terça-feira, 10 de julho de 2012

Uma pérola do cinema na despedida para férias


É um dos grandes filmes da história do cinema: "Soy Cuba", realizado por Mikhail Kalotozov em 1964. Convido-vos a ver o plano sequência do início do filme, em que a própria câmara mergulha na piscina. Uma breve crítica do filme pode ser lida aqui.

Boas férias, se for o caso.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Por que atribuo a nota de 14 valores ao exame de Filosofia


POR QUE ATRIBUO A NOTA DE 14 VALORES AO EXAME DE FILOSOFIA

APRECIAÇÃO CRÍTICA DA PROVA ESCRITA DE FILOSOFIA
(Prova 714/1ª fase)

Esta apreciação é feita sem conhecer ainda os critérios de avaliação. É uma reflexão pessoal de quem foi coadjuvante no exame. Também faço referência a comentários dos meus alunos na conversa que tivemos no final, devidamente assinalados.

1. Apreciação global: o exame é francamente melhor que os dois testes intermédios conhecidos, tendo sido evitados alguns dos erros apontados naqueles. Se a minha leitura está certa, os autores optaram por “jogar à defesa”. Aceito esta estratégia defensiva: se as polémicas se repetissem, tal poderia ter consequências devastadoras para a credibilidade da disciplina e, eventualmente, para a continuação do exame. Penso que os autores foram sensatos.

2. Pontos a favor: desaparecem os conteúdos vagos ou de relevância filosófica discutível (sujeito e objeto, p. ex.), os conteúdos/autores convocados são relevantes e aparece finalmente uma pergunta de avaliação crítica (o aluno toma posição sobre um problema filosófico).

3. Pontos contra: Predomínio de competências cognitivamente pouco exigentes: “identifique a tese”, “nomeie” (duas vezes), “exponha” e “explicite”. Pouca importância atribuída a competências críticas. Continuam a existir erros ou, no mínimo, opções científica e pedagogicamente muito duvidosas (ver adiante).

4. Comentários ao exame (grupo a grupo)
4.1. GRUPO I.
Sobre 1.: texto bem escolhido, o que se exige ao aluno é muito pouco (praticamente apenas competências de interpretação de texto).
Sobre 2: texto bem escolhido, a opção pela escolha múltipla aceita-se, embora seja também pouco exigente. Sobre 2.1.: avalia-se apenas interpretação de texto. Sobre 2.2., 2.3. e 2.4.: exigem-se conhecimentos relevantes sobre os autores, embora as opções certas sejam óbvias. Sobre 3: o texto é irrelevante para a pergunta, limitando-se a fazer referência à “posição original”. O que se exige na pergunta tem conteúdo filosófico relevante, tendo o aluno de fazer referência a outros conceitos fundamentais de Rawls (véu de ignorância, princípio maximin, justiça como equidade, p. ex.).
4.3. GRUPO II
Sobre 1.: texto bem escolhido. Sobre 1.1.: A expressão “mau uso da retórica” é valorativa. Deveria ter-se acrescentado: “segundo Platão” ou “a que o texto faz referência”. Um aluno meu, um “nietzscheniano” convicto, classificou no final a pergunta como “tendenciosa”. Acho que ele tem razão.
Sobre 1.2.: conteúdo relevante, embora a pergunta seja uma vez mais pouco exigente (“exponha”...).
Sobre 2.1.: a resposta certa (“pretende obter a adesão livre do auditório”) utiliza “livre” como relevante para a escolha da resposta certa, o que não é verdade. Para além de complicar desnecessariamente (o que é uma adesão livre?), em rigor o carácter “livre” da adesão não é exclusivo da boa argumentação. Na manipulação retórica o auditório não é propriamente “obrigado” a aderir, certo?
Sobre 2.3.: A resposta certa (“parecem ser dedutivamente válidos”) está mal formulada. O que é relevante não é que os argumentos pareçam ser válidos, mas sim que pareçam e o não sejam. Da afirmação “João parece estar feliz” não se infere que João não esteja feliz. Os argumentos dedutivamente válidos também parecem ser dedutivamente válidos...
Sobre 2.4.: A resposta certa (“relação de consequência entre proposições”) está mal formulada. A relação entre proposições não tem de ser de “consequência” (seria mais intuitivo apresentar o conceito de implicação).
GRUPO III
Por que não a referência explícita a “inspetor de circunstância”?
GRUPO IV
O texto é bem escolhido.
Sobre 1.1.: pouco exigente (“nomear”)
Sobre 1.2.: pergunta relevante e bem formulada.
Sobre 2.: pergunta algo vaga (confrontar “as ideias expressas no texto de Hume com o racionalismo de Descartes”), apesar das indicações de resposta atenuarem em parte a vagueza da confrontação exigida. Alguns dos meus alunos estavam pouco seguros quanto ao que lhes era exigido. Resta esperar pelos critérios de correção...
Sobre 3.: finalmente, o aluno pode falar na primeira pessoa!

CONCLUSÃO: apesar das falhas ou opções erradas que, em minha opinião, o exame tem, penso que hoje foi um dia positivo para o ensino da filosofia. Embora não se tenha ido tão longe quanto seria desejável, estamos na presença de um exame de... filosofia. E isso é uma boa notícia.
Numa escala de 0 a 20, atribuo ao exame a nota de 14.



sexta-feira, 11 de maio de 2012

Teste intermédio de Filosofia: uma excelente resposta a uma pergunta ridícula

O Grito, de Edvard Munch


A pergunta 1 do Grupo III do teste intermédio de Filosofia de 2012 era a seguinte:

1. Leia o texto seguinte.

Ser objecto do conhecimento não significa que algo pertence ao mundo exterior, como erroneamente se supõe na linguagem vulgar, quando se opõe mundo «mundo objectivo» a «mundo subjectivo». Uma ideia pode ser objecto de conhecimento, como esta mesa; uma dor e um sonho podem ser, por exemplo, objectos de conhecimento, sem, com isso, necessitarem de pertencer ao mundo exterior. «Objectivo» diz respeito ao objecto e não implica a existência do mundo exterior.
Delfim Santos, «Da Filosofia» in Obras Completas I, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1982
Esclareça o sentido da frase «Ser objecto do conhecimento não significa que algo pertence ao mundo exterior».


Uma das minhas alunas respondeu assim:
Com a frase “ser objeto do conhecimento não significa que algo pertence ao mundo exterior” o autor expressa uma objeção a um dos argumentos cartesianos a favor da existência de Deus. O argumento em causa é aquele em que Descartes afirma que se tem a noção de perfeição “dentro de si”, então tem de existir necessariamente um ser com essas características. Porém, como argumenta Delfim Santos, “uma ideia pode ser objeto de conhecimento, como (...) uma dor e um sonho (...) sem, com isso, necessitarem de pertencer ao mundo exterior”. Isso também funciona com a ideia de um ser perfeito: alguém pode imaginar um ser perfeito (Deus) sem esse ser existir.

De acordo com os critérios de correção, a cotação atribuída deveria ter sido 0 (zero) pontos. E digo deveria porque resolvi atribuír-lhe a cotação máxima: 20 pontos. Obviamente. Seriam 2 (dois!) valores a menos na nota da aluna. Felizmente tratava-se de um teste intermédio, em que estas opções são permitidas aos professores corretores.
Mas a pergunta fica no ar: e se uma barbaridade destas acontecer no exame nacional?  
Até dá vontade de gritar...

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Bibliofilmoteca n.º 3: O Livro de Areia, de Jorge Luis Borges


Recordo ter ouvido essas figuras ao pai do meu pai. Tu e eu somos poetas; vou salvar-te. Agora não definimos cada facto que inflama o nosso canto; cifrámo-lo numa só palavra que é a Palavra.
"Respondi-lhe:
"- Não pude ouvi-la. Peço-te que me digas qual é.
"Vacilou uns instantes e respondeu:
"- Jurei não revelá-la. Aliás, ninguém pode ensinar nada. Deves procurá-la sozinho.

Jorge Luis Borges in O Livro de Areia

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Efemérides: o dia em que o jazz nasceu


O jazz nasceu oficialmente a 26 de fevereiro de 1917, quando foi editado o disco Livery Stable Blues pelos Original Dixieland Jass Band. Há quem defenda que a designação jazz provém deste jass... Veja mais sobre a origem da palavra aqui.
Para finalizar esta efeméride, fique com a música original:

domingo, 12 de fevereiro de 2012

"Professor, pode sugerir-me um bom livro para ler?"


Esta é uma das perguntas que mais gosto que me façam. Quem me pede que lhe indique livros que adoro tem, desde logo, o meu agradecimento (é amoroso pedir a alguém que fale do que ama). Mas também tem de estar preparado para outra coisa: é que quem fala do que ama talvez não se cale tão cedo. Posto isto, vamos lá então ao post.

O pedido surgiu, espontâneo, numa das aulas da última sexta. O pretexto foi o contrato de leitura na disciplina de Português, mas rapidamente os horizontes foram muito para  além disso. Colocaram-me algumas condicionantes: livros em língua portuguesa, não muito extensos e agradáveis de ler. De autores portugueses ou não. 
Logo ali, de imediato, lembrei-me de alguns. Mas esclareci também as minhas condições: livros de que gostasse particularmente e que, ou tenha lido no secundário quando tinha a idade deles ou que possam marcar positivamente um jovem adolescente à descoberta do mundo e do melhor de si mesmo.
Apresento hoje as duas primeiras sugestões.


O Que Diz Molero
Edição/reimpressão: 2007
Páginas: 172
Editor: Bertrand Editora
ISBN: 9789722515689

Dinis Machado
Com duas dezenas de edições em Portugal, o livro alcançou ainda um sucesso retumbante em França e no Brasil, onde foi também adaptado para teatro (em cena durante mais de quatro anos), e vai ter em breve uma versão cinematográfica. Pequenas coisas que são suficientes para encher de satisfação Dinis Machado, que responde também pelo nome de Dennis McShade, autor de três policiais que fizeram história e de um quarto que será publicado no ano que vem, assinalando os 40 anos da criação de Peter Maynard, um assassino com preocupações filosóficas. Ler mais aqui.



A Pomba
Edição/reimpressão: 1998
Páginas: 92
Editor: Editorial Presença
ISBN: 9789722319911
Coleção: Aura

Patrick Süskind 

O primeiro romance de Patrick Süskind foi o livro «O Perfume» que imediatamente o celebrizou como autor e que continua a ser um livro de culto para sucessivas camadas de leitores atraídos por uma verdadeira obra-prima de ficção. Em "A Pomba", o porteiro Jonathan, figura central do livro, que partilha a sua monótona existência entre a mansarda que habita e o banco onde trabalha, vê de um momento para o outro a sua vida abalada quando um pássaro ferido tomba a seus pés. A partir deste "fait-divers", feito do encontro entre um homem e um pássaro ferido, Patrick Süskind constrói uma pequena maravilha.
Uma leitura da obra pode ser lida aqui.

Para a semana voltarei com mais sugestões.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Homenagem a François Truffaut: "A Mulher do Lado" ou do amor trágico



Se fosse vivo, François Truffaut faria hoje 80 anos. Homenageamos a sua obra com a cena final de um dos seus filmes de que mais gostamos: "A Mulher do Lado" (La femme d'à côté, 1981). 

Mais informações sobre o realizador e a sua obra podem ser lidas aqui.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

3 sugestões a propósito do tema dos direitos dos animais: um livro, um texto e uma música

Sugestão 1: o livro


FERRY, Luc, GERMÉ, Claudine, Des Animaux et des Hommes, Paris, Librairie Génerale Française, 1994

Os autores convidam-nos a revisitar textos do pensamento ocidental, do séc. XV ao séc. XX, reunidos numa extensa e diversificada antologia sobre o tema do estatuto moral e jurídico dos animais. Os excertos disponibilizados, em número superior a cento e cinquenta, foram recolhidos das obras de Descartes, Hobbes, Espinosa, Locke, Kant, Rousseau, Bentham, Schopenhauer, Mill e Nietzsche, mas também de Victor Hugo e Claude Bernard, entre outros, entre mais de duzentos autores das áreas da filosofia, literatura ou ciência. O livro inclui, ainda, legislação sobre o estatuto dos animais e a sua proteção jurídica em vários países (França, Grã-Bretanha, Alemanha, EUA, Espanha e Portugal, por exemplo), a legislação nazi sobre proteção animal e caça e, também, a declaração universal dos direitos dos animais de 1978.
Trata-se de um livro muito útil e interessante para quem pretender conhecer e comparar diferentes pontos de vista sobre o tema de um ponto de vista histórico. Não há tradução portuguesa.

Sugestão 2: o texto

Um dos primeiros textos filosóficos que li, apaixonadamente, ainda adolescente. E um dos que me fizeram descobrir que queria estudar filosofia.

“Observe-se um rebanho que pasta; ignora o que foi ontem e o que é hoje. Volteia, retouça, repousa, rumina, agita-se de manhã à noite, dia após dia, ligado ao seu prazer e à sua dor, ao impulso do instante, sem melancolia nem saciedade. É duro para o homem ver isso, porque se orgulha da sua humanidade quando se compara com o animal, cuja felicidade entretanto inveja. Efectivamente, ele deseja viver como o animal, sem saciedade nem dor, mas, ao querê-lo, não quer como o animal. ‘Porque é que não me falas da tua felicidade? Porque é que te limitas a olhar-me?’. O animal gostaria de responder: ‘É que eu esqueço exactamente aquilo que queria dizer’. Até mesmo esta resposta é afogada no esquecimento, e cala-se. É a vez do homem se admirar.”

in NIETZSCHE, Friedrich, Considerações Intempestivas, Lisboa, Editorial Presença, 1976, pp. 105

Sugestão 3: a música

The Wolf, de Eddie Vedder, incluída na banda sonora do filme Into The Wild (O Lado Selvagem), de Sean Penn.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

XIII Conferência de filosofia da Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes



A XIII Conferência de filosofia da Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes é já no dia 3 de fevereiro. O conferencista convidado é Pedro Galvão, da Universidade de Lisboa, que apresentará e discutirá quatro perspectivas sobre os direitos dos animais. A entrada é livre.
Entretanto, em jeito de "aperitivo", deixamos aqui um conjunto de pequenos textos célebres sobre o estatuto moral dos animais.                              

            Deus, a seguir, disse: «Façamos o homem à Nossa imagem, à Nossa  semelhança, para que domine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos e sobre todos os répteis que rastejam pela terra». Deus criou o homem à Sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher. Abençoando-os, Deus disse-lhes: «Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se movem na terra».
Bíblia, Génesis 1:24-28


            As plantas estão feitas para os animais e estes para o homem. Domesticados, prestam-lhes serviços e alimentam-no; no estado selvagem contribuem, se não todos, a maior parte pelo menos, para a sua subsistência e para satisfazer as suas diversas necessidades, fornecendo-lhe vestidos e outros recursos. Se a natureza nada faz incompleto, se nada faz em vão, é necessário admitir que tenha criado tudo isto para o homem.
 Aristóteles, filósofo grego do séc. IV a. c.


            O próprio Cristo mostra que o refreio na morte dos animais e na destruição das plantas constitui o auge da superstição, pois, julgando que não existem direitos comuns entre nós e os animais e as árvores, ele mandou os demónios habitarem uma vara de porcos e, com uma maldição, secou a árvore onde não achou fruto (...). Certamente nem os porcos nem a árvore tinham pecado.
S. Agostinho, filósofo cristão do séc. IV

 

            Não importa o modo como o homem se comporta com os animais, pois Deus submeteu todas as coisas ao poder humano e é nesse sentido que o Apóstolo diz que Deus não se preocupa com os bois, porque Deus não pede contas ao homem daquilo que este faz aos bois ou a outro qualquer animal.
S. Tomás de Aquino, filósofo cristão do séc. XIII

 

            No que diz respeito aos animais, não temos deveres diretos. Os animais não possuem autoconsciência e são apenas meios para alcançar um fim. Esse fim é o homem.
Immanuel Kant, filósofo alemão do séc. XVIII

 

Poderá existir um dia em que o resto da criação animal adquirirá aqueles direitos que nunca lhe poderiam ter sido retirados senão pela mão da tirania (...) A questão não é: Podem eles [os animais] raciocinar? Nem: Podem eles falar? Mas: Podem eles sofrer?
Jeremy Bentham, filósofo inglês do séc. XVIII

 

            Vimos já que os sentimentos e intuições, emoções diversas e faculdades tais como a amizade, a memória, a atenção, a curiosidade, a imitação, a razão, etc., de que o homem tanto se orgulha, podem observar-se em estado nascente e, por vezes, bastante desenvolvidas, nos animais inferiores.
Charles Darwin, cientista inglês do séc. XIX

 

           O domínio conferido ao homem pelo Criador não é um poder absoluto, nem se pode falar de uma liberdade de “usar e abusar”, ou de dispor das coisas como melhor agrade (...) Nas relações com a natureza visível, nós estamos submetidos a leis, não só biológicas, mas também morais, que não podem ser impunemente transgredidas.
J. Paulo II


            Se um ser sofre, não pode haver justificação moral para recusar ter em conta esse sofrimento. Independentemente da natureza do ser, o princípio da igualdade exige que ao seu sofrimento seja dada tanta consideração como ao sofrimento semelhante (...) de um outro ser qualquer. Se um ser não é capaz de sentir sofrimento, ou de experimentar alegria, não há nada a ter em conta. Assim, o limite da senciência (capacidade de sofrer e/ou experimentar alegria) é a única fronteira defensável de preocupação relativamente aos interesses dos outros.
Peter Singer, filósofo australiano contemporâneo

Textos extraídos de Libertação Animal, de Peter Singer, Porto, Via Optima, 2000 (à excepção do excerto do Génesis)

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Nietzsche, Hello Kitty e a Filosofia



NIETZSCHE, HELLO KITTY E A FILOSOFIA


            Muitas pessoas não gostam nada de filosofia. Haverá decerto boas razões para isso. Talvez não tenham gostado da disciplina na escola, por exemplo. Mas também acontece não se gostar porque se vê a filosofia como uma espécie de galeria de notáveis inacessíveis. Vou tentar mostrar neste texto que essa ideia etérea, enfadonha e quase religiosa acerca da filosofia é uma ideia errada.
Há cerca de dois anos, a zona ribeirinha de Portimão foi agitada por uma instalação intitulada Nietzsche e Hello Kitty. Era constituída por um automóvel literalmente forrado com  fotos, desenhos e páginas de livros. Lá dentro, encontravam-se diferentes e surpreendentes objetos e frases que exprimiam pensamentos do filósofo. A frase que se segue não estava lá mas poderia muito bem-estar:

NÃO SEJAS CAMELO.
PORTA-TE COMO UM LEÃO E TEM A CORAGEM DE VOLTAR A SER CRIANÇA!

Que quereria o filósofo dizer com isso do “camelo”? Estará a chamar-nos nomes? E porquê portarmo-nos como um leão? Eu até sou do Benfica... E já agora: “voltar a ser criança”? Como é isso possível? Não se vê logo que isto não tem ponta por onde se lhe pegue?! Por acaso até tem, caro leitor. Pegue numa cadeira e ouça.
Nietzsche disse mal de quase tudo, principalmente dos moralistas e dos padres. Ele próprio confessou que isso lhe dava muito gozo, mas não era por essa razão que o fazia. Nietzsche achava que a Humanidade tinha cometido um erro tremendo. O erro era este: os homens já não sabiam rir! Tinham-se convencido de que a alegria e o prazer eram coisas más e inventaram a Moral, os “bons costumes” e as religiões para terem a ilusão de que essa vida séria, cinzenta e desinteressante que eles levavam seria mais tarde recompensada. Por isso começaram a dizer mal desta vida (que para Nietzsche é a única que existe...) com a esperança de atingirem a “vida eterna”. Ou seja: tornaram-se camelos.
            O camelo é um animal de carga. Existe para levar pesos às costas e espera ser recompensado por isso. Como o moralista, portanto. Um camelo carregado é como um homem subjugado pela moral: submete-se às normas e aos deveres, despreza o corpo e o prazer e faz da vida um sofrimento absurdo. Não satisfeito com isso, o moralista diz mal dos que vivem realmente a vida. Só ergue a cabeça para desdenhar deles, dos que se divertem. Chama-lhes pecadores, irresponsáveis e coisas do género. Depois, volta à rotina bafienta a que chama virtude e lá continua ele, orgulhoso do seu calvário. Até que um dia, farto de tudo isto, o camelo se transforma em leão.
            O leão acordou. O seu rugido poderoso faz tremer tudo à sua volta: os hábitos, os valores, as Igrejas. Ninguém o domina, nada fica de pé. O leão é a revolta contra a moral e os “bons costumes”. O leão diz que tudo não passara de um erro, um longo e estúpido erro, e que, afinal, Deus não existe e que é preciso recuperar de novo a esquecida alegria de viver. Cumprida a sua missão, o leão transforma-se em criança.
            Destruídos os valores tradicionais, desmascarada a virtude, a criança que havia em nós pode agora brincar à vontade, sem sombra de pecado nem medo de castigos. Como escreveu Nietzsche, “a criança é inocência e esquecimento, um começar de novo, um jogo, uma roda que gira por si própria, um primeiro movimento, um sagrado dizer que sim.” Como a Hello Kitty, o Noddy ou Peter Pan…
            Assim falava Friedrich Nietzsche.
            Se a filosofia fosse algo parecido com uma servil veneração de espíritos brilhantes supostamente infalíveis, este artigo ficaria decerto por aqui. Mas não é. A filosofia é um exercício crítico, não uma aceitação dogmática das palavras dos “mestres”. Ler um filósofo criticamente é submetê-lo ao insubstituível tribunal da razão, ao desafio do contraditório. Darei de seguida um pequeno exemplo de como isso se faz.
            Nietzsche é um pensador fascinante. E sedutor. Como ficar indiferente a alguém que escreve coisas como “o que se faz por amor está para além do bem e do mal”? Ou ainda: “não há fenómenos morais, mas apenas uma interpretação moral de fenómenos”… Platão temia o efeito inebriante da poesia, a que chamava o “canto mágico”. Para ele, a filosofia não pode esquecer-se da avaliação crítica das teorias e argumentos dos filósofos. No caso de Nietzsche, por exemplo, há perguntas que têm de ser feitas. Eis algumas: porquê destruir todos os valores? Será que a humanidade andou adormecida e enganada durante séculos? Não servem os valores morais para, entre outras coisas, orientarmos as nossas ações e educarmos os nossos jovens? O que aconteceria se cada um de nós se reservasse o direito de, em nome da “Vida” ou do “Amor”, impor aos outros o que considera como “Bem”? Se os valores morais existentes estão errados, será que tudo é permitido?
            “Derrubar ídolos — eis o que constitui o meu ofício. Não sou um homem, sou dinamite” — gostava Nietzsche de afirmar. Sábia frase, esta. Realmente, idolatrar os pensadores e os “mestres” é um erro grave. Sabe-se que todos os ídolos têm pés de barro. E que, mais cedo ou mais tarde, alguém perceberá isso. Portanto, o melhor é mesmo submeter todas as teorias de todos os filósofos ao fogo cruzado do debate racional. A dinamite da filosofia é o debate crítico de ideias. É por esse motivo que a filosofia deve ser praticada e faz sentido celebrá-la.


Nota: este texto foi publicado pela primeira vez na edição de 19/11/09 do jornal barlavento.online