segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Colóquio Internacional: Ensinar/Aprender Filosofia num mundo em rede: uma espécie de balanço pessoal

Manuela Martins, José Arêdes e eu

Tinha prometido dizer como correu. Aqui vai, então, num post que é também um... postal. 

Como espectador, gostei da diversidade dos temas abrangidos pelo colóquio. Algumas comunicações não incidiram sobre a filosofia, mas a relevância pedagógica dos temas também se estende ao ensino da filosofia. De entre as comunicações propriamente ditas a que assisti (e que, de uma maneira geral, patentearam um conhecimento muito seguro sobre os filósofos), permito-me destacar três: a "performance filosófica" de Barata-Moura (percebo agora o carinho com que dele falam os meus colegas que foram seus alunos), a argúcia de Leonel Ribeiro dos Santos ao mostrar as implicações didáticas da preocupação kantiana com a clareza e a "beleza" da comunicação em filosofia (um Kant dos nossos dias talvez utilizasse powerpoint...) e a elegante e bem estruturada defesa do filme enquanto texto filosófico apresentada pela Manuela Martins.
Quanto ao meu contributo para o colóquio, retomei brevemente (a “ditadura” do relógio...) algumas ideias sobre como fazer guiões de exploração filosófica dos filmes. A novidade foi a apresentação das linhas gerais do que agora estou a fazer nesta área.
De que são feitos os heróis ou a ética explicada aos jovens a partir do cinema é uma investigação que espero poder concretizar em livro. Como o nome indica, o objetivo é apresentar, explicar e discutir as principais teorias éticas com recurso ao cinema. Com base numa criteriosa e diversificada escolha de filmes, apresentam-se e exploram-se filosoficamente as dúvidas, os dilemas e as escolhas dos “heróis” do cinema. Ao valorizar a utilização do imaginário do cinema como “experiências mentais” filosoficamente relevantes, exploro a insuperável capacidade do cinema em suscitar no espectador a identificação com o “herói”, levando os jovens a colocarem-se na “pele” das personagens e a refletirem filosoficamente sobre os grandes problemas éticos. O exemplo que apresentei foi o que designei por “herói moral kantiano”, a partir do filme “Confesso” (I Confess, EUA, 1953), de Alfred Hitchcock. O utilitarismo de John Stuart Mill, por exemplo, é outro dos modelos de “herói moral” em que estou a trabalhar, também a partir de alguns filmes previamente escolhidos. A minha comunicação será publicada na íntegra nas actas do colóquio.
Agora o postal, para terminar. Não poderia deixar de destacar a atenta organização do colóquio, que nos proporcionou todas as comodidades e nos brindou com excelentes momentos de convívio académico e social. Obrigado e parabéns, Maria Luísa Ribeiro Ferreira. Também foi muito gratificante a partilha de experiências e ideias com os colegas portugueses (palestrantes e espectadores) com quem tive o prazer de conversar. Termino este postal com selos em forma de abraços para o Uruguai, Argentina, Brasil, Itália e Espanha, dirigidos aos colegas não portugueses em sinal de agradecimento pelo seu saber e simpatia. Um abraço especial de “até breve” para o Javier García Medina, Professor de Filosofia do Direito na Universidade de Valladolid e director do Observatório de Direitos Humanos daquela universidade.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Colóquio Internacional: Ensinar/Aprender Filosofia num mundo em rede


Realizado no âmbito das comemorações do Dia Mundial da Filosofia e com o apoio institucional da Comissão Nacional da UNESCO, decorrerá de 24 a 26 de novembro no Anf. III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Apresentarei uma comunicação sobre cinema e filosofia na tarde do dia 25. Depois darei conta do que por lá acontecer. O programa do colóquio pode ser consultado aqui

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Monty Python na comemoração do Dia a Seguir ao Dia Mundial da Filosofia


Inspirado nos Monty Python, o blogue resolveu comemorar hoje o Dia a Seguir ao Dia Mundial da Filosofia. E, para que não se pense que os filósofos sobrevalorizam o espírito e desprezam o corpo, nada como um jogo de... futebol. Que vençam os melhores!

Filosofia

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Os cafés filosóficos de Paris

Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir e amigos no Café de Flore


OS CAFÉS FILOSÓFICOS DE PARIS

por

Carlos Café

(Dedicado à minha filha Maria Miguel)

Inúmeras coisas nos ocorrem quando pensamos em Paris. Muitas delas associadas à cultura, à música, às artes. É compreensível que assim seja. É em Paris que estão os museus do Louvre e d’Orsay. Em Paris viveram Picasso, Toulouse-Lautrec, Degas, Marcel Duchamp, Baudelaire, Rimbaud. O Hot Club foi o berço onde nasceu o jazz manouche de Django Reinardht. Paris acolheu a nouvelle vague de François Truffaut, Jean-Luc Godard e Alain Resnais. Também a filosofia tem grandes nomes associados a Paris. René Descartes, por exemplo, ali viveu alguns anos, desfrutando das tertúlias privadas, à margem do ambiente académico, que mantinha com figuras de proa da ciência e filosofia de então. Mas não são as marcas que a filosofia deixou em Paris que me interessam agora. Interessa-me falar das marcas que Paris deixou na filosofia.
Os professores e os alunos do Liceu, a escola filosófica que Aristóteles criou quando abandonou a Academia de Platão, tinham um hábito curioso: passeavam ao ar livre enquanto filosofavam. Chamavam-lhes “peripatéticos”, palavra grega que significa “os que ensinam caminhando”. Sócrates filosofava com os seus concidadãos de Atenas também ao ar livre, preferindo no entanto a cidade à natureza. Conta-se que, uma vez interpelado sobre a razão porque não usufruía da natureza, respondeu dizendo que lhe interessava principalmente o que pensam os homens e que esses, os homens, estão nas cidades. Sócrates era filho da pólis e um filósofo da ágora, a praça pública. Os romanos adotaram a ideia e criaram o fórum. O conceito sofreu várias alterações ao longo da história, num processo em que o academismo das universidades triunfou quase sempre sobre a informalidade da ágora. Até que em Paris se inventaram os “cafés filosóficos”.
O Café de Flore é um dos mais famosos. Frequentado por artistas e intelectuais, ficou fortemente associado à filosofia quando nele passaram a ter presença assídua alguns dos mais influentes filósofos parisienses da época. Um casal se destacou de entre os frequentadores habituais: Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Mantendo uma relação amorosa intensa e pouco convencional, foram provavelmente o núcleo mais mediático de um grupo que incluía, entre outros, o filósofo e escritor de origem argelina Albert Camus.
Retomando reflexões anteriores de filósofos como Friedrich Nietzsche, Sören Kierkegaard e Martin Heidegger, que tinham colocado a existência humana e a discussão em torno do seu valor e autenticidade no centro de debate filosófico, a filosofia parisiense da época dará ao tema da existência uma dimensão absolutamente fundamental. Nascia assim o existencialismo.
Apesar das particularidades de cada um dos pensadores (Simone de Beauvoir, por exemplo, destacar-se-á pela teorização do feminismo), os existencialistas partilhavam um grande número de teses, preocupações filosóficas e estratégias de divulgação e discussão das suas ideias.
A tese fundamental é a de que a existência é o mais importante dos assuntos filosóficos. O que fazer dela, como conduzir as nossas vidas, que opções são mais legítimas e autênticas ou que responsabilidades temos na relação com os outros e o curso do mundo – eis algumas das preocupações filosóficas comuns aos existencialistas. Camus chegou a afirmar que o verdadeiro problema filosófico é o suicídio, na medida em que a decisão de nos mantermos vivos pressupõe a resposta ao problema filosófico do sentido da vida. Outro traço particularmente evidente do existencialismo é o seu não academismo. Privilegiando as discussões informais em cafés e tertúlias mais ou menos espontâneas em detrimento da formalidade dos ensaios académicos, apresentam as suas ideias em novelas, romances, peças de teatro e entrevistas, envolvendo desse modo um público interessado mas pouco disponível para a tradicional filosofia das universidades.
Os lugares onde muitas dessas ideias nasciam e floresciam eram, muitas das vezes, os cafés de Paris. Hoje tudo é diferente. Uma boa parte desses cafés ou desapareceu ou são agora locais turísticos, elitistas e caros. Mas mantém-se viva a ideia do café filosófico como tertúlia informal e acessível a todos os que gostam de pensar os problemas filosóficos, resgatando desse modo o velho espírito da ágora ateniense. Resta-nos imaginar como seria o ambiente desses cafés…
Artistas, escritores, filósofos, músicos e muita, muita gente normal. Convivem entre si sem formalidades, com a familiaridade própria dos clientes habituais. Consomem croissants, café au lait, refeições tardias, vinhos tintos e Marie Brizard. Lêem, conversam, observam. Os odores a café e aos tabacos da cachimbo sobressaem de entre os demais. A discussão, apaixonada e apaixonante, surge com espontaneidade. Como o diálogo imaginário que se segue, entre a Maria Miguel, uma jovem aprendiz de filosofia, e o filósofo Jean-Paul Sartre:

Maria Miguel: Obrigado por ter acedido a participar neste diálogo “faz de conta”. Vou aproveitar para satisfazer a minha curiosidade e, ao mesmo tempo, esclarecer as dúvidas com que se deparam normalmente os jovens da minha idade quando, nas aulas de filosofia, se estudam as suas teorias. Posto isto, eis a primeira pergunta: o que têm de comum os existencialistas.
Sartre: O facto de admitirem que a existência precede a essência.
Maria Miguel: Que significa...
Sartre: Significa que o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo; e que só depois se define. Só depois será alguma coisa e tal como a si próprio se fizer. O homem não é mais que o que ele faz. Tal é o primeiro princípio do existencialismo.
Maria Miguel: Cada um decide e é responsável por aquilo que é, pelas suas escolhas. Desamparado?
Sartre: Quando se fala em desamparo, queremos dizer somente que Deus não existe e que é preciso tirar disso as mais extremas consequências.
Maria Miguel: Como por exemplo...
Sartre: O existencialista pensa que é muito incomodativo que Deus não exista, porque desaparece com ele toda a possibilidade de achar valores num céu inteligível. Dostoiewsky escreveu: «Se Deus não existisse, tudo seria permitido». Aí se situa o ponto de partida do existencialismo. Tudo é permitido se Deus não existe, fica o homem, por conseguinte, abandonado, já que não encontra em si, nem fora de si, uma possibilidade a que se apegue.
Maria Miguel: Assim ficamos sem desculpas se as nossas escolhas não forem boas!
 Sartre: Exato. Antes de mais nada, não há desculpas para ele. Estamos sós e sem desculpas. É o que traduzirei dizendo que o homem está condenado a ser livre.
 Maria Miguel: “Condenado a ser livre”? Parece-me uma contradição! Como pode um condenado ser livre? Importa-se de me explicar?
Sartre: Condenado, porque não se criou a si próprio; e, no entanto, livre porque uma vez lançado ao mundo é responsável por tudo quanto fizer.

            C’ est fini. Au revoir.

Notas: Este texto foi escrito para celebrar o Dia Mundial da Filosofia na Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes em 2011. Todos os professores escreveram e expuseram um texto subordinado ao tema: "lugares filosóficos". Escolhi Paris.
O pequeno diálogo é retirado de um texto de minha autoria intitulado “Entrevista Imaginária com Jean-Paul Sartre”, escrito em 1997, o ano de nascimento da minha filha. As “respostas” de Sartre são retiradas textualmente da sua obra O Existencialismo é um Humanismo, editado em Portugal pela Presença.
Este texto foi escrito enquanto ouvia a banda sonora do filme O Fabuloso Destino de Amélie.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Exercícios de lógica a pedido


A pedido de alunos, aqui ficam alguns exercícios de lógica resolvidos. Foram retirados de testes deste ano.

·         A Carla tinha a crença de que sempre que o Hulk e o João Moutinho jogam, o Porto vence. No último fim de semana ficou a saber que a sua crença era falsa, apesar do João Moutinho ter jogado. O Hulk jogou? Reconstitui o raciocínio que te conduziu a essa conclusão.

A proposição tem a estrutura de uma condicional: (PQ) → R. Para ser falsa, a antecedente tem de ser verdadeira e a consequente falsa. Sendo a antecedente uma conjunção, apenas é verdadeira se ambas as proposições forem verdadeiras. Se atribuirmos a Q “João Moutinho joga”, a proposição P (“Hulk joga”) terá de ser verdadeira. Portanto, Hulk jogou.

·         Considere-se a proposição P (QR). Se R for falsa, a proposição pode ser verdadeira? Porquê?

Sim, depende do valor de verdade de P. Tratando-se de uma condicional, a proposição é falsa se, e só se, a antecedente (P, neste caso) for verdadeira e a consequente falsa. Portanto, se P for falsa a proposição é verdadeira. Se P for verdadeira, a proposição é falsa, uma vez que a conjunção QR (a consequente) é falsa porque uma conjunção é verdadeira se, e só se, forem verdadeiras as proposições que a constituem. O que não se verifica porque R é falsa.

·         ¬ (P V Q) é verdadeira. Sendo P falsa, qual é o valor de verdade de Q? Porquê?

Q é falsa. Se a negação é verdadeira, a proposição negada é falsa. A única circunstância em que uma disjunção inclusiva é falsa é quando são falsas as proposições que a constituem. Sendo P falsa, Q terá de ser falsa também.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Elegia ao livro de ponto

A última foto antes do prematuro desaparecimento


ELEGIA AO LIVRO DE PONTO

O livro de ponto deixa saudades.

Era como um amigo que nos habituámos a ter ali. À mão, literalmente.  Nele registámos o nosso dia a dia, ano após ano, como um diário coletivamente partilhado.

O livro de ponto estava para o professor como o caderno onde se tomam notas sobre o doente está para o médico. Em ambos se registam as informações inacessíveis aos doentes e aos alunos: os diagnósticos e as faltas, por exemplo. Ambos são um símbolo de poder: legitimam a autoridade, sustentam as regras de funcionamento, delimitam os dois lados do exercício profissional – o público, acessível a todos, e o privado, da exclusiva responsabilidade de quem exerce. O que se escrevia no livro de ponto era lei: o sumário, as datas dos testes, as faltas. Tempos houve em que a falta a vermelho provocava angústia idêntica a um devastador diagnóstico médico: ambos eram tão temidos quanto inapeladamente irreversíveis.

Mas o livro de ponto também era um hino à caligrafia em toda a sua diversidade. O livro de ponto não era xenófobo: aceitava letra pequena, grande e média, em diferentes cores, feitios e estilos. Era também democrático: quer fossem inclinadas para a direita, rigorosamente centradas ou com evidente inclinação para a esquerda, todas as caligrafias cabiam nele. Também não era nacionalista, o livro de ponto. Aberto ao diálogo intercultural, acolhia com igual disponibilidade os sumários escritos em língua portuguesa (com ou sem acordo ortográfico), inglesa, francesa, espanhola, alemã, ou mesmo latim e grego.  

Foi o livro de ponto que ajudou a identificar a jovem professora na sua primeira aula, resguardando-a do embaraço de ser confundida com uma nova aluna. Que funcionava como um mural onde os professores comunicavam entre si, muito antes de haver os e-mails ou o facebook. Era o livro de ponto que nos disciplinava na marcação dos testes, impedindo que os alunos tivessem mais do que um no mesmo dia. Era atrás dele que procurávamos disfarçar o nervosismo da primeira aula, era através dele que memorizávamos os nomes dos alunos ao fazermos a chamada. A ele confiámos as pequenas mentiras piedosas: a primeira aula que nunca é como nele dizemos que é, a última do ano que sempre acaba antes da hora que nele registamos. Sem ele, perdemos o álibi que nos permitia mandar os alunos ir entrando ao primeiro tempo enquanto íamos à sala de professores buscar o livro de ponto e tomar rapidamente um café...

Conseguem imaginar um médico sem estetoscópio, um funcionário público sem esferográfica, um polícia sem boné, um cozinheiro sem avental?

Descansa em paz, livro de ponto. Viverás para sempre nas nossas memórias.

sábado, 30 de julho de 2011

terça-feira, 7 de junho de 2011

"A Insuperável Beleza do Parecer - Oscar Wilde num diálogo de máscaras": um texto inédito que escrevi para café teatro.





Escrevi há uns anos este texto para um espectáculo de café teatro que nunca cheguei a encenar. É um texto para dois actores e exige um público noctívago, aberto a ideias provocatórias. Duas personagens, Oscar e Dorian, discutem entre si o Amor, a Arte, a Traição, a Mulher, o Prazer, os Vícios, a Beleza... Todas as palavras foram retiradas de dois livros de Oscar Wilde: O Retrato de Dorian Gray e Intenções.

Enquanto escrevia imaginava mais ou menos isto:

Um bar com muito fumo, à noite. Ao centro, uma mesa e duas cadeiras. Os actores estão sentados. O cenário é o próprio bar, o público espalha-se pelas outras mesas. O espectáculo tem duas partes distintas, separadas por um longo intervalo em que actores e público saboreiam uma agradável ceia. Idealmente, o espectáculo começa muito tarde, para que o final coincida com o nascer do sol. 
Se tiver paciência para ler o texto até ao fim perceberá porquê.



 A INSUPERÁVEL BELEZA DO PARECER

Oscar Wilde num diálogo de máscaras



           

PERSONAGENS

Oscar e Dorian



Para mim, a Beleza é a maravilha das maravilhas.
O verdadeiro mistério do mundo é o visível, e não o invisível...

Oscar Wilde



Primeira Parte

           

            DORIAN (vindo, por uma janela aberta, do terraço)  Meu caro Oscar, não fiques engaiolado na biblioteca todo o dia. Está uma tarde absolutamente adorável. O ar é belíssimo. Há uma neblina sobre o bosque que é como a floração roxa da ameixa. Vamos deitar-nos na relva, fumar cigarros e gozar a Natureza.

            OSCAR  Gozar a Natureza! Fico contente por poder dizer-te que perdi por completo a capacidade de o fazer.

            DORIAN  Bom, não tens de olhar para a paisagem. Podes apenas estender-te na relva, fumar e conversar.

            OSCAR  Mas a Natureza é tão desconfortável. A relva é dura, cheia de torrões e húmida, e coberta de pavorosos insectos negros. Mas não me queixo. Se a Natureza tivesse sido confortável, a Humanidade nunca teria inventado a arquitectura, e eu prefiro uma casa a uma vida ao ar livre.

            DORIAN  A tua teoria é, sem dúvida, muito curiosa. Estás preparado para a demonstrar?

            OSCAR  Eu estou preparado para demonstrar o que for preciso, Dorian.

            DORIAN  Sou todo ouvidos.

            OSCAR  Meu caro, a Natureza não é nenhuma grande mãe que nos tenha gerado. É uma criação nossa. É no nosso cérebro que ela ganha vida. As coisas existem porque as vemos, e aquilo que vemos, e o modo como o vemos, depende das Artes que nos tiverem influenciado. Olhar para uma coisa é bem diferente de ver uma coisa. Ninguém vê uma coisa até ver a sua beleza. (Dorian sorri) Tu sorris. Dá-me outro cigarro, por favor.

            DORIAN  Aqui tens. Sabes, decerto, a novidade.

            OSCAR  Não, Dorian. Que é? Espero que não seja nada de política. É coisa que não me interessa.

            DORIAN  Henry está noivo!

            OSCAR  Henry vai casar! Impossível!

            DORIAN  É absolutamente verdade.

            OSCAR  Com quem?

            DORIAN  Com uma actrizita qualquer. Oxalá seja boa rapariga. Não quero ver o Henry preso a uma criatura vil, que pudesse degradar-lhe o carácter e arruinar-lhe a inteligência. E tu, Oscar, aprovas?

            OSCAR  Eu agora não aprovo nem reprovo coisa alguma. É tomar para com a vida uma atitude absurda. Não nos mandaram ao mundo para fazermos estendal dos nossos preconceitos morais. Nunca faço caso do que dizem as pessoas vulgares e nunca me meto nos actos das pessoas encantadoras.

            DORIAN  Falas a sério?

            OSCAR  Sabes que não sou um paladino do casamento. O verdadeiro defeito do casamento é pôr termo ao egoísmo. E as pessoas que não são egoístas são incolores. Carecem de individualidade.

            DORIAN  Estás a confundir-me.

            OSCAR  O único encanto do casamento é o tornar absolutamente necessária uma vida de engano mútuo. Hoje em dia todos os homens casados vivem como se fossem solteiros e todos os solteiros como se fossem casados. Que tolices se dizem a respeito dos casamentos felizes! Um homem pode ser feliz com qualquer mulher, enquanto a não amar.

            DORIAN  Oscar, não fales assim!

            OSCAR  Parece-me que te esqueces de que sou casado. Eu nunca sei onde está a minha mulher, e a minha mulher nunca sabe o que eu faço...

            DORIAN  Detesto a maneira como falas da tua vida conjugal.

            OSCAR  Nunca te cases, Dorian. Quando a gente está enamorada, começa sempre por se enganar a si e acaba sempre por enganar os outros. É a isso que o mundo chama romance.

            DORIAN  Que cínico! 

            OSCAR  Os homens casam por cansaço; as mulheres por curiosidade. Espera-os a todos uma decepção.

            DORIAN  Não me parece.  

            OSCAR  Aqueles que são fiéis somente conhecem do amor o lado trivial: só os infiéis é que conhecem as tragédias do amor. A fidelidade é para a vida emocional o que é a coerência para a vida intelectual — simplesmente uma questão de impotência.

            DORIAN  Oscar?!...

            OSCAR  Meu caro Dorian, a fidelidade é meramente uma questão de fisiologia. Nada tem que ver com a vontade. Os jovens querem ser fiéis, e não são; os velhos querem ser infiéis, e não podem: nada mais se pode dizer. (Dizendo isto, Oscar acendeu um fósforo numa elegante caixa de prata e começou a fumar um cigarro com um ar soberano e satisfeito, como se houvera condensado o mundo numa frase)

            DORIAN  Como podes falar assim?! E o casamento?

            OSCAR  Sim? Que é o casamento?

            DORIAN  “Que é o casamento?” Um contrato irrevogável, para sempre!

            OSCAR  Sempre! É uma palavra terrível! Faz-me tremer cada vez que a ouço. As mulheres gostam tanto de a empregar... Estragam todos os romances, tentando fazê-los durar eternamente. É, demais a mais, uma palavra sem significação. A única diferença entre um capricho e uma paixão eterna é que o capricho dura um pouco mais.

            DORIAN  Deves admitir, Oscar, que as mulheres dão aos homens o próprio oiro das suas vidas. Seja o que for que elas nos peçam, já primeiramente no-lo deram. Elas criam em nós o Amor. Têm direito a pedirem-nos que lho devolvamos.

            OSCAR  É possível, mas reclamam-nos invariavelmente um troco tal... Isso é que é aborrecido. As mulheres, como disse um dia um francês de espírito, inspiram-nos o desejo de fazer obras-primas e impedem-nos sempre de as executar.

            DORIAN  Tu és terrível!

            OSCAR  As mulheres são um sexo decorativo. Nunca têm nada que dizer, mas é um encanto ouvi-las. Representam o triunfo da matéria sobre o espírito, como os homens representam o triunfo do espírito sobre a moral.

            DORIAN  Oscar, as tuas ideias aterram-me!

            OSCAR  Meu caro Dorian, é absolutamente verdade. Ando agora a analisar as mulheres, por isso devo saber. Uma mulher fica plenamente satisfeita quando pode parecer dez anos mais nova que a filha.

            DORIAN  Não concordo com uma só palavra do que disseste, e, o que é mais, Oscar, tenho a certeza de que tu também não. O teu cinismo é simplesmente uma pose.

            OSCAR  Ser natural é simplesmente uma pose, e a pose mais irritante que eu conheço.

            DORIAN  Não estás a falar a sério, Oscar. Estás a representar!

            OSCAR  Gosto de teatro. É ainda mais real que a vida. O homem é menos ele próprio quando fala em seu próprio nome. Dêem-lhe uma máscara e dir-vos-á a verdade. (Olha para o relógio) Mas vejo que são horas de cear.

            DORIAN  Ah! Admites então que não estavas a falar a sério? 

            OSCAR  Não estou bem certo. Talvez possa admiti-lo depois da ceia. Há uma influência subtil numa ceia.

(É servida a ceia)     




Segunda Parte




            DORIAN  As hortulanas estavam deliciosas e o Chambertin perfeito. E, agora, voltemos ao que estávamos a discutir.

            OSCAR  Ah, deixemo-nos disso. A conversa deve aflorar tudo, mas não se concentrar em nada.

            DORIAN  Não, eu quero discutir algumas coisas que disseste.

            OSCAR  (sorrindo) Já me esqueci do que disse. Disse coisas inconvenientes?

            DORIAN  Muito. Efectivamente, eu considero as tuas ideias muito perigosas.

            OSCAR  Uma ideia que não é perigosa não é, de modo nenhum, digna de ser considerada uma ideia.

            DORIAN  Não me surpreende nada que toda a gente diga que és incrivelmente incoerente...

            OSCAR  É perfeitamente monstruosa a maneira como hoje andam por trás das nossas costas a assacar-nos coisas que são inteira e absolutamente verdadeiras.

            DORIAN  És realmente incorrigível!

            OSCAR  Assim o espero. Quem é que quer ser coerente? Os estúpidos e os doutrinários, esses aborrecidos que levam os seus princípios até ao amargo culminar da acção. Mas não me queixo. Só há no mundo uma coisa pior do que falarem de nós: é ninguém de nós falar.

            DORIAN  Mas ninguém fala tão admiravelmente como tu.

            OSCAR  Também concordo. Adoro ouvir-me falar. É um dos meus grandes prazeres. Tenho frequentemente grandes conversas comigo próprio, e sou de tal modo inteligente que muitas vezes não percebo uma única palavra do que estou a dizer. Além do mais, aquilo que estou a defender é a Mentira em arte.

            DORIAN  “Mentir em Arte”? Parece uma teoria fascinante. Quero que me digas as doutrinas dessa nova estética.  

            OSCAR  Com certeza, se me deres um cigarro. Obrigado. Ei-las, então, em poucas palavras. A Arte não é expressão de nada, a não ser de si mesma. Tem uma vida independente, tal como o Pensamento a tem, e desenvolve-se estritamente por caminhos próprios. É este o princípio vital da minha nova estética.

            DORIAN  Estou a ouvir-te...

            OSCAR  A Arte encontra a sua perfeição dentro, e não fora, de si. Não deverá ser julgada por qualquer critério exterior de semelhança. Mais do que um espelho, é um véu.

            DORIAN  Um véu?

            OSCAR  Sim. O artista é o criador de coisas belas. Nenhum grande artista alguma vez vê as coisas como elas são. Se o fizesse, deixaria de ser um artista.

            DORIAN  Todo o artista é um mentiroso, portanto...

            OSCAR  O único modo de mentir que está absolutamente acima de qualquer censura é Mentir por mentir, e o mais alto desenvolvimento disso é Mentir em Arte. O objecto da Arte não é a verdade simples, mas a beleza complexa. E a Arte, felizmente, nem uma única vez nos diz a verdade.

            DORIAN  Pelo menos, enquanto o dizes, parece-me ser assim. 

            OSCAR  Tem flores que nenhuma floresta conhece, e pássaros que nenhum lugar silvestre possui. Faz e desfaz mundos, e é capaz de puxar a lua do céu com um fio escarlate. Pode fazer milagres como entender, e, quando cita monstros das profundezas, eles acorrem. Pode ordenar que a amendoeira floresça no inverno, e derramar neve sobre os campos de milho maduro. A uma palavra sua a geada põe o seu dedo de prata na boca ardente de Junho, e os leões alados escapam-se dos interiores das colinas lídias. As dríades espreitam dos arbustos quando ela passa, e os faunos castanhos sorriem de modo estranho quando se aproxima. Tem deuses com rostos de águia que a adoram, e centauros galopam-lhe à ilharga.

            DORIAN  Gosto dessa parte. Sou capaz de imaginá-la. Depois de tocar Chopin, por exemplo, sinto-me como se estivesse estado a chorar por pecados que nunca cometi ou a carpir tragédias que não me diziam respeito.

            OSCAR  A música parece-me sempre produzir esse efeito. Cria-nos um passado que ignorávamos e inunda-nos com a sensação de tristezas que estavam escondidas das nossas próprias lágrimas.

            DORIAN  Falas com uma intensidade estranha!

            OSCAR  No momento em que a Arte abandona o seu meio imaginativo, abandona tudo. Aqueles que não amam a Beleza mais do que a Verdade alguma vez virão a conhecer o mais recatado santuário da Arte. Para ter o prazer de me citar a mim próprio: “É melhor extrair prazer de uma rosa do que colocar-lhe a raiz sob o microscópio”. (Espreguiça-se languidamente no sofá) Onde estão os cigarros? Ah, obrigado.

            DORIAN É esse o teu erro, Oscar. Exageras o valor da Beleza.

            OSCAR  Como podes dizer isso? Penso que vale mais ser belo do que ser bom. Mas, por outro lado, ninguém primeiro do que eu reconhece que vale mais ser bom do que ser feio.

            DORIAN  Mas a que é que chamas ser bom? Gostava de discutir esse assunto contigo.    

            OSCAR  Para quê, Dorian? É um assunto tão enfadonho que se torna necessário falar dele a sério.

            DORIAN  Quer-me parecer que em tudo o que dizes há algo de radicalmente imoral. 

            OSCAR  Toda a arte é imoral.

            DORIAN  Toda a arte?

            OSCAR  Sim, todas as artes são imorais, excepto aquelas formas mais degradadas da arte didáctica ou sensual que procuram suscitar actos que participam do mal e do bem. Porque todo o tipo de actos pertence ao domínio da ética. E o modo mais seguro de nada saber da vida é tornar-se útil.

            DORIAN  O fim da arte é, apenas, criar um estado de espírito?

            OSCAR  Exactamente. Toda a arte é absolutamente inútil.

            DORIAN  Existimos, então, para não fazer nada?

            OSCAR  É para não fazer nada que existem os eleitos. A acção é limitada e relativa. Ilimitada e absoluta é a visão de quem se senta confortavelmente e observa, de quem caminha solitário e sonha.

            DORIAN  Encantadora doutrina essa, Oscar.

            OSCAR  Não estou certo quanto a isso, mas tem pelo menos o mérito menor de ser verdadeira. Vivemos na época dos que trabalham em excesso e se educam por defeito, uma época em que as pessoas são tão trabalhadoras que se tornaram completamente estúpidas. O que nós precisamos é de pessoas pouco práticas que vejam para além do momento e pensem para além do presente.

            DORIAN Acreditas realmente nisso?

            OSCAR  Sem dúvida. A estética é algo de mais alto que a ética. Pertence a uma esfera mais elevada. Discernir a beleza de uma coisa é o ponto mais alto a que podemos chegar. De facto, a estética está para a ética, no domínio da civilização consciente, como, no domínio do mundo exterior, a selecção sexual está para a selecção natural. A ética, tal como a selecção natural, torna a existência possível. A estética, tal como a selecção sexual, torna a vida maravilhosa e encantadora.

            DORIAN  E qual será, nesse caso, o resultado?

            OSCAR  Este: não há livros morais nem imorais. Os livros são bem ou mal escritos. Nada mais. As razões de ordem moral constituem sempre o último refúgio dos que não possuem o mínimo sentido de beleza. Nenhum artista tem simpatias éticas. Uma simpatia ética num artista é um imperdoável maneirismo de estilo. O artista pode exprimir tudo. Aquilo a que se chama Pecado é um elemento essencial do progresso. Sem ele, o mundo estagnaria, tornar-se-ia senil ou descolorido.

            DORIAN  Devemos então virar-nos em tudo para a Arte?

            OSCAR  Em tudo. Porque a Arte não nos magoa. Choramos sem todavia estarmos feridos. Lamentamo-nos, mas a nossa aflição não é amarga. É através da Arte, e unicamente através da Arte, que podemos realizar a nossa perfeição; é através da Arte, e unicamente através da Arte, que podemos refugiar-nos dos sórdidos perigos da existência real. Tornarmo-nos os espectadores da nossa própria vida é escapar ao sofrimento da vida.

            DORIAN  Mas, no meio de tudo isto, qual é a função da crítica?

            OSCAR  A Crítica é, em si, uma arte. A Crítica é, de facto, simultaneamente criativa e independente.

            DORIAN  Independente?

            OSCAR  Sim, independente. Tal como a obra de um poeta ou de um escultor, a Crítica não deverá ser julgada por nenhum baixo critério de imitação ou semelhança.

            DORIAN  Mas é realmente a Crítica uma arte criativa?

            OSCAR  Por que não havia de ser? Quando a obra de arte está acabada, tem, digamos, uma vida independente própria e pode transmitir uma mensagem completamente diferente da que foi posta nos seus lábios para que fosse dita.

            DORIAN  A mais alta Crítica é então mais criativa que a criação, e o fim principal do crítico é ver o objecto em si como na realidade não é; parece-me ser esta a tua teoria.

            OSCAR  Sim, é essa a minha teoria. Para o crítico, a obra de arte é apenas uma sugestão para uma nova obra de arte que será a sua, a qual não necessita ter nenhuma semelhança óbvia com o objecto que critica.

            DORIAN  E quais são as qualidades que devem caracterizar o verdadeiro crítico?

            OSCAR  Quais te pareceriam a ti necessárias?

            DORIAN  Bem, eu diria que, acima de tudo, um crítico deverá ser justo.

            OSCAR  Ah, justo é que não. Um crítico não pode ser justo, no sentido em que habitualmente se aplica essa palavra. O homem que é capaz de ver os dois lados de uma questão é um homem que não vê absolutamente nada. A arte é uma paixão. Devemos render-nos absolutamente à obra em questão, seja ela qual for, se desejarmos possuir o seu segredo. Durante esses momentos, não devemos pensar em mais nada, somos, aliás, incapazes de pensar em mais nada.

            DORIAN  O verdadeiro crítico deverá, de qualquer modo, ser racional, não te parece?

            OSCAR  Racional?! Há dois modos de não gostar de arte, Dorian. Um, é não gostar. O outro, é gostar-se dela racionalmente.

            DORIAN  Porquê?

            OSCAR  Porque a Arte, como Platão viu, não sem o deplorar, cria no ouvinte ou no espectador uma forma de loucura divina. Não há nada de equilibrado na adoração da beleza. É demasiado esplêndida para ser equilibrada.

            DORIAN  Bem, pelo menos, o crítico deverá ser sincero.

            OSCAR  Um pouco de sinceridade é uma coisa perigosa, muita é absolutamente fatal.

            DORIAN  Receio não ter sido muito feliz nas minhas sugestões.

            OSCAR  Dos três requisitos que mencionaste, dois, a sinceridade e a justiça, eram, se não verdadeiramente morais, pelo menos oriundos das imediações da moral, e a primeira condição da crítica é que o crítico seja capaz de reconhecer que a esfera da Arte e a esfera da Ética são absolutamente distintas e separadas. Quando se confundem, o caos está de volta. (Dito isto, acendeu um cigarro num isqueiro de prata em forma de dragão e fitou Dorian através das espirais azuis de fumo que, caprichosamente, se evolavam do seu cigarro fortemente opiado) Experimenta um dos meus. São muito bons. Recebo-os directamente do Cairo. A única vantagem dos nossos adidos diplomáticos é que fornecem os amigos de excelente tabaco.

            DORIAN  Não, obrigado. Fumo demais. Vou-me reprimir daqui por diante.

            OSCAR  Não faças isso! A moderação é uma coisa fatal. O suficiente é tão mau como uma refeição vulgar. O supérfluo é tão bom como um festim.

            DORIAN  E o cigarro...

            OSCAR  O cigarro é o tipo perfeito dum prazer perfeito. É delicado e deixa uma pessoa insatisfeita. Que mais se pode querer?

            DORIAN  Oh, as tuas teorias sobre sobre a vida, sobre o amor, sobre o prazer...

            OSCAR  O prazer é a única coisa sobre que vale a pena ter uma teoria. Quando somos felizes, somos sempre bons; mas, quando somos bons, nem sempre somos felizes.

            DORIAN  E sentes-te feliz?

            OSCAR  Nunca procurei a felicidade. Quem é que quer a felicidade? O que eu tenho procurado é o prazer.

            DORIAN  E tem-lo encontrado?

            OSCAR  Muitas vezes. Demais, até.

            DORIAN  Pois eu procuro a paz.

            OSCAR  A paz?! Hoje todos têm medo de si próprios. Todos esqueceram o mais alto de todos os deveres, o dever que cada um de nós tem para consigo mesmo.

            DORIAN  Medo?

            OSCAR  O terror da sociedade, que é a base da moral, e o terror de Deus, que é o segredo da Religião, são as duas únicas coisas que nos governam. E todavia...

            DORIAN  Sim...

            OSCAR  Todo o impulso que nos afreinamos em estrangular vem açoitar-se-nos no espírito e envena-nos.

            DORIAN  Será?

            OSCAR  O único modo de a gente se libertar duma tentação é ceder-lhe. Se lhe resistimos, a alma adoece-nos com o anseio das coisas que ela a si mesma se proibiu, com o desejo daquilo que as suas leis monstruosas tornaram monstruoso e ilícito. As únicas coisas que nunca se lamentam são os próprios erros.

            DORIAN  Mas nós temos responsabilidades tão grandes...

            OSCAR  Terrivelmente graves. A humanidade toma-se demasiado a sério. Se o homem das cavernas tivesse sabido rir, muito diferente teria sido a História. No mundo, Dorian, só há uma coisa terrível: é o tédio. É o único pecado para que não há perdão.

            DORIAN  É consolador ouvir-te.

            OSCAR  Não esbanjes o oiro dos teus dias escutando os enfadonhos. O mundo pertence-te por uma temporada. Vive! Vive a maravilhosa vida que há em ti! Não percas nada! Busca sempre sensações novas! Não tenhas medo de nada!... Um novo hedonismo — eis o que é preciso.

            DORIAN Bom, acho que te fiz todas as perguntas. E agora devo admitir que...

            OSCAR  Ah, não me digas que concordas comigo. Quando as pessoas concordam comigo, penso logo que devo estar enganado.

            DORIAN  Nesse caso, não te direi se estou de acordo contigo ou não.

            OSCAR  (Acendendo mais um cigarro) Não que eu concorde com tudo o que disse. Há muito com que discordo absolutamente...

            DORIAN  E disseste-me muitas coisas estranhas esta noite, Oscar. Disseste-me que toda a Arte é imoral, e que todo o pensamento é perigoso; que a crítica é mais criativa que a criação, e que a maior crítica é a que revela na obra de arte aquilo que o artista nela não pôs; e que o crítico autêntico é injusto, insincero, não racional. Meu caro amigo, és um sonhador.

            OSCAR  Sim, sou um sonhador. Porque um sonhador é alguém que só consegue encontrar o seu caminho ao luar, e o castigo que sofre é ver a aurora antes de o resto do mundo a ver.

            DORIAN  Castigo...?

            OSCAR  E também recompensa. Mas repara, é já manhã. Afasta as cortinas e abre bem as janelas. Como o ar da manhã é fresco! Piccadilly jaz a nossos pés como uma longa fila de prata. Uma ténue névoa arroxeada estende-se sobre o Parque, e as sombras das casas brancas são roxas. É demasiado tarde para dormir. Vamos até Covent Garden ver as rosas. Anda! Estou cansado de pensar.

(Saem ambos)

FIM