhes de carapaça colectiva contra certas formigas inimigas, mais bem armadas do que elas. Mas por vezes um dos formigueiros é derrubado, por causa de uma cheia ou de um elefante (os elefantes, que havemos nós de fazer, gostam de coçar os flancos nas termiteiras). A seguir, as térmitas-operário começam a trabalhar para reconstruir a fortaleza afectada, e fazem-no com toda a pressa. Entretanto, já as grandes formigas inimigas se lançam ao assalto. As térmitas-soldado saem em defesa da sua tribo e tentam deter as inimigas. Como nem no tamanho nem no armamento podem competir com elas, penduram-se nas assaltantes tentando travar o mais possível o seu avanço, enquanto as ferozes mandíbulas invasoras as vão despedaçando. As operárias trabalham com toda a velocidade e esforçam-se por fechar de novo a termiteira derrubada... mas fecham-na deixando de fora as pobres e heróicas térmitas-soldado, que sacrificam as suas vidas pela segurança das restantes formigas. Não merecerão estas formigas-soldado pelo menos uma medalha? Não será justo dizer que são valentes?

Mudo agora de cenário, mas não de assunto. Na Ilíada, Homero conta a história de Heitor, o melhor guerreiro de Tróia, que espera a pé firme fora das muralhas da sua cidade Aquiles, o enfurecido campeão dos Aqueus, embora sabendo que Aquiles é mais forte do que ele e que vai provavelmente matá-lo. Fá-lo para cumprir o seu dever, que consiste em defender a família e os concidadãos do terrível assaltante. Ninguém tem dúvidas: Heitor é um herói, um homem valente como deve ser. Mas será Heitor heróico e valente da mesma maneira que as térmitas-soldado, cuja gesta milhões de vezes repetida nenhum Homero se deu ao trabalho de contar? Não faz Heitor, afinal de contas, a mesma coisa que qualquer uma das térmitas anónimas? Porque nos parece o seu valor mais autêntico e mais difícil do que o dos insectos? Qual é a diferença entre um e outro caso?
Muito simplesmente, a diferença assenta no facto de as térmitas-soldado lutarem e morrerem porque tem que o fazer, sem que possam evitá-lo (como a aranha come a mosca). Heitor, pelo seu lado, sai para enfrentar Aquiles porque quer. As térmitas- soldado não podem desertar, nem revoltar-se, nem fazer cera para que outras vão em seu lugar: estão programadas necessariamente pela Natureza para cumprirem a sua heróica missão. O caso de Heitor é distinto. Poderia dizer que está doente ou que não tem vontade de se bater com alguém mais forte do que ele. Talvez os seus concidadãos lhe chamassem cobarde e o considerassem insensível ou talvez lhe perguntassem que outro plano via ele para deter Aquiles, mas é indubitável que Heitor tem a possibilidade de se recusar a ser herói. Por muita pressão que os restantes exercessem sobre ele, ele teria sempre maneira de escapar daquilo que se supõe que deve fazer: não está programado para ser herói, nem o está seja que homem for. Daí que o seu gesto tenha mérito e que Homero nos conte a sua história com uma emoção épica. Ao contrário das térmitas, dizemos que Heitor é livre e por isso admiramos a sua coragem.

SAVATER, Fernando (1993). Ética Para Um Jovem. Lisboa: Editorial Presença. pp. 21-22