Este é um blogue sobre cinema e filosofia (na sala de aula e não só). Mas também sobre música, arte, literatura, entre outras coisas que enriquecem a minha vida. Neste sentido, é também um blogue pessoal.
Um excelente filme de Wolfgang Becker. Com uma excelente banda sonora, também, do inimitável Yann Tiersen. Voltarei a ele para o comentar de um ponto de vista filosófico. Por agora, faz de postal dos correios para a Maria Miguel, que está em Berlim.
Para realizar este artigo filosófico, inspirei-me numa
passagem de um livro que li recentemente, “Memórias de Anne Frank”. Neste
livro, o autor, Theo Coster, judeu e ex-colega de Anne, reúne cinco ex-amigos
desta e recordam como eram as suas vidas durante a 2ª Guerra Mundial. Ao longo
do livro, o autor acaba por recordar também a sua própria história dando-nos o
testemunho em primeira mão de um sobrevivente ao Holocausto.
Numa passagem do livro, quando o autor faz referência ao
seu percurso de vida, ao longo de todos aqueles anos em que os judeus foram
perseguidos, conta-nos que não viveu um período atribulado tal como muitos dos
seus colegas. Theo foi identificado como uma pessoa “normal” graças a um mero
acaso que, segundo ele, lhe salvou a vida: algum tempo antes de se iniciar a
guerra, o seu pai tinha sido obrigado a preencher um formulário sobre a
ascendência dos seus avós. Este preencheu-o dizendo que Theo tinha dois avós
judeus e dois não-judeus quando, na realidade, ambos os lados da família eram
judeus. Quando um funcionário público recebeu esse formulário, identificou Theo
como uma criança não judaica nos seus documentos de identificação, passando
então a ser considerada uma criança “normal”.
O que mais me chamou à atenção na vida desta personagem é
que sobreviveu à custa de uma mentira. Talvez se tivesse sido reconhecido como
judeu, tal como Anne Frank fora, não tivesse tido a sorte de escapar impune a esta
época histórica. Mas, afinal, até onde devemos encarar a verdade? É errado mentir
em qualquer circunstância? A verdade é que na prática muitos de nós põem de
parte essa hipótese. A mentira é vista por muitos como algo indesejável e incorreto.
Mas será que realmente existe algum critério que separe as ações “moralmente
boas” das “moralmente más” e que classifique a mentira como um ato incorreto em
qualquer circunstância? Por exemplo, seria errado mentir a um criminoso que
procurava um amigo nosso, de modo a salvar-lhe a vida? Deveríamos mentir para
salvar a vida de alguém da nossa família?
Immanuel Kant afirma que nenhum indivíduo deve mentir em
circunstância alguma e que devemos agir de acordo com o Dever e não a pensar nas
consequências das nossas ações. Segundo Kant: “(…) o dever
de veracidadenão
faz qualquer distinção entre pessoas–umas em relação às quais
poderíamos ter este dever, outras a propósito das quais dele nos poderíamos
dispensar– mas porque é um dever incondicionado, que vale em todas as
condições.” Assim, segundo este filósofo, o pai de Theo fez mal
em ter mentido para salvar a vida do filho. O seu dever era ter afirmado que
este tinha quatro avós judeus, independentemente de conseguir ou não sobreviver
à perseguição dos alemães, pois o mais importante era respeitar os deveres
universais.
Já John Stuart Mill, um filósofo inglês do século XIX,
defende uma perspectiva utilitarista, afirmando que devemos agir de modo a
maximizar a felicidade, isto é, proporcionar o máximo de bem-estar ao maior
número de pessoas possível. Segundo Mill, a atitude do pai de Theo foi correta pois
permitiu que este sobrevivesse, sendo que qualquer pessoa na mesma situação
deveria ter agido da mesma maneira.
Podemos ainda abordar a situação desta família segundo
outra perspectiva: o egoísmo ético. Esta teoria diz-nos que devemos agir apenas
em função do interesse de cada um e do próprio bem-estar. Ayn Rand, uma
escritora de origem russa, afirma que “alcançar a própria felicidade é o
objetivo moral mais elevado do ser humano”. Sendo assim, para um egoísta ético o
pai de Theo agiu moralmente bem ao mentir para salvar a vida do filho pois agiu
em função dos seus interesses.
Na minha opinião, a justificação do egoísmo ético face a
este problema filosófico é a mais plausível. O pai do autor, ao querer salvar a
sua família, sentiu-se na obrigação de mentir. É claro que muitos judeus acharam
que não era o mais acertado e aceitaram o seu estatuto social, mas esta foi a
forma de conseguir dar relevância aos seus interesses. Mas será que o que o pai
de Theo fez foi o mais correto? Não sei e duvido que alguém saiba responder a
esta questão com uma certeza absoluta. Uns considerarão que sim, outros que
não. Mas deixemos isso ao critério de cada um.
COSTER, Theo, Memórias de Anne Frank, Porto, Edições Asa, 2012
É um dos trabalhos de que mais gosto de Susana Paiva, uma genial fotógrafa portuguesa que tive o prazer e a honra de conhecer recentemente e cujo trabalho acompanho com enorme fascínio e deleite.
Esta sua fotografia ilumina por agora este meu renovado blogue. Grande parte da obra de Susana Paiva pode ser descoberta em http://www.susanapaiva.com/.
Pode um livro ser um
auxiliar poderoso nas aulas de filosofia? Pode, tal como o cinema, a arte ou as
notícias, por exemplo.
Vem isto a propósito de um
livrinho que gosto de levar para as minhas aulas quando discutimos o tema da
natureza dos juízos morais. Trata-se de “Crimes Exemplares”, de Max Aub,
editado em Portugal pela Antígona.
Como faço habitualmente,
apresentei o problema de maneira pouco convencional, na expectativa de captar a
atenção dos alunos e os levar a aperceberem-se das perplexidades que nos surgem
quando pensamos criticamente nestes assuntos. A estratégia foi ler alguns dos
micro-contos de que o livro é feito, nos quais homicidas condenados apresentam
os motivos que os levaram a cometer os seus crimes. Aqui ficam dois. O caso
estranho deste barbeiro, por exemplo:
“Sou barbeiro. É uma coisa que pode acontecer a qualquer pessoa. Quero
dizer que até esse dia fui um bom barbeiro. Cada qual tem as suas manias, eu
não gosto de borbulhas.
Aconteceu assim: comecei a barbeá-lo calmamente, ensaboei-o com
habilidade, afiei a navalha no braço da cadeira e suavizei-a na palma da mão.
Sou um bom barbeiro! Nunca cortei ninguém e ainda por cima esse tipo não tinha
uma barba muito espessa. Mas tinha borbulhas. Devo reconhecer que nas suas
borbulhas não havia nada de especial, no entanto, incomodavam-me, enervavam-me,
revolviam-me as tripas.
A primeira, contornei-a bem, sem grande dificuldade, mas a segunda
começou a sangrar. Então, não sei o que me deu, acho que é uma coisa muito
natural, aprofundei a ferida e depois, sem poder deixar de o fazer, com um só
golpe, cortei-lhe a cabeça.”
Ou este trágico desenlace
que começa com uma inocente colherzinha:
“Começou a mexer o café com leite com a colherzinha. O líquido quase
transbordava da chávena empurrado pelo movimento do utensílio de alumínio (o
recipiente era vulgar, o sítio ordinário e a colher estava arredondada pelo
uso). Ouvia-se o barulho do metal contra o vidro. Tim, tim, tim, tim. E o café
com leite girava, girava com uma cova no meio. Um maelstrom. E
eu encontrava-me sentado mesmo à frente. O café estava à pinha. O homem
continuava a mexer, a mexer, imóvel, e sorria ao olhar-me. Senti uma coisa
subir por mim acima. Fitei-o de tal maneira que se viu na obrigação de se
explicar:
- O açúcar ainda não está derretido.
Para mo provar, bateu com a colher várias vezes no fundo do copo.
Recomeçou a mexer metodicamente a beberagem, com uma energia redobrada. Voltas
e mais voltas, sem parar, eternamente. Voltas e mais voltas e mais voltas. E
continuava a olhar para mim, sorrindo. Então puxei da pistola e disparei.”
Podemos encontrar este e
outros oito contos adaptados para o cinema na curta-metragem “Menos 9”
(Portugal, 1999), de Rita Nunes.
Tudo isto vem a propósito
do subjectivismo moral. Uma teoria que defende que os juízos morais dependem da
perspectiva de cada sujeito (são subjectivos), ou seja, que em Ética não há
verdades universais, cada pessoa tem
a sua «verdade». O argumento principal desta teoria pode ser sintetizado assim:
Um juízo moral exprime os
sentimentos e convicções da pessoa sobre o assunto em causa; as pessoas são
diferentes umas das outras; logo, os juízos morais são subjectivos.
À primeira vista, e como
aspecto positivo, o subjectivismo moral parece promover a tolerância.De facto, se o que é moralmente
«certo» ou «errado» depende dos sentimentos de cada pessoa e se os sentimentos
de uma não são melhores nem piores que os de outra, conclui-se que devemos ser
tolerantes para com os juízos morais dos outros.
Contudo, são decerto em
maior número as dificuldades que nos coloca quando imaginamos as consequências
da sua aplicação na vida em sociedade. Vejamos algumas objecções possíveis.
Se o subjectivismo está
certo, qualquer juízo moral é verdadeiro. De facto, se os juízos morais
dependem apenas da perspectiva de cada sujeito, então nenhum juízo moral pode
ser considerado errado, por mais repugnante que seja, uma vez que para quem o
defende ele é verdadeiro. Vista assim, a Ética é completamente arbitrária.
Em segundo lugar, a
educação moral, tal como a entendemos, deixa de fazer sentido. Educar é
transmitir determinados valores considerados «bons» em detrimento de outros
considerados «maus». Ora, se cada um ajuíza à sua maneira os factos morais,
para quê educar? Quando muito, um subjectivista consequente poderia dar este
conselho: «ajuíza de acordo com os teus sentimentos e terás sempre razão».
Finalmente, o debate de
ideias sobre assuntos morais tornar-se-ia desnecessário. Se toda a gente tem a
sua «verdade», de que serve discutir problemas e confrontar argumentos? Numa
sociedade organizada de acordo com o subjectivismo moral, a disciplina de
Filosofia decerto não existiria…
São estas e outras questões
filosóficas com elas relacionadas que andaremos, eu e os meus alunos, a
discutir nas próximas aulas. Pelo menos enquanto não acabarem com a disciplina
no secundário...