sexta-feira, 6 de maio de 2011

Uma carta filosófica para os pais dos meus alunos


FILOSOFIA EM FAMÍLIA, é assim que lhe chamo. A ideia é esta: escrevo pequenas "cartas" filosoficamente provocatórias dirigidas aos pais dos meus alunos. Nelas estão apresentados de forma clara e intuitiva os problemas filosóficos que andamos a debater nas aulas. Espero com isto que o debate se prolongue lá em casa, até porque os pais devem saber o que os seus filhos andam a aprender na escola. É também um bom pretexto para pais e filhos conversarem entre si. A filosofia, que discute problemas que intrigam e nos fazem pensar, também pode servir para isso.
Deixo aqui a última "carta filosófica" que enviei aos pais dos meus alunos. O tema é a filosofia política. A quem pensa que a filosofia não tem nada a ver com a realidade do dia a dia deixo aqui um desafio especial: o que é que os impostos e a proibição de fumar têm a ver com a filosofia? 



SITUAÇÃO 1: O Estado deve redistribuir a riqueza?

O Cristiano Ronaldo tem rendimentos milionários, o Zé da Silva ganha cerca de 500 euros por mês num restaurante. O Zé da Silva paga o imposto mínimo, o Cristiano Ronaldo paga a taxa máxima para os mais ricos, que em Portugal é superior a 40% de tudo o que ganham. É justo?

A: SIM. O Estado tem o direito (e o dever) de redistribuir a riqueza, cobrando mais impostos aos mais ricos para poder dar apoio social aos mais pobres. Cada cidadão deve contribuir para o bem comum na proporção dos seus rendimentos. É com esse dinheiro que o Estado constrói escolas, hospitais, estradas, etc., e apoia os mais necessitados. Chama-se a isto justiça social.

B: NÃO. O Estado não tem o direito de se apropriar da riqueza que os cidadãos juntaram de maneira honesta e legal. A redistribuição da riqueza é ilegítima. Não está certo que aqueles que triunfaram na vida sejam obrigados a dar uma boa parte do seu dinheiro aos que não o conseguiram.


SITUAÇÃO 2: O Estado tem o direito de interferir nos hábitos dos cidadãos (Ex.:  proibição de fumar em quase todos os locais fechados)?

A: SIM. O Estado deve defender a saúde dos cidadãos, proibindo práticas em locais que ponham em causa a saúde pública. Neste caso, o direito (individual) de fumar é menos importante que o direito (colectivo) à saúde.

B: NÃO. O Estado não deve interferir em aspectos da vida privada das pessoas. Cada um é livre de escolher o que quer fazer da sua saúde. O Estado está a violar direitos dos cidadãos. 


SITUAÇÃO 3: Está certo favorecer aqueles que são discriminados na sociedade?

Numa sociedade em que as mulheres sejam discriminadas no acesso a alguns tipos de empregos (chefias de empresas, por exemplo), está certo adoptar uma lei que obrigue a favorecer as candidatas do sexo feminino como forma de compensar a discriminação de que são alvo?

A: SIM. Chama-se a isso «discriminação positiva» e significa que se favorecem intencionalmente pessoas pertencentes a grupos que sejam habitualmente discriminados pela negativa (as mulheres, neste exemplo). A discriminação positiva é uma medida temporária, até que a percentagem de mulheres nos diferentes empregos esteja de acordo com a percentagem de mulheres na sociedade.

B: NÃO. É uma forma injusta de tentar resolver o problema. Não está certo que um candidato a um emprego não seja escolhido, apesar de ser o mais qualificado, porque existe uma lei que dá preferência a quem ficou em 2º ou 3º lugar e é escolhida apenas porque pertence a um grupo socialmente discriminado. É injusto para quem merecia o emprego e foi rejeitado e pode até criar problemas a quem é admitida, porque pode ser acusada de ter o emprego não por ser melhor, mas por ser mulher.

Já pensou e escolheu as respostas certas? Quer saber com que teoria política se identifica mais? Aqui tem as "soluções"...

INTERPRETAÇÃO FILOSÓFICA DOS RESULTADOS:

Maior parte de respostas A: Em termos de filosofia política, as suas posições estão próximas do IGUALITARISMO. Para esta teoria filosófica, a existência de grandes desigualdades é um mal e o Estado deve evitar que elas existam. A IGUALDADE é o valor mais importante.

Maior parte de respostas B: As suas posições identificam-se mais com o LIBERALISMO, que defende que o Estado deve interferir o mínimo possível na vida dos cidadãos. Segundo esta teoria, depende de cada um tentar (ou não...) combater as desigualdades, não deve ser o Estado a tentar impor isso às pessoas. O valor mais importante é a LIBERDADE INDIVIDUAL.



quarta-feira, 4 de maio de 2011

Inteligência artificial: um filme e um livro

O filme:


Blade Runner - Perigo Iminente, de Ridley Scott


O livro:


Das Sociedades Humanas às Sociedades Artificiais, de Porfírio Silva

segunda-feira, 25 de abril de 2011

A filosofia vai ao cinema (e regressa às aulas com ideias novas)




Vou estar em Évora para proferir uma palestra sobre a utilização do cinema como recurso didáctico nas aulas de filosofia, a convite do Departamento de Filosofia, Escola de Ciências Sociais, da Universidade de Évora. No dia
 27 de Abril, pelas 11 horas, na sala 131 do Colégio do Espírito Santo. A entrada é livre.
Depois conto como correu.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Um livro, um filme, uma letra de música, uma notícia... Como fazer um artigo de crítica filosófica?

Filosofar é pensar por si mesmo, de forma pessoal e crítica

Há três anos que exijo aos meus alunos que façam um artigo de crítica filosófica de cerca de uma página a partir de algo por eles escolhido: um livro, um filme, uma peça de teatro, uma letra de música, uma notícia, etc. 
Entre outras coisas, pretendo com isso que os alunos apliquem as competências de crítica filosófica ao que lêem, vêem ou ouvem no seu dia a dia. Que olhem para o mundo que os rodeia com um olhar crítico, portanto. 
Aqui ficam as "instruções" que lhes forneço.


1. O QUE É UM ARTIGO DE CRÍTICA FILOSÓFICA?

É um texto onde se faz análise e crítica filosófica a partir de um livro ou filme, por exemplo. Deve ser claro, crítico e pessoal. E também deve ser sintético, porque um artigo, para ser publicável, deve respeitar o limite de palavras que o editor normalmente exige. E o espaço nos jornais é raro e valioso.

2. COMO ME PREPARO?

Escolhe sobre o que vais escrever: livro, filme, poema(s), letra(s) de música, etc. Informa o teu professor (eu, neste caso), para que ele te possa orientar. Escreve uns tópicos sobre as ideias principais que queres transmitir. Selecciona algumas frases curtas relevantes (se for um livro), ou cenas e diálogos especiais (se for um filme).

3. QUE ASPECTOS DEVE O ARTIGO TRATAR OBRIGATORIAMENTE?

O artigo deve incluir obrigatoriamente duas coisas: 1- uma breve e esclarecedora apresentação do texto ou filme escolhido e 2- uma abordagem da sua relevância filosófica. O mais importante é este último, que pode ser realizado de variados modos, como por exemplo: identificar e clarificar problemas, teses, argumentos ou objecções detectáveis no texto ou filme, com ou sem avaliação pessoal (não é obrigatório apresentares a tua opinião).

4— CARACTERÍSTICAS DO ARTIGO

O artigo deverá ocupar uma página A4, com corpo de letra 11, texto justificado e espaçamento 1.0 ou 1.5. O cabeçalho deve incluir o nome, nº e turma do autor do artigo, o título atribuído e a identificação do texto ou filme abordado.  Exemplo:

É MORALMENTE ERRADO MENTIR POR AMOR?

Textos utilizados: letras das músicas Pasíon (Rodrigo Leão) e Lie To Me (Chris Isaak)

Maria dos Santos, 10º Y, nº 21

Se necessário, o verso da página pode ser utilizado para anexar o(s) texto(s) analisado(s) ou a ficha técnica do filme.

5 — TRÊS CONSELHOS PRÁTICOS

1. Sê pessoal: o artigo deve ter a tua «marca», com o teu «estilo» e forma de pensar; 2. Sê ousado: tem a coragem de seres tu próprio(a); 3. Pensa bem antes de escrever: o artigo não é um teste feito no momento — tens tempo mais do que suficiente para o fazer…

É moralmente errado mentir por amor? A propósito de Pasíon (Rodrigo Leão) e Lie To Me (Chris Isaak)



É MORALMENTE ERRADO MENTIR POR AMOR?

Textos utilizados: letras das músicas Pasíon (Rodrigo Leão) e Lie To Me (Chris Isaak)


            A maior parte das pessoas considera que é errado mentir. Mas algumas delas pensam que há situações em que mentir não é errado, alegando que se tratam de excepções à regra. Será mentir por amor uma dessas excepções?
Nas letras das músicas Pasíon e Lie To Me a mentira tem um papel central. Em Lie To Me, alguém que é infiel debate-se com um sentimento de culpa que, ao que parece, não é suficiente para o levar a deixar de mentir. "Não interessa o que as pessoas possam dizer, eu sei que todos mentem", afirma, talvez desculpando-se, dando a entender que se trata de uma mentira piedosa, para não fazer sofrer alguém que o ama, porque as coisas que faz "despedaçam-lhe o coração". Em Pasíon, diferentemente, é a própria pessoa apaixonada quem pede à pessoa amada que lhe minta e a ame. "Ah, abraça-me esta noite / E ainda que não te apeteça / Prefiro que me mintas", diz ela (ele?) apaixonadamente.  
            Em ambos os casos a mentira surge como algo que parece ter "justificações" que escapam à esfera da moral, provavelmente por se considerar que os sentimentos e a razão são de natureza diferente. Ou, como escreveu um dia Pascal, o célebre cientista e filósofo francês do séc. XVII, "o coração tem razões que a própria razão desconhece".
            O problema filosófico aqui presente é o de saber se mentir por amor constitui uma excepção à regra moral de não mentir. Vou comparar duas posições sobre este assunto.
            Friedrich Nietzsche, filósofo alemão do séc. XIX, considerava que as regras morais eram negativas para o Homem, porque o inibiam de viver a vida em toda a sua intensidade. Para ele, as noções de Bem e de Mal são arbitrárias e falsas. O amor, em contrapartida, é algo de inequivocamente verdadeiro. "O que se faz por amor está para além do bem e do mal", escreveu um dia, tornando claro deste modo que, em sua opinião, nada de errado existe em mentir por amor.
Immanuel Kant, filósofo alemão do sé. XVIII, defendeu a posição oposta. Na sua opinião, a dimensão humana mais importante não é o desejo ou a paixão, mas a razão humana. E a razão humana indica-nos o que devemos fazer, ainda que não nos apeteça. Ora, uma vez que os deveres são iguais para todos os seres humanos (são universais), é moralmente errado abrir excepções para as regras morais, seja em que circunstâncias for. Neste caso em particular, Kant diria que, por muito piedosa ou bem intencionada que fosse, a mentira continuaria a ser moralmente errada. Esta posição enquadra-se na ética deontológica e opõe-se à perspectiva utilitarista, que defende que uma acção é moralmente boa quando proporciona o máximo de bem estar para o maior número possível de pessoas, ou seja, quando as consequências são as melhores possíveis. Para Kant, pelo contrário, a utilidade ou inutilidade são moralmente irrelevantes, uma vez que “o valor moral da acção não reside, no efeito que dela se espera.”
            De um ponto de vista filosófico, a tentativa de resolução deste problema exige que façamos algumas clarificações. Em primeiro lugar, é necessário responder à pergunta: é moralmente errado mentir, seja em que circunstâncias for? Se se considerar que há circunstâncias em que mentir não é errado, a questão seguinte a resolver é a de saber se a mentira no amor é uma dessas circunstâncias. Se a resposta for afirmativa, há outras perguntas que temos de fazer: nenhuma mentira dita por amor é errada? Apenas algumas? Se sim, que tipo de mentira feita por amor é moralmente aceitável e que tipo é que não é?
            Fica lançado o desafio.

LETRAS UTILIZADAS:
  • Pasión


    Música: Rodrigo Leão / Letra: Ana Carolina

    No me olvides
    Que me muero
    Amor, mi vida, sufrimiento
    Yo, te quiero en mi camino
    Por vos, cambiava mi destino

    Ay, abrázame esta noche
    aunque no tengas ganas
    prefiero que me mientas
    tristes breves nuestras vidas
    acércate a mí
    abrázame a ti por Dios
    entrégate a mis brazos.

    Tengo, un corazón penando
    Yo sé, que vos lo estas escuchando
    Con, mil lagrimas te quiero
    Pasión, sois mi amor sincero

    Ay, abrázame esta noche
    aunque no tengas ganas
    prefiero que me mientas
    tristes breves nuestras vidas
    acércate a mí
    abrázame a ti por Dios
    entrégate a mis brazos

    • Lie To Me

    There is a woman, far over the sea.
    Standing and waiting, praying for me.
    Here I lie sleeping, a girl by my side.
    Who am I hurting, each time I lie?
    Lie to me, lie.....
    Lie to me, lie.....
    There is a woman, trying hard to be brave.
    The way that I hurt her, has made her afraid.
    Things that I'm doing, are breaking her heart.
    Still she's pretending, that we'll never part.
    Lie to me, lie.....
    Lie to me, lie.....
    I don't care what people may say, I know everybody lies.
    I'm not trying to hurt my love, I'm only trying to get by.
    There is a woman, far over the sea.
    Standing and waiting, praying for me.
    Here I lie guilty, a girl by my side.
    Who am I hurting, each time I lie?
    Lie to me, lie.....
    Lie to me, lie.....
    Lie to me, lie.....
    Lie to me, lie.....



    segunda-feira, 21 de março de 2011

    Dia Mundial da Poesia



    Hoje é o Dia Mundial da Poesia. Para vós, um abraço em forma de poema:


    O Poema


    Um poema cresce inseguramente
    na confusão da carne.
    sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
    talvez como sangue
    ou sombra de sangue pelos canais do ser.

    Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
    Ou os bagos de uva de onde nascem
    As raízes minúsculas do sol.
    Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
    do nosso amor,
    rios, a grande paz exterior das coisas,
    folhas dormindo o silêncio
    - a hora teatral da posse.

    E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

    E já nenhum poder destrói o poema.
    Insustentável, único,
    invade as casas deitadas nas noites
    e as luzes e as trevas em volta da mesa
    e a força sustida das coisas
    e a redonda e livre harmonia do mundo.
    - Em baixo o instrumento perplexo ignora
    a espinha do mistério.

    - E o poema faz-se contra a carne e o tempo.

    Herberto Helder

    quarta-feira, 16 de março de 2011

    XII Conferência de filosofia da Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes

     

    A filosofia da música em debate em Portimão. E vamos já em doze edições de uma conferência que se afirmou como uma referência na região. Uma excelente oportunidade para os professores de filosofia se actualizarem cientificamente e partilharem leituras e experiências. O grupo de filosofia da Teixeira Gomes está de parabéns. 

    Enaltecido deve também ser o apoio que o Grupo Pestana tem dado a esta iniciativa, através da oferta da estadia ao conferencista, que vai ficar hospedado no hotel Pestana Dom João II. Um local excelente para a reflexão filosófica, de facto, como poderá constatar clicando aqui.

    quinta-feira, 10 de março de 2011

    Teste intermédio de filosofia: a hora do balanço crítico



    Quem o fez, quem o resolve e quem o corrige


    O teste intermédio de filosofia visto de três perspectivas
    Carlos Café
    Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes


    Dia 7 de Março de 2011 foi a data limite para as escolas enviarem para o Gabinete de Avaliação do Ensino Secundário do Ministério da Educação os resultados e a apreciação crítica do teste intermédio de filosofia. Os professores tiveram a oportunidade de comparar os resultados dos seus alunos e avaliar o teste por eles realizado em condições invulgares: o mesmo teste, à mesma hora, em todo o país. Estranhamente, dois terços das escolas decidiram ficar de fora deste processo. Pessoalmente, tenho dificuldade em encontrar um argumento pedagogicamente relevante para sustentar esta decisão, até porque cabia aos grupos disciplinares de cada escola atribuir o peso que o teste teria para os alunos, além de que a não cotação de conteúdos não leccionados estava à partida assegurada. Seja como for, quem decidiu realizar o teste intermédio proporcionou aos seus alunos uma experiência que decerto lhes será útil. E reflectiu em grupo sobre as aprendizagens, os resultados e a qualidade do próprio teste. Penso que esta reflexão deve continuar a ser feita, agora num âmbito mais alargado e público. Este artigo é um contributo para isso.

    Começa assim o artigo que escrevi para a Crítica sobre o assunto. Que pode ser lido aqui.


    sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

    Teste intermédio de Filosofia: uma proposta de preparação para os alunos

    Como não se sabe quase nada acerca do teste intermédio, resolvi criar para os meus alunos uma espécie de teste modelo com perguntas plausíveis, elaboradas de acordo com a tipologia de perguntas disponibilizada pelo GAVE. 
    Aqui fica para partilhar com quem estiver interessado.

    segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

    Do Amor

    O que nos leva a apaixonarmo-nos? O olhar? A voz? A forma de andar? A inteligência? O humor? O corpo? E porque não o modo adorável como dança?

    No Dia do Namorados, uma cena célebre de "Bande à part", de Jean-Luc Godard. Neste caso, numa montagem feita com o tema "Dance with me", dos Nouvelle Vague.

    quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

    "A Corda", de Alfred Hitchcock: como explorar o filme nas aulas de filosofia


    A — FICHA TÉCNICA

    A Corda 

    Título original: Rope

    Nacionalidade: EUA (1948)

    Realizador: Alfred Hitchcock

    Produtores: Alfred Hitchcock/Transatlantic Pictures

    Argumento: Arthur Laurents
    (a partir da adaptação da peça de teatro Rope´s End, de Patrick Hamilton)

    Duração: 77 minutos

    Actores e Actrizes:

    James Stewart (Rupert Cadell)

    John Dall (Brandon Shaw)

    Farley Granger (Phillip Morgan)

    Cedric Hardwicke (Mr. Kentley)

    Constance Collier (Mrs. Atwater)

    Joan Chandler (Janet Walker)

    Douglas Dick (Kenneth Lawrence)


    CURIOSIDADES ACERCA DO FILME:

    Como é sabido, Hitchcock faz uma pequena aparição em todos os seus filmes. Neste, aparece logo no início ao atravessar a rua; pode ser visto, também, no néon que reflecte na janela do apartamento dos dois assassinos. 

    A Corda foi o primeiro filme a cores de Hitchcock. O filme foi todo realizado em filmagens contínuas de quatro a dez minutos, teve apenas oito cortes e foi editado de tal forma que se tem a impressão que não houve cortes durante as filmagens.

    O argumento foi inspirado no caso Leopold-Loeb, dois estudantes da Universidade de Chicago que assassinaram um rapaz de 14 anos de idade apenas pela emoção de matar alguém.

    O filme foi rodado em apenas 20 dias num estúdio à prova de som da Warner Brothers. O cenário de fundo foi feito com nuvens de fibra de vidro e miniaturas do perfil de Nova Iorque, iluminado por 2000 luzes incandescentes e 200 letreiros luminosos. À medida que a acção se desenrola, as nuvens movem-se, o sol põe-se e as luzes acendem-se na cidade.

    A Corda esteve inacessível ao público por muitos anos, pois Hitchcock havia recomprado os seus direitos, juntamente com os direitos de Janela indiscreta, O homem que sabia demais, Um corpo que cai e O terceiro tiro, para deixá-los de herança à sua filha. Esses cinco filmes ficaram conhecidos como «os cinco filmes perdidos de Hitchcock» e só foram relançados em 1984, cerca de quarenta anos após o seu primeiro lançamento. 

    C — ABORDAGEM FILOSÓFICA DO FILME

    PROBLEMA: HÁ VERDADES UNIVERSAIS EM ÉTICA?

    Ao responderes às perguntas que se seguem sobre o conteúdo filosófico do filme, deves ter sempre presente as teorias que foram apresentadas na aula acerca deste problema filosófico. Ei-las:

    A- SUBJECTIVISMO MORAL:
    Os juízos morais dependem da perspectiva de cada sujeito — são subjectivos. Em Ética não há verdades universais, cada pessoa tem a sua «verdade».

    B- RELATIVISMO MORAL:
    Os juízos morais dependem da sociedade em que são proferidos — são relativos. Em Ética não há verdades universais, cada sociedade tem a sua «verdade».

    C- OBJECTIVISMO MORAL (perspectiva naturalista):
    As noções morais de certo e errado, bem e mal são idênticas para todas as pessoas — são objectivas. Em Ética há verdades universais. Sabemos o que é o bem e o mal «ouvindo» a nossa consciência. Há um sentido moral inato que faz parte da natureza humana.

    D- OBJECTIVISMO MORAL (Teoria dos mandamentos divinos):
    As noções morais de certo e errado, bem e mal são idênticas para todas as pessoas — são objectivas. Em Ética há verdades universais. Foi Deus quem decidiu o que é o bem e o mal. Os mandamentos divinos são válidos para todas as pessoas.


    Ao longo do filme, Brandon expõe por várias vezes a sua convicção segundo a qual não é errado matar pessoas apenas para saber qual será a sensação. Eis alguns exemplos:

    Nós matámos pela sensação de perigo e pela sensação de matar.

    Ninguém comete um homicídio apenas pela sensação de o cometer. Ninguém, excepto nós.

    As noções de bem e mal, certo e errado foram inventadas para os seres inferiores porque eles necessitam delas.

    Matar também pode ser uma arte. O poder de matar pode dar tanta satisfação como o poder de criar.

    • Em qual das teorias referidas se enquadram melhor as convicções de Brandon? Porquê?

    AS TEORIAS POSTAS À PROVA: exemplos de perguntas

    SUBJECTIVISMO MORAL
    • Imagina que todas as personagens do filme são defensoras do subjectivismo moral e descobrem que Brandon e Phillip assassinaram David. Faria sentido que os criticassem por terem agido mal? Porquê? 
    • Rupert Cadell foi professor de Filosofia de Brandon, Phillip e Kenneth. Achas que faria sentido a existência da disciplina de Filosofia numa sociedade organizada de acordo com o subjectivismo moral? Porquê?
    RELATIVISMO MORAL
    • Imagina agora que todas as personagens do filme são defensoras do relativismo moral e descobrem que Brandon e Phillip assassinaram David. Faria sentido que os criticassem por terem agido mal? Porquê?
    • Se, por hipótese, o assassínio de David ocorresse numa sociedade onde tal prática fosse considerada normal, que posição deveria assumir o pai de David se fosse defensor do relativismo moral: revolta ou conformismo? Porquê? 
    OBJECTIVISMO MORAL
    • Infelizmente, crimes como o cometido por Brandon e Phillip verificam-se com alguma frequência. Considerarias estes casos como contra-exemplos à perspectiva naturalista do objectivismo moral? Porquê?
    • «Pensavas que eras Deus?», pergunta no final o professor a Brandon, escandalizado com o crime que acabara de descobrir. Agora pergunto eu: e se fosse mesmo? Sim, estás a ler bem: e se Brandon fosse, afinal, Deus? Que diria agora o professor, se fosse defensor da teoria dos mandamentos divinos: continuaria a considerar o acto de Brandon moralmente errado? Porquê?


      Para finalizar, eis a cena de abertura do filme: