sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Foi você que pediu uma consciência moral?

Johnny Depp no filme Sweeney Todd


BARBA OU CABELO? [1]

1
           
            E se um dia um desconhecido lhe oferecer flores, dizendo:

            “Rachei-a de alto a baixo, como um animal, porque ela contava as moscas no tecto enquanto fazíamos amor.” [2]

            que irá pensar, cara leitora, de tal impulso?
           
            E já agora: e porque não uma situação como esta, em que

2

            A senhora Maria deixou a sopa ao lume, fogão no mínimo não vá o feijão queimar-se, bate com firmeza na janela da vizinha e fica à espera:    nada, como de costume, tem de bater outra vez  truz truz  não é que seja má pessoa que até nem é, mas já está dura de ouvido, a Ti Mariana, é por isso que demora, demora, mas olha, parece que já lá vem, ligeira no andar como quem tem de compensar, e a língua afiada que o bairro bem conhece  sempre vais, hã? olha qu’essa camone não vale o trabalho!  mas a senhora Maria não pára, lá vai ela rua acima, dizendo para si mesma que sim que vai, até que nem custa nada, vendo bem, é ir num pé e vir noutro, porque apesar de não ser íntima, sempre se é vizinha, e morrer-se assim como a alemã do 7º,  toda queimada que ficou, coitadinha da Ingrid!  valha a verdade que era um tanto esquisita, diz-se que nem cozinhar sabia, mas isto as estrangeiras é o que se sabe, bem arreadinhas, coisa e tal, sempre no laró mas cozinha nada, e com isto tudo a senhora Maria está já quase a chegar, mas é bom que se despache se não quer ficar sem sopa, e como ela quer a sopa resolve despachar-se e vai daí acelera o passo, pés meio dentro  é melhor tirar o avental  meio fora dos chinelos pretos dos trezentos - e uff! até que enfim, lá chega ela ao cemitério.
            Tudo estava a correr bem (se é que se pode dizer isso de um funeral), o padre Ardósias, apesar de que ainda era cedo, não havia dúvida que estava sóbrio, a família da Alemanha tinha vindo e tudo, mas vestidas assim, senhora Maria, vestidas assim! coscuvilhava a invejosa da Gertrudes, a choradeira da ordem ainda não tinha começado, se bem que um funeral sem choro não é funeral nem é nada! (e esta Gertrudes que não se cala...), a coisa estava portanto a correr dentro dos conformes - e é então que o viúvo se passa completamente dos carretos!
            Nunca tinha visto o menino Edmundo assim!  diria mais tarde a mãe Gija, ama de tudo quanto é garoto lá no bairro, e que o criara desde pequeno. Começava então um nunca mais acabar de pontapés e cabeçadas e socos e cuspidelas e arranhões e tudo, o padre é que as pagou, o Edmundo às cavalitas dele só gritava  eu bem a avisei, eu bem a avisei  e o padre a tentar safar-se  a refeição é sagrada  continuava o Edmundo  a refeição é sagra...  pumba!, um murro bem nos queixos  toma lá a bênção, que é p’ra não me sujares a batina  e a poeirada era tal que já nem se via nada, e o Edmundo  que bem que corre o maganão  zás, num ápice e já estava empoleirado bem no cimo da figueira  vou-vos contar porquê, ai isso é que conto  mas lá se ia acalmando, até já falava mais baixo  mas eu não saio cá de cima!  pois bem, que ficasse  deixem lá ficar o gajo!  e o Edmundo ficava e ameaçava  o primeiro filho da pu...  e a sirene da polícia a aproximar-se  que me tente agarrar...  mas a coisa compunha-se, todos mais calmos, fez-se o jeito ao Edmundo  se quer contar que conte!  e o Edmundo que sim que queria e vai daí conta mesmo, e fica-se então a saber que

            “Com a minha mulher, senhor, passava-se com os ovos estrelados o que se passa com as crianças, nunca a deixavam em paz. A diferença é que as crianças crescem e acabam por se desenvencilhar sozinhas, enquanto que os ovos estrelados... E que se poderá comparar a dois ovos bem estrelados? Comemo-los como o maior dos dons do céu. Passa-se o mesmo com tudo, é uma questão de precisão. Sou pedreiro, sei do que estou a falar. O que é importante para os ovos é a quantidade e a temperatura do óleo onde os deitamos - partidos e despejados com cuidado - e o momento exacto em que temos de os tirar, no instante em que a clara está inchada como a massa de um sonho. Os ovos estrelados não devem “colar”, como ela dizia. Nunca mais o disse, graças a Deus. Um ovo estrelado em que já não se vê a gema ou cuja clara ainda está transparente ou rasgada não é um ovo estrelado nem é nada.
Mas quem poderia prever que a queimadura seria tão grave?” [3]

            A senhora Maria estava estupefacta. Incredulidade no olhar, espanto e medo estampados no rosto, são as pernas que a levam dali para fora,  com licença estou com pressa!  mas a verdade é que está mesmo embora se não lembre porquê, tenta correr sem cair e quase o consegue,  porcaria dos chinelos dos trezentos!  levanta-se ligeira e é então que se lembra: a sopa! esqueci-me da merda da sopa!  e desata a correr por ali abaixo, um pé calçado e outro não, ainda bem que o marido não estava, pensa ela,  logo o Serafim, que detesta violências  e é verdade que ele não estava, não senhor, mas o que a senhora Maria não sabe é que ele não poderia ter lá estado mesmo que quisesse, porque entretanto
3

            O senhor Serafim aproveitou a folga da manhã para ir ao barbeiro. Não ao do costume, que infelizmente está de férias, mas ao novo que abriu no centro da vila. Dirige-se para a cadeira quando chega a sua vez  barba ou cabelo? repara que é novinha em folha só barba, por favor enquanto se senta confortavelmente. Depois de lhe espalhar a espuma pelo rosto e de afiar as navalhas na tira de couro, o barbeiro inicia finalmente o seu trabalho.
            É só então que, em surdina como nas confidências, começa a contar ao senhor Serafim a seguinte história:

            “Sou barbeiro. É uma coisa que pode acontecer a qualquer pessoa. Quero dizer que até esse dia fui um bom barbeiro. Cada qual tem as suas manias, eu não gosto de borbulhas.
            Aconteceu assim: comecei a barbeá-lo calmamente, ensaboei-o com habilidade, afiei a navalha no braço da cadeira e suavizei-a na palma da mão. Sou um bom barbeiro! Nunca cortei ninguém e ainda por cima esse tipo não tinha uma barba muito espessa. Mas tinha borbulhas. Devo reconhecer que nas suas borbulhas não havia nada de especial, no entanto, incomodavam-me, enervavam-me, revolviam-me as tripas.
            A primeira, contornei-a bem, sem grande dificuldade, mas a segunda começou a sangrar. Então, não sei o que me deu, acho que é uma coisa muito natural, aprofundei a ferida e depois, sem poder deixar de o fazer, com um só golpe, cortei-lhe a cabeça.” [4]

            O senhor Serafim sente-se um tanto atordoado. Poderia jurar que o seu rosto está branco como a cal, mas prefere não o fazer. A verdade é que o senhor Serafim não gosta nada de proferir afirmações que não possa provar. Em condições normais, levantar-se-ia para verificar junto a um espelho até que ponto se justificaria a sua suspeita quanto à coloração do rosto. Mas acontece que a presente situação tem muito pouco de normal. Mesmo que quisesse, o senhor Serafim não conseguiria levantar-se, pois tal não lho permitiriam as tremuras que parecem ter tomado conta das suas pernas. E se, por hipótese absurda, o senhor Serafim se tivesse podido levantar e dirigir junto a um espelho, o seu olhar estaria tão turvo e nublado que não conseguiria constatar com a objectividade necessária a coloração do seu rosto.
            Agora que pensa nisso, o senhor Serafim dá-se conta de que deveria ter-se dirigido para casa, imediatamente após ter saído do barbeiro. Realmente, se ficara tão perturbado, porque viera para o café, que ainda por cima está tão cheio? Assim é mais provável que reparem nele, como acontece com o senhor que está sentado na mesa em frente, a olhar fixamente na sua direcção. Também não tem muito sentido ter pedido café com leite e lhe ter deitado açúcar, ele que habitualmente toma descafeinado com um único adoçante. Resta-me mexer com insistência o meu café, para que o açúcar se dissolva bem, pensa para consigo o senhor Serafim, e é isso mesmo que ele sente dever dizer ao senhor que está sentado à sua frente, atendendo ao olhar estranho com que o observa. Sem parar de mexer com a colher, e depois de informar o seu vizinho de mesa de que o açúcar não se encontra ainda suficientemente derretido (sempre com um sorriso nos lábios e a boa educação de que tanto se orgulha), o senhor Serafim encontra-se finalmente com o espírito liberto para tentar entender os mais recentes acontecimentos dessa tarde.
            Que atitudes tão estranhas podem as pessoas ter, pensa o senhor Serafim. Porque lhe teria o barbeiro contado aquilo da borbulha? Tê-lo-ia morto realmente? Como era possível alguém tirar a vida a outra apenas porque não suporta borbulhas? Já não saberão as pessoas  dominar os seus impulsos? Estas e outras interrogações ocupam neste momento o cérebro do senhor Serafim, enquanto a sua mão direita continua, voltas e mais voltas, remexendo com a colher no café com leite, num gesto mecânico, próprio de quem se esqueceu do que está a fazer.
            É então que o senhor sentado à sua frente puxa de uma pistola e dispara no peito do senhor Serafim.

4

            É quase meia-noite. O juiz Garcia revolve-se no leito sem conseguir dormir, apesar do adiantado da hora e do cansaço do corpo. Acende de novo a luz, reacende o cachimbo e semicerra os olhos, expressão muito usual no juiz Garcia quando resolve pensar em algo que o preocupa deveras.
            Esta noite o juiz Garcia não se sente nada feliz, poder-se-ia mesmo afirmar que se encontra um tanto deprimido. O julgamento de hoje no tribunal fez surgir no seu espírito um conjunto pouco homogéneo de pensamentos, constituído por recordações do tempo em que iniciou a sua carreira, algumas preocupações de natureza ética e também por vagas mas incómodas sensações de desalento. Como pessoa metódica que se habituou a ser, o juiz Garcia vai analisar os seus pensamentos um a um, começando por aqueles que lhe ocorreram em primeiro lugar, critério que utiliza habitualmente em situações semelhantes.
            O julgamento de hoje, por exemplo. Não restaram dúvidas quanto à justeza da sua decisão, o próprio condenado o reconheceu. Não, não era disso que se tratava. O problema era o réu, ou melhor, o seu desconcertante à vontade ao confessar o crime, os olhares entediados que cruzava com os jurados, a expressão indiferente com que ouviu a sentença. É nisto que pensa de momento o juiz Garcia, cachimbo na mão, enquanto um leve odor a caramelo emana subtilmente do tabaco, aconchegando os pensamentos num embalo doce, como que a chamar pelas mais queridas das recordações, aquela por exemplo em que...
            Riohacha, algures na América Latina. A pequena cidade onde começou a carreira, já lá vão mais de trinta anos. Vem-lhe agora à memória o seu primeiro grande julgamento, o dos gémeos Vicario e sua irmã abandonada no altar, mais a faca de matar porcos e a honra lavada com sangue, e o ventre de toureiro do noivo arrependido, esfaqueado uma e outra vez e mais outra ainda, tudo isto à luz do dia, bem no centro da praça principal. Lembra-se também do pacto de silêncio que a cidade celebrou, o que permitiu a absolvição dos réus, por absoluta falta de provas e total ausência de testemunhas. Ah!, que bem que sabe ao juiz Garcia recordar esses tempos, em que matar era como que a reparação de uma injustiça, realizada com honra e sem prazer, lamentada pelos homens e compreendida por Deus...
            Enquanto saboreia um último travo do cachimbo e se prepara para dormir, o juiz Garcia pega mais uma vez na pasta acastanhada que contém as actas do julgamento desse dia e relê, a páginas 327 do processo, a insólita confissão do réu:

            “Começou a mexer o café com leite com a colherzinha. O líquido quase transbordava da chávena empurrado pelo movimento do utensílio de alumínio (o recipiente era vulgar, o sítio ordinário e a colher estava arredondada pelo uso). Ouvia-se o barulho do metal contra o vidro. Tim, tim, tim, tim. E o café com leite girava, girava com uma cova no meio. Um maelstrom. E eu encontrava-me sentado mesmo à frente. O café estava à pinha. O homem continuava a mexer, a mexer, imóvel, e sorria ao olhar-me. Senti uma coisa subir por mim acima. Fitei-o de tal maneira que se viu na obrigação de se explicar:
            - O açúcar ainda não está derretido.
            Para mo provar, bateu com a colher várias vezes no fundo do copo. Recomeçou a mexer metodicamente a beberagem, com uma energia redobrada. Voltas e mais voltas, sem parar, eternamente. Voltas e mais voltas e mais voltas. E continuava a olhar para mim, sorrindo. Então puxei da pistola e disparei.” [5]

            Foi você que pediu uma consciência moral?



[1] In CAFÉ, Carlos, Entre o Prazer e o Dever — Variações em torno da moral kantiana, Portimão, Livraria Teorema, 1999, pp. 13 a 16. Este texto, originalmente designado Abertura, foi encenado pelo grupo de Teatro A Gaveta com o título, que entretanto adoptei, de Barba ou cabelo?.
[2] AUB, Max, Crimes Exemplares, Lisboa, Edições Antígona, 1995, pág. 24
[3] Idem, pág. 43
[4] Ibidem, pág. 18
[5] Ibidem, pág. 19

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Cada ser humano é um modelo exclusivo


Regina Pessoa e Herberto Helder. A propósito das aulas de hoje com as minhas turmas do 10.º ano.




Vou contar uma história. Havia uma rapariga que era maior de um lado que do outro. Cortaram-lhe um bocado do lado maior: foi de mais. Ficou maior do lado que era dantes mais pequeno. Cortaram. Ficou de novo maior do lado que era primitivamente maior. Tornaram a cortar. Foram cortanto e cortando. O objectivo era este: criar um ser normal. Não conseguiam. A rapariga acabou por desaparecer, de tão cortada nos dois lados. Só algumas pessoas compreenderam.

Herberto Helder, in Photomaton & Vox

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Uma música de boas-vindas



Uma proposta musical para as minhas alunas e os meus alunos: 10º I, 10º J, 10º K, 11º L e 11º N.

Espero que a Filosofia ajude a tornar as vossas vidas ainda mais interessantes.

Um bom ano!

terça-feira, 10 de julho de 2012

Uma pérola do cinema na despedida para férias


É um dos grandes filmes da história do cinema: "Soy Cuba", realizado por Mikhail Kalotozov em 1964. Convido-vos a ver o plano sequência do início do filme, em que a própria câmara mergulha na piscina. Uma breve crítica do filme pode ser lida aqui.

Boas férias, se for o caso.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Por que atribuo a nota de 14 valores ao exame de Filosofia


POR QUE ATRIBUO A NOTA DE 14 VALORES AO EXAME DE FILOSOFIA

APRECIAÇÃO CRÍTICA DA PROVA ESCRITA DE FILOSOFIA
(Prova 714/1ª fase)

Esta apreciação é feita sem conhecer ainda os critérios de avaliação. É uma reflexão pessoal de quem foi coadjuvante no exame. Também faço referência a comentários dos meus alunos na conversa que tivemos no final, devidamente assinalados.

1. Apreciação global: o exame é francamente melhor que os dois testes intermédios conhecidos, tendo sido evitados alguns dos erros apontados naqueles. Se a minha leitura está certa, os autores optaram por “jogar à defesa”. Aceito esta estratégia defensiva: se as polémicas se repetissem, tal poderia ter consequências devastadoras para a credibilidade da disciplina e, eventualmente, para a continuação do exame. Penso que os autores foram sensatos.

2. Pontos a favor: desaparecem os conteúdos vagos ou de relevância filosófica discutível (sujeito e objeto, p. ex.), os conteúdos/autores convocados são relevantes e aparece finalmente uma pergunta de avaliação crítica (o aluno toma posição sobre um problema filosófico).

3. Pontos contra: Predomínio de competências cognitivamente pouco exigentes: “identifique a tese”, “nomeie” (duas vezes), “exponha” e “explicite”. Pouca importância atribuída a competências críticas. Continuam a existir erros ou, no mínimo, opções científica e pedagogicamente muito duvidosas (ver adiante).

4. Comentários ao exame (grupo a grupo)
4.1. GRUPO I.
Sobre 1.: texto bem escolhido, o que se exige ao aluno é muito pouco (praticamente apenas competências de interpretação de texto).
Sobre 2: texto bem escolhido, a opção pela escolha múltipla aceita-se, embora seja também pouco exigente. Sobre 2.1.: avalia-se apenas interpretação de texto. Sobre 2.2., 2.3. e 2.4.: exigem-se conhecimentos relevantes sobre os autores, embora as opções certas sejam óbvias. Sobre 3: o texto é irrelevante para a pergunta, limitando-se a fazer referência à “posição original”. O que se exige na pergunta tem conteúdo filosófico relevante, tendo o aluno de fazer referência a outros conceitos fundamentais de Rawls (véu de ignorância, princípio maximin, justiça como equidade, p. ex.).
4.3. GRUPO II
Sobre 1.: texto bem escolhido. Sobre 1.1.: A expressão “mau uso da retórica” é valorativa. Deveria ter-se acrescentado: “segundo Platão” ou “a que o texto faz referência”. Um aluno meu, um “nietzscheniano” convicto, classificou no final a pergunta como “tendenciosa”. Acho que ele tem razão.
Sobre 1.2.: conteúdo relevante, embora a pergunta seja uma vez mais pouco exigente (“exponha”...).
Sobre 2.1.: a resposta certa (“pretende obter a adesão livre do auditório”) utiliza “livre” como relevante para a escolha da resposta certa, o que não é verdade. Para além de complicar desnecessariamente (o que é uma adesão livre?), em rigor o carácter “livre” da adesão não é exclusivo da boa argumentação. Na manipulação retórica o auditório não é propriamente “obrigado” a aderir, certo?
Sobre 2.3.: A resposta certa (“parecem ser dedutivamente válidos”) está mal formulada. O que é relevante não é que os argumentos pareçam ser válidos, mas sim que pareçam e o não sejam. Da afirmação “João parece estar feliz” não se infere que João não esteja feliz. Os argumentos dedutivamente válidos também parecem ser dedutivamente válidos...
Sobre 2.4.: A resposta certa (“relação de consequência entre proposições”) está mal formulada. A relação entre proposições não tem de ser de “consequência” (seria mais intuitivo apresentar o conceito de implicação).
GRUPO III
Por que não a referência explícita a “inspetor de circunstância”?
GRUPO IV
O texto é bem escolhido.
Sobre 1.1.: pouco exigente (“nomear”)
Sobre 1.2.: pergunta relevante e bem formulada.
Sobre 2.: pergunta algo vaga (confrontar “as ideias expressas no texto de Hume com o racionalismo de Descartes”), apesar das indicações de resposta atenuarem em parte a vagueza da confrontação exigida. Alguns dos meus alunos estavam pouco seguros quanto ao que lhes era exigido. Resta esperar pelos critérios de correção...
Sobre 3.: finalmente, o aluno pode falar na primeira pessoa!

CONCLUSÃO: apesar das falhas ou opções erradas que, em minha opinião, o exame tem, penso que hoje foi um dia positivo para o ensino da filosofia. Embora não se tenha ido tão longe quanto seria desejável, estamos na presença de um exame de... filosofia. E isso é uma boa notícia.
Numa escala de 0 a 20, atribuo ao exame a nota de 14.



sexta-feira, 11 de maio de 2012

Teste intermédio de Filosofia: uma excelente resposta a uma pergunta ridícula

O Grito, de Edvard Munch


A pergunta 1 do Grupo III do teste intermédio de Filosofia de 2012 era a seguinte:

1. Leia o texto seguinte.

Ser objecto do conhecimento não significa que algo pertence ao mundo exterior, como erroneamente se supõe na linguagem vulgar, quando se opõe mundo «mundo objectivo» a «mundo subjectivo». Uma ideia pode ser objecto de conhecimento, como esta mesa; uma dor e um sonho podem ser, por exemplo, objectos de conhecimento, sem, com isso, necessitarem de pertencer ao mundo exterior. «Objectivo» diz respeito ao objecto e não implica a existência do mundo exterior.
Delfim Santos, «Da Filosofia» in Obras Completas I, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1982
Esclareça o sentido da frase «Ser objecto do conhecimento não significa que algo pertence ao mundo exterior».


Uma das minhas alunas respondeu assim:
Com a frase “ser objeto do conhecimento não significa que algo pertence ao mundo exterior” o autor expressa uma objeção a um dos argumentos cartesianos a favor da existência de Deus. O argumento em causa é aquele em que Descartes afirma que se tem a noção de perfeição “dentro de si”, então tem de existir necessariamente um ser com essas características. Porém, como argumenta Delfim Santos, “uma ideia pode ser objeto de conhecimento, como (...) uma dor e um sonho (...) sem, com isso, necessitarem de pertencer ao mundo exterior”. Isso também funciona com a ideia de um ser perfeito: alguém pode imaginar um ser perfeito (Deus) sem esse ser existir.

De acordo com os critérios de correção, a cotação atribuída deveria ter sido 0 (zero) pontos. E digo deveria porque resolvi atribuír-lhe a cotação máxima: 20 pontos. Obviamente. Seriam 2 (dois!) valores a menos na nota da aluna. Felizmente tratava-se de um teste intermédio, em que estas opções são permitidas aos professores corretores.
Mas a pergunta fica no ar: e se uma barbaridade destas acontecer no exame nacional?  
Até dá vontade de gritar...

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Bibliofilmoteca n.º 3: O Livro de Areia, de Jorge Luis Borges


Recordo ter ouvido essas figuras ao pai do meu pai. Tu e eu somos poetas; vou salvar-te. Agora não definimos cada facto que inflama o nosso canto; cifrámo-lo numa só palavra que é a Palavra.
"Respondi-lhe:
"- Não pude ouvi-la. Peço-te que me digas qual é.
"Vacilou uns instantes e respondeu:
"- Jurei não revelá-la. Aliás, ninguém pode ensinar nada. Deves procurá-la sozinho.

Jorge Luis Borges in O Livro de Areia