quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Do Tempo: que seria de nós sem as memórias?



Que é, pois, o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; se quero explicá-lo a quem me pede, não sei.
Agostinho de Hipona



Where are all the joys of yesterday?
Where, now, is the happiness and laughter that we shared?
Gone, like our childhood dreams, aspirations and beliefs;
Time is a thief, and he ravages our gardens,
Stripping saplings, felling trees,
Trampling on our flowers, sucking sap and drying seeds.
In the midnight candle-light of experience
All colour fades, green fingers grey…

Peter Hammill, in Forsaken Gardens


na casa onde nasci havia sons e cheiros meus
as pessoas que os tinham emprestavam-mos à memória
e eu incluía-os como amigos íntimos
João Negreiros, in o Outono visto pela janela

domingo, 20 de outubro de 2013

Ich bin ein Berliner


Um excelente filme de Wolfgang Becker. Com uma excelente banda sonora, também, do inimitável Yann Tiersen. Voltarei a ele para o comentar de um ponto de vista filosófico. Por agora, faz de postal dos correios para a Maria Miguel, que está em Berlim.

 Ich bin ein Berliner :)



sexta-feira, 18 de outubro de 2013

"Até que ponto devemos dizer a verdade?", um artigo de crítica filosófica da autoria de Joana Gonçalves

Joana Gonçalves, a jovem autora do artigo

Até que ponto devemos dizer a verdade?

por

Joana Gonçalves

Para realizar este artigo filosófico, inspirei-me numa passagem de um livro que li recentemente, “Memórias de Anne Frank”. Neste livro, o autor, Theo Coster, judeu e ex-colega de Anne, reúne cinco ex-amigos desta e recordam como eram as suas vidas durante a 2ª Guerra Mundial. Ao longo do livro, o autor acaba por recordar também a sua própria história dando-nos o testemunho em primeira mão de um sobrevivente ao Holocausto.

Numa passagem do livro, quando o autor faz referência ao seu percurso de vida, ao longo de todos aqueles anos em que os judeus foram perseguidos, conta-nos que não viveu um período atribulado tal como muitos dos seus colegas. Theo foi identificado como uma pessoa “normal” graças a um mero acaso que, segundo ele, lhe salvou a vida: algum tempo antes de se iniciar a guerra, o seu pai tinha sido obrigado a preencher um formulário sobre a ascendência dos seus avós. Este preencheu-o dizendo que Theo tinha dois avós judeus e dois não-judeus quando, na realidade, ambos os lados da família eram judeus. Quando um funcionário público recebeu esse formulário, identificou Theo como uma criança não judaica nos seus documentos de identificação, passando então a ser considerada uma criança “normal”.

O que mais me chamou à atenção na vida desta personagem é que sobreviveu à custa de uma mentira. Talvez se tivesse sido reconhecido como judeu, tal como Anne Frank fora, não tivesse tido a sorte de escapar impune a esta época histórica. Mas, afinal, até onde devemos encarar a verdade? É errado mentir em qualquer circunstância? A verdade é que na prática muitos de nós põem de parte essa hipótese. A mentira é vista por muitos como algo indesejável e incorreto. Mas será que realmente existe algum critério que separe as ações “moralmente boas” das “moralmente más” e que classifique a mentira como um ato incorreto em qualquer circunstância? Por exemplo, seria errado mentir a um criminoso que procurava um amigo nosso, de modo a salvar-lhe a vida? Deveríamos mentir para salvar a vida de alguém da nossa família?

Immanuel Kant afirma que nenhum indivíduo deve mentir em circunstância alguma e que devemos agir de acordo com o Dever e não a pensar nas consequências das nossas ações. Segundo Kant: “(…) o dever de veracidade não faz qualquer distinção entre pessoas –umas em relação às quais poderíamos ter este dever, outras a propósito das quais dele nos poderíamos dispensar– mas porque é um dever incondicionado, que vale em todas as condições.” Assim, segundo este filósofo, o pai de Theo fez mal em ter mentido para salvar a vida do filho. O seu dever era ter afirmado que este tinha quatro avós judeus, independentemente de conseguir ou não sobreviver à perseguição dos alemães, pois o mais importante era respeitar os deveres universais.

Já John Stuart Mill, um filósofo inglês do século XIX, defende uma perspectiva utilitarista, afirmando que devemos agir de modo a maximizar a felicidade, isto é, proporcionar o máximo de bem-estar ao maior número de pessoas possível. Segundo Mill, a atitude do pai de Theo foi correta pois permitiu que este sobrevivesse, sendo que qualquer pessoa na mesma situação deveria ter agido da mesma maneira.

Podemos ainda abordar a situação desta família segundo outra perspectiva: o egoísmo ético. Esta teoria diz-nos que devemos agir apenas em função do interesse de cada um e do próprio bem-estar. Ayn Rand, uma escritora de origem russa, afirma que “alcançar a própria felicidade é o objetivo moral mais elevado do ser humano”. Sendo assim, para um egoísta ético o pai de Theo agiu moralmente bem ao mentir para salvar a vida do filho pois agiu em função dos seus interesses.

Na minha opinião, a justificação do egoísmo ético face a este problema filosófico é a mais plausível. O pai do autor, ao querer salvar a sua família, sentiu-se na obrigação de mentir. É claro que muitos judeus acharam que não era o mais acertado e aceitaram o seu estatuto social, mas esta foi a forma de conseguir dar relevância aos seus interesses. Mas será que o que o pai de Theo fez foi o mais correto? Não sei e duvido que alguém saiba responder a esta questão com uma certeza absoluta. Uns considerarão que sim, outros que não. Mas deixemos isso ao critério de cada um.



COSTER, Theo, Memórias de Anne Frank, Porto, Edições Asa, 2012

Sobre a fotografia de fundo do blogue




É um dos trabalhos de que mais gosto de Susana Paiva, uma genial fotógrafa portuguesa que tive o prazer e a honra de conhecer recentemente e cujo trabalho acompanho com enorme fascínio e deleite. 
Esta sua fotografia ilumina por agora este meu renovado blogue. Grande parte da obra de Susana Paiva pode ser descoberta em http://www.susanapaiva.com/

Uma visita obrigatória.

sábado, 19 de janeiro de 2013

“Rachei-a de alto a baixo, como um animal, porque ela contava as moscas no tecto enquanto fazíamos amor.” O que diria disto um subjectivista moral?


Pode um livro ser um auxiliar poderoso nas aulas de filosofia? Pode, tal como o cinema, a arte ou as notícias, por exemplo.
Vem isto a propósito de um livrinho que gosto de levar para as minhas aulas quando discutimos o tema da natureza dos juízos morais. Trata-se de “Crimes Exemplares”, de Max Aub, editado em Portugal pela Antígona.


Como faço habitualmente, apresentei o problema de maneira pouco convencional, na expectativa de captar a atenção dos alunos e os levar a aperceberem-se das perplexidades que nos surgem quando pensamos criticamente nestes assuntos. A estratégia foi ler alguns dos micro-contos de que o livro é feito, nos quais homicidas condenados apresentam os motivos que os levaram a cometer os seus crimes. Aqui ficam dois. O caso estranho deste barbeiro, por exemplo:

“Sou barbeiro. É uma coisa que pode acontecer a qualquer pessoa. Quero dizer que até esse dia fui um bom barbeiro. Cada qual tem as suas manias, eu não gosto de borbulhas.
Aconteceu assim: comecei a barbeá-lo calmamente, ensaboei-o com habilidade, afiei a navalha no braço da cadeira e suavizei-a na palma da mão. Sou um bom barbeiro! Nunca cortei ninguém e ainda por cima esse tipo não tinha uma barba muito espessa. Mas tinha borbulhas. Devo reconhecer que nas suas borbulhas não havia nada de especial, no entanto, incomodavam-me, enervavam-me, revolviam-me as tripas.
A primeira, contornei-a bem, sem grande dificuldade, mas a segunda começou a sangrar. Então, não sei o que me deu, acho que é uma coisa muito natural, aprofundei a ferida e depois, sem poder deixar de o fazer, com um só golpe, cortei-lhe a cabeça.”

Ou este trágico desenlace que começa com uma inocente colherzinha:

“Começou a mexer o café com leite com a colherzinha. O líquido quase transbordava da chávena empurrado pelo movimento do utensílio de alumínio (o recipiente era vulgar, o sítio ordinário e a colher estava arredondada pelo uso). Ouvia-se o barulho do metal contra o vidro. Tim, tim, tim, tim. E o café com leite girava, girava com uma cova no meio. Um maelstrom. E eu encontrava-me sentado mesmo à frente. O café estava à pinha. O homem continuava a mexer, a mexer, imóvel, e sorria ao olhar-me. Senti uma coisa subir por mim acima. Fitei-o de tal maneira que se viu na obrigação de se explicar:
- O açúcar ainda não está derretido.
Para mo provar, bateu com a colher várias vezes no fundo do copo. Recomeçou a mexer metodicamente a beberagem, com uma energia redobrada. Voltas e mais voltas, sem parar, eternamente. Voltas e mais voltas e mais voltas. E continuava a olhar para mim, sorrindo. Então puxei da pistola e disparei.”

Podemos encontrar este e outros oito contos adaptados para o cinema na curta-metragem “Menos 9” (Portugal, 1999), de Rita Nunes.



Tudo isto vem a propósito do subjectivismo moral. Uma teoria que defende que os juízos morais dependem da perspectiva de cada sujeito (são subjectivos), ou seja, que em Ética não há verdades universais, cada pessoa tem a sua «verdade». O argumento principal desta teoria pode ser sintetizado assim:

Um juízo moral exprime os sentimentos e convicções da pessoa sobre o assunto em causa; as pessoas são diferentes umas das outras; logo, os juízos morais são subjectivos.

À primeira vista, e como aspecto positivo, o subjectivismo moral parece promover a tolerância. De facto, se o que é moralmente «certo» ou «errado» depende dos sentimentos de cada pessoa e se os sentimentos de uma não são melhores nem piores que os de outra, conclui-se que devemos ser tolerantes para com os juízos morais dos outros.
Contudo, são decerto em maior número as dificuldades que nos coloca quando imaginamos as consequências da sua aplicação na vida em sociedade. Vejamos algumas objecções possíveis.

Se o subjectivismo está certo, qualquer juízo moral é verdadeiro. De facto, se os juízos morais dependem apenas da perspectiva de cada sujeito, então nenhum juízo moral pode ser considerado errado, por mais repugnante que seja, uma vez que para quem o defende ele é verdadeiro. Vista assim, a Ética é completamente arbitrária.
Em segundo lugar, a educação moral, tal como a entendemos, deixa de fazer sentido. Educar é transmitir determinados valores considerados «bons» em detrimento de outros considerados «maus». Ora, se cada um ajuíza à sua maneira os factos morais, para quê educar? Quando muito, um subjectivista consequente poderia dar este conselho: «ajuíza de acordo com os teus sentimentos e terás sempre razão».
Finalmente, o debate de ideias sobre assuntos morais tornar-se-ia desnecessário. Se toda a gente tem a sua «verdade», de que serve discutir problemas e confrontar argumentos? Numa sociedade organizada de acordo com o subjectivismo moral, a disciplina de Filosofia decerto não existiria…

São estas e outras questões filosóficas com elas relacionadas que andaremos, eu e os meus alunos, a discutir nas próximas aulas. Pelo menos enquanto não acabarem com a disciplina no secundário...