domingo, 17 de novembro de 2013

O problema do livre arbítrio (capítulo 1): Quando a culpa é das companhias...


CAPÍTULO 1

Quando a culpa é das companhias...

(Determinismo e livre arbítrio: apresentação do problema)


Comecemos com uma notícia de jornal.  A edição do «Correio da Manhã» de 7/9/2008 incluía uma reportagem sobre o abandono e o insucesso escolar. Chamou-me particularmente a atenção o depoimento de dois jovens, o João e a Sofia, que foram entrevistados pelo mesmo motivo: tinham chumbado várias vezes. Vamos ouvi-los.
O João, que tinha na altura 22 anos, provém de uma família rica. Já chumbou quatro vezes. Quando lhe perguntaram por que motivos respondeu assim:
«Os meus problemas começaram quando fui expulso do colégio. Tive que sair porque não podiam ter alguém como eu a perturbar as aulas».
O João padece de uma doença de foro neurológico chamada Síndrome de Tourette. A doença manifesta-se através de tiques motores e vocais involuntários como, por exemplo, fazer movimentos bruscos e gritar. (Já voltaremos a esta estranha doença.)
Agora a Sofia. Tinha na altura 17 anos, nascida numa família pobre, e já chumbou três vezes. Assume que andou «na balda» durante uns tempos e aponta como uma das causas as «más companhias».
Em resumo, ambos justificam a sua conduta com factores exteriores à sua vontade: João com a doença, Sofia com as influências sociais.
Há uma pergunta em que de certeza já estás a pensar: será que  faz sentido responsabilizar o João e a Sofia pelo seu fracasso? À primeira vista, os casos parecem completamente diferentes. Mas serão realmente?
Comecemos pelo caso do João e por alguns esclarecimentos prévios sobre esta doença neurológica com nome tão estranho. Como acontece muitas vezes na ciência, herda-se o nome do cientista responsável pela descoberta. Neste caso, Gilles de la Tourette, o médico francês que foi o autor do primeiro artigo científico sobre esta doença, publicado em 1885. Há muita informação disponível na net. Foi lá que descobri para ti esta descrição:
           
Síndrome de Gilles de La Tourette

Também conhecida por doença dos tiques é uma patologia rara de origem  neurológica que se manifesta por tiques motores incontroláveis e inadequados ou vocalizações repetidas e fora do contexto. É um distúrbio raro de origem neurológica cujas formas mais graves são altamente limitativas, uma vez que os doentes não conseguem controlar os movimentos  involuntários.
Esta situação acaba por afectar, gradualmente, as relações interpessoais, escolares e profissionais. Afecta sobretudo indivíduos do sexo masculino e manifesta-se de forma única em cada um (não há dois doentes com os mesmos tiques). Não se conhecem as causas mas alguns especialistas acreditam que tem origem  num desequilíbrio químico a nível do cérebro, resultado de anomalias nos neurotransmissores. Suspeita-se de uma anomalia no metabolismo de um  neurotransmissor específico, a dopamina.
Não existe cura para esta doença. No entanto, através de uma medicação cuidada e rigorosa é possível atenuar os sintomas de forma a permitir uma integração social adequada.
Os tiques podem ser palavrões ditos repetidamente em voz alta fora do contexto, movimentos bruscos e estranhos, caretas, movimentos espásmicos, colocar os dedos na garganta, fazer sons de animais, entre outros gestos.

Fonte: http://saude.sapo.pt/saude-medicina/medicacao-doencas/doencas/sindromeydeygillesydeylaytourette.html

E, já agora, este vídeo retirado de um programa de TV inglês sobre o dia a dia de John, um jovem do secundário com a síndrome:


            Voltemos ao João. Percebe-se agora melhor o que queria ele dizer com “tive que sair porque não podiam ter alguém como eu a perturbar as aulas». É difícil imaginar um aula normal com alguém que se mexe, remexe, se levanta e se põe a andar pelo meio da sala; ou que lança gritos e, quem sabe?, palavrões no meio da aula.
            Quero agora que te coloques no papel do João. Quando ele se levanta bruscamente, ou se põe a gritar na aula, de quem é a responsabilidade, afinal? É da doença dele ou é... dele?
Pelo que acabámos de ler, parece difícil atribuir-lhe responsabilidades. E isto porque os atos não são uma escolha sua. Decerto preferiria não ter aquela doença que tantos embaraços lhe causa. Ora, se alguém faz qualquer coisa sem querer, a responsabilidade por esse ato não é sua, certo? Portanto, a conclusão a retirar é a de que o João não é responsável por esses comportamentos estranhos que, ditados pela sua doença, estiveram na base da sua expulsão da escola.
  Chegou agora a vez da Sofia. No seu caso não se trata de uma doença neurológica. Ela justifica o seu insucesso escolar com as companhias, ou seja, atribui as responsabilidades aos amigos com quem se dava na altura. Ora, se compararmos com o caso do João, vemos logo que há aqui uma diferença fundamental: enquanto o João não poderia evitar ter a doença, a Sofia poderia ter evitado andar com aquelas companhias. Todos nós conhecemos na escola, e fora dela também, pessoas com quem nos identificámos mais ou nos identificámos menos. Acabámos por nos associar a determinados grupos e não a outros por razões várias: porque temos a mesma idade, ou os mesmos gostos musicais, ou porque praticamos o mesmo desporto, ou porque somos vizinhos, por exemplo. Se nos perguntassem por que motivos temos aqueles amigos e não outros responderíamos que queremos ter esses amigos e não outros. Ou seja, atribuímos as nossas amizades a escolhas realizadas livremente.
Não é isso que faz a Sofia. Ela fala das companhias como se não tivesse podido separar-se delas. Atribui-lhes as responsabilidades por ter andado “na balda”, como ela diz. Mas terá sido mesmo assim? Não foi ela quem escolheu aquelas companhias e não outras? Com tanta gente que há na escola, foi logo dar-se com aquelas pessoas? Por quê? E, se se deu conta de que não eram boas influências, por que não se separou delas a tempo de não chumbar? Alguém a obrigou a ficar no grupo?
Estes dois casos servem na perfeição para exemplificar o problema filosófico do livre arbítrio. Livre arbítrio é ter capacidade de escolha, é podermos escolher entre vários caminhos possíveis que a vida nos oferece. Só faz sentido falar em livre arbítrio quando se pode escolher de entre várias opções, portanto. O passo seguinte é tentar mostrar-te por que é isto um problema filosófico. Mas para isso é necessário apresentar-te o conceito “rival” do de livre arbítrio, sem o qual nada disto faria sentido. Refiro-me ao conceito de “determinismo”.
O determinismo é uma concepção acerca do funcionamento do mundo segundo a qual tudo nele acontece devido a causas anteriores. Vistos desta perspectiva, os acontecimentos do mundo são uma sequência de causas que geram efeitos, que por sua vez são a causa por detrás de novos efeitos, e assim sucessivamente. Na filosofia chamamos a isso “cadeias causais”.
No filme O estranho caso de Benjamin Button, de David Fincher, há uma sequência em que Benjamin (Brad Pitt) reconstitui o dramático atropelamento que fará com que Daisy (Cate Blanchett) fique impossibilitada de dançar para o resto da sua vida. Ilustrada por uma hábil sequência de imagens, a voz de Benjamin apresenta um após outro os vários pequenos acontecimentos que, por se terem desenrolado desse e não de outro modo, se conjugaram entre si de tal maneira que acabam por ter como trágico desenlace o atropelamento. Convido-te a ver uma versão dobrada em português do Brasil  (se dominas bem o inglês podes ver aqui):


A cadeia causal do filme é uma bela sequência de cinema, mas a realidade é composta de sucessivas cadeias causais, segundo o determinismo. Podemos ilustrar esta ideia com aquelas performances com peças de dominó que às vezes passam na televisão. Como esta, por exemplo, encontrada no youtube:


Que tal, gostaste? As peças vão caindo uma a uma, sendo que a peça anterior é a causa da queda da peça seguinte, que por sua vez, ao cair, é a causa da queda da peça de dominó seguinte, e assim sucessivamente. Encarados desta forma, todos os acontecimentos do mundo obedecem a uma espécie de “efeito dominó”. Mas tu não te estás a ver como uma simples peça de um jogo, pois não?
Consideremos agora uma ficção digna dos filmes. Se, por hipótese, alguém pudesse ter acesso à “base de dados” do mundo, todos os acontecimentos passados, por mais intrigantes que parecessem, poderiam ser explicados racionalmente através das cadeias causais. Isto quer dizer que se alguém tivesse poderes para regressar ao passado, poderia assistir “ao vivo” à sucessão de causas e efeitos que fizeram com que as coisas tivessem acontecido daquele modo e não de outro. O que nos leva para esta hipótese curiosa: e se alguém no passado alterasse uma das peças do dominó? As coisas aconteceriam do mesmo modo ou tudo seria diferente? Serão os acontecimentos passados das nossas vidas apenas “peças de dominó” integradas em cadeias causais que não controlamos? Teremos realmente a possibilidade de fazer as coisas acontecerem de acordo com as nossas escolhas ou isso não passa de uma ilusão? 
  Há um filme que costumo passar aos meus alunos em que estas e outras questões filosóficas surgem com grande relevo. Vou falar-te dele. Mas, para já, dá uma vista de olhos ao trailer:


            Reconheces o actor? É Ashton Kutcher, interpretando Evan Treborn, no filme “Efeito Borboleta” (The Butterfly Effect), realizado por Eric Bress e J. Mackye Gruber em 2004.
Evan Treborn é um rapaz que desde os 7 anos se apercebeu que não conseguia recordar certos momentos da sua vida. O seu psicólogo aconselha-o a escrever um diário para evitar que esses esquecimentos continuem. É isso que ele faz: a partir daí começa a registar num diário tudo o que acontece no seu dia a dia. Anos mais tarde, é esse diário que leva Evan a descobrir que tem um dom muito especial. Queres saber que dom é esse, certo?
Já na universidade, Evan relê o seu diário por acaso e, de repente, dá por si no passado, revivendo um dos momentos de que ele não era capaz de se recordar. Intrigado sobre a experiência que viveu, decide procurar a sua amiga de infância Kayleigh (o seu primeiro amor...) deixando-a perturbada por remexer em histórias passadas. No dia seguinte Evan recebe uma chamada de Tommy, irmão de Kayleigh, relatando o seu suicídio. É este o acontecimento que provoca o desenrolar do filme e que leva Evan a uma sucessão de regressos ao passado para tentar alterar o destino do seu grande amor. Porém, Evan vai aprendendo, à sua própria custa, que alterar um fato do passado mexe com todo o futuro.
            O filme chama-se “Efeito Borboleta”, mas o que nele vai acontecendo é mais parecido com um alucinante e imprevisível efeito dominó. Seremos nós apenas peças de um “jogo” cujas regras nos escapam? Se tudo no universo é determinado, acontecerá o mesmo com as ações humanas? Existe determinismo ou livre arbítrio? Os filósofos que defendem uma coisa ou outra são designados de incompatibilistas. Por quê? Porque defendem que a existência de determinismo não é compatível com a existência de livre arbítrio: ou existe um ou existe o outro. Mas há quem defenda que há um meio termo: existe determinismo e também existe livre arbítrio. Esta tentativa de solucionar o problema é compatibilista, porque se considera que a existência de determinismo e a existência de livre arbítrio são, afinal, compatíveis. E já que estamos a falar de jogos, é caso para dizer que com isto ficam os “dados lançados”.
            Interessado em acompanhar este “enigma”? Não percas o próximo capítulo, que tem este título sugestivo...

Tens a certeza de que não és uma personagem do Sims?

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

14 de Novembro.

Leopold Mozart
Leopold Mozart nasceu a 14 de Novembro de 1719 em Salzburgo, na Áustria. Estudou Direito e Teologia, mas abandonou tudo pelo seu amor à música. Dos seus sete filhos, apenas dois sobreviveram. Compositor, dedicou grande parte da sua vida a ensinar música aos seus filhos. Um deles chamava-se Wolfgang Amadeus Mozart.

Ao descobrir que tinha um filho prodígio, levou-o a tocar junto de reis, príncipes e outros membros da nobreza. Este e outros momentos da vida de Mozart são retratados num dos meus filmes preferidos: Amadeus, de Milos Forman, de que apresento uma montagem encontrada no youtube.
Quanto mais pobres seríamos se este homem tivesse continuado a estudar Direito e Teologia em vez de seguir a sua vocação, a música?

Obrigado, Leopold, por seguires os teus sonhos. A Humanidade agradece.


domingo, 10 de novembro de 2013

E se os alunos fizessem uma viagem no Tempo para entrevistar Kant?

Immanuel Kant 



UM DIA NA VIDA DE IMMANUEL KANT (*)

            Hoje é um dia muito invulgar na vida de Immanuel Kant. Não obstante ser um homem de hábitos rígidos, a sua rotina diária não irá ser respeitada. Com efeito, agora que o almoço terminou e as visitas já saíram, Kant não retomará a leitura no escritório, como costuma fazer. É que hoje, a título excepcional, o filósofo vai receber em sua casa um grupo de estudantes de Filosofia proveniente de Portugal, mais precisamente da Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes, de Portimão.
            São quatro e dez quando os jovens, visivelmente animados, entram na sala principal da casa, conversando entre si como se ainda estivessem lá fora, lentos mas sorridentes, parecendo não se importar com o facto de já estarem um pouco atrasados. O à vontade que exibem não surpreende o filósofo, conhecedor que é do modo francamente original como os Portugueses interpretam a pontualidade. Por isso, resolve esperar que todos se sentem nos seus lugares e que o silêncio se instale. Quando finalmente isso acontece, Kant dá-lhes as boas-vindas:
            — É com grande satisfação que vos recebo na minha humilde casa. Há muito tempo que não era visitado por jovens, praticamente desde que deixei de leccionar aulas particulares; e, ainda para mais, um grupo tão numeroso e animado como o vosso. Eis-me, portanto, à vossa inteira disposição!
            Depois de Kant se ter sentado, um dos jovens levantou-se e disse:
            — Estamos-lhe muito agradecidos, Professor Kant, por ter acedido em nos receber. Confesso-lhe que não estávamos com muita esperança. Até temíamos que o nosso pedido pudesse parecer algo descarado. Vendo bem, não é muito habitual as pessoas ilustres perderem o seu precioso tempo com as dúvidas de jovens como nós; além do mais, é de esperar que as perguntas que temos para lhe colocar lhe pareçam um bocado idiotas...
            Kant sorriu com um ar divertido e depois respondeu:
            — Um professor não deixa de o ser pelo facto de não estar na sala de aula, do mesmo modo que um médico, por exemplo, interviria decerto numa situação de emergência, ainda que se encontrasse a passear e fosse o seu dia de folga. Façamos então de conta que esta é a Sala de Urgências Filosóficas e que eu sou o Filósofo de Serviço, está bem?
            Todos se riram, incluindo Kant. Conseguira, desse modo, que a timidez dos seus convidados desaparecesse, fazendo com que ficassem mais à vontade. Não restavam dúvidas de que era um orador experiente e talentoso, sabendo como agir para conquistar um auditório.
            — E bem necessitados estamos — continuou o jovem aluno— de toda a ajuda que nos possa dar, Professor, pois as dificuldades que estamos a sentir para “decifrar” os seus textos são de tal ordem, que mais parece que estamos a ler chinês! Veja-se o meu caso: os meus colegas, que devem ter andado a ler uns livritos do Astérix, tiveram a “gentileza” de me nomear “voluntário” para desempenhar, perante si, o papel de porta-voz do grupo. E porquê eu e não outro? Porque, como o meu pai é professor de Filosofia e tem as suas obras lá em casa, esperam por isso que eu as consiga entender melhor. Se eles soubessem como me sinto desamparado quando folheio os seus livros!...
            Kant sorriu perante a expressão de desalento que o jovem fizera, ao confessar as suas dúvidas. Era óbvio que falava verdade.
            — Não é motivo para desânimos — afirmou o filósofo com voz tranquilizadora. — Mas diz-me: como te chamas tu, “porta-voz angustiado”?
            — Chamo-me João Pedro, senhor — respondeu-lhe o rapaz.
            — Pois bem, João Pedro — continuou Kant— deixa-me fazer-te uma pergunta: esses papéis que tens na mão, é algo que tenhas para me perguntar?
           
João Pedro: É, sim senhor. Mas estas perguntas têm uma história, que convém que lhe explique. Sempre que estudamos as teses de um filósofo, o nosso professor propõe-nos, como estratégia de análise argumentativa, que imaginemos perguntas que gostaríamos de lhe ter feito (de preferência questões que lhe levantassem problemas...), acompanhadas das respostas que ele supostamente daria, obrigatoriamente documentadas com citações retiradas das suas próprias obras.
           
Kant: É uma boa ideia.
           
João Pedro: Não digo que não, mas reparou no que nos é exigido? Temos de conhecer as teses do autor, a sua argumentação, pesquisar nas suas obras e, para finalizar, criar uma contra-argumentação!
           
Kant: Ou seja: aquilo que deveria ser exigido a um estudante de Filosofia do secundário... Mas deixemos isso agora. Confesso que fiquei curioso em relação a essa entrevista imaginária que fizeram comigo.
           
João Pedro: Não tenho aqui as perguntas todas, mas apenas uma selecção feita pelo nosso professor, que também quis incluir umas quantas de sua autoria. Mas a maioria foi realmente inventada por nós, os alunos. Quer mesmo responder?
           
Kant: Com todo o gosto!
           
João Pedro: Ainda bem! A maior parte delas são situações imaginadas, para o Professor dizer qual seria a escolha acertada a fazer (de acordo com o seu ponto de vista, claro!). Vamos então à primeira situação. Está apaixonadíssimo por uma rapariga que lhe telefona a convidá-lo para sair nessa noite. Tudo indica que vai finalmente poder conquistá-la. Acontece, porém, que tem teste de Filosofia no dia seguinte e ainda lhe falta estudar uma boa parte da matéria. Sai ou fica em casa?
           
Kant: Colocas-me entre o prazer e o dever, não é verdade? Já sabes a resposta: o dever está sempre em primeiro lugar!
                       
João Pedro: A situação que se segue é muito vulgar no nosso país. Em vésperas de eleições, um político decide inaugurar um bairro social para famílias carenciadas. Trata-se, sem dúvida de uma atitude louvável; mas será que é virtuosa?
           
Kant: Bom, não hajam dúvidas de que não é uma acção má; resta saber se é realmente boa. A questão é a seguinte: quais foram os motivos que o levaram a fazê-lo? Se o fez porque era esse o seu dever (ajudar os mais necessitados) e apenas por isso, é indiscutível que foi uma acção boa; se, pelo contrário, utilizou essas pessoas em seu próprio benefício, aproveitando-se das misérias alheias para promover a sua ascensão política, torna-se evidente que uma acção desse tipo não pode ser considerada boa. Para as distinguir, eu diria que a primeira é uma acção por dever, enquanto que a segunda é uma acção realizada, não por dever, mas apenas conforme ao dever.
                                               
João Pedro: Imaginemos agora, Professor Kant, que tem um filho toxicodependente que vem ter consigo, desesperado, dizendo-lhe que precisa urgentemente de droga, ameaçando suicidar-se caso não a obtenha . Dava-lhe dinheiro para ele superar essa crise ou negava-lhe o auxílio, pura e simplesmente?
           
Kant: Auxiliá-lo-ia com todos os meios correctos que estivessem ao meu alcance, mas nunca alimentaria a sua dependência.
           
João Pedro: Correndo o risco de contribuir para o suicídio do seu filho?
           
Kant: E se lhe der dinheiro para ele se drogar, além de estar a agir mal, corro sérios riscos de o ajudar a matar-se...
           
João Pedro: A situação seguinte incide sobre uma prática que, pelo menos em Portugal, é já uma autêntica “instituição”. É assim: um seu amigo de infância, que lhe deve favores, está encarregado de seleccionar pessoal para a nova agência do banco que vai abrir na cidade. Trata-se de uma excelente oportunidade para o seu filho, até porque, desde que deixou de estudar, entrou num estilo de vida preocupante, ocioso, sem objectivos e com péssimas companhias. O Professor “meteria uma cunha” pelo seu filho?
           
Kant: Claro que não! Se toda a gente fizesse o mesmo, não valeria a pena abrir concursos para contratar pessoas! Além do mais, não entendo como se pode chamar civilizado a um país que aceita com naturalidade o facto da “cunha” ser a regra, enquanto o reconhecimento do mérito é visto como uma bizarra e suspeita excepção...
           
João Pedro: O senhor é médico e está de serviço nas Urgências, quando o informam de que a sua filha foi vítima de uma tentativa de assassínio, em plena baixa, por parte de um louco. Na sequência do tiroteio que então se gerou, o criminoso acabou por ser atingido com gravidade, pelo que também ele foi levado de ambulância para o hospital, tal como a sua filha, tendo dado entrada nas Urgências um pouco antes dela. Estão ambos em estado crítico, principalmente ele. As regras do Hospital são claras: atender os doentes por ordem de chegada e tratar em primeiro lugar os casos mais graves. Ou seja: como é o único médico de serviço, a sua filha vai ter de esperar, correndo o risco de morrer. Quem atenderia em primeiro lugar?
           
Kant: De acordo com o que defendo, deveria atender o mais necessitado, fosse ele quem fosse. O cumprimento do dever não pode estar dependente das nossas preferências, por mais nobres que sejam, sob pena de ninguém confiar em ninguém. Como classificarias um médico que deixasse morrer a tua mãe, apenas porque não gostava dela? E se ele atendesse em primeiro o filho do seu amigo e colega, que chegou depois de ti e está cheio de pressa, embora não tenha dores, enquanto tu continuas a sofrer no banco de urgência, com dores de dentes insuportáveis, só porque não és seu conhecido?
           
João Pedro: Mais uma situação dramática: denunciaria o seu filho, a quem viu matar uma velhinha por atropelamento, ou ocultaria o caso, já que é a única testemunha do acidente?
           
Kant: Eu respondo com outra pergunta: será que tudo pode ser feito impunemente, se envolver aqueles de quem gostamos e desde que ninguém saiba?
                                   
João Pedro: Mudemos agora de tema. Na aula de entrega e correcção dos testes, apercebo-me de que o professor se enganou a meu favor, devido a um lapso na soma das cotações. Que devo fazer?
           
Kant: É óbvio: informar o teu professor do engano involuntário que cometeu.
           
João Pedro: Mas, assim, a minha nota pode descer!
           
Kant: Talvez, mas a tua dignidade vai decerto subir...
                                   
João Pedro: Mudemos, então, de tema. O Professor Kant defendeu que uma máxima, para ser considerada boa, teria de poder ser universalizável, isto é, ser válida para todos os casos do género, sem cair em contradição consigo mesma. Tenho aqui alguns exemplos que pretendem pôr à prova a sua tese. Eis o primeiro: Robin Hood roubava os ricos para dar aos pobres. Era ou não um homem bom?
           
Kant: Um homem bom não rouba, seja por que motivo for. Os fins não justificam os meios...
           
João Pedro: Vou pedir-lhe que seja juiz no seguinte caso. Um homem, chefe de uma família de cinco filhos, encontra-se desempregado; a mulher cuidava dos filhos e trabalhava como lavadeira, até apanhar uma pneumonia e se encontrar à beira da morte. Os filhos clamam com fome, a mulher agoniza no leito. O homem, exasperado, sai disposto a trabalhar em algo que possa pagar o alimento dos filhos e os medicamentos da mulher. Não consegue. Passa pela padaria, que tem à vista uns cestos de pão quente. Furta apenas um, para matar a fome aos miúdos. É apanhado pela polícia e levado até si para que o julgue. Qual o veredicto?
           
Kant: É certo que a situação é dramática, mas o cumprimento do dever é inquestionável. Há pouco roubava-se para dar aos pobres, agora rouba-se para dar aos filhos. Que aconteceria se cada um de nós abrisse uma excepção?
           
João Pedro: Vêm aí duas perguntas muito engraçadas. Primeira: se fosse capturado por uma tribo de canibais e estes lhe perguntassem se padecia de uma doença maligna, responderia afirmativamente, a fim de se salvar, mesmo sabendo que era a pessoa mais saudável da Terra?
           
Kant: É, realmente, uma pergunta muito curiosa. Estou a perceber a intenção: querem levar-me a admitir uma excepção ao dever moral de não mentir, não é verdade? Muito bem, aceito o desafio. Vamos admitir que, no caso dos canibais, menti para salvar a vida. O que espero que aconteça?
           
João Pedro: Obviamente, espera que eles acreditem em si, senão... era uma vez um brilhante filósofo!
           
Kant: Consideremos que sim, que eles acreditaram na minha mentira. A pergunta que te faço é a seguinte: o que os terá levado a confiar em mim?
           
João Pedro: Se acreditaram, foi porque partiram do princípio que o Professor diria a verdade.
           
Kant: Ou seja: eu salvei a minha vida, utilizando a mentira, porque os meus captores acreditaram em mim, em nome da verdade.
           
João Pedro: É um pouco esquisito, realmente...
           
Kant: Aceitemos então, por uns momentos, a seguinte máxima: “Nunca mintas, a não ser que a tua vida esteja em risco”. Agora pergunto eu: ao defender que posso mentir para sobreviver, reconheço também esse direito às outras pessoa, ou apenas a mim próprio?
           
João Pedro: A toda a gente, claro, mas apenas neste caso.
           
Kant: Ou seja: todas as pessoas sabem que têm o direito de mentir nessas circunstâncias.
           
João Pedro: Exactamente.
           
Kant: Incluindo os canibais...
           
João Pedro: Já estou a perceber! Mesmo que estivesse doente de verdade, eles nunca iriam acreditar, julgando que estava a usufruir do tal “direito a mentir em circunstâncias especiais”.
           
Kant: Ora aí tens: mesmo no caso do mentiroso bem sucedido, é indispensável que as pessoas partam do princípio de que não se deve mentir. Entendes agora porque motivos a máxima deve ser universalizável?
           
João Pedro: Realmente, só assim não corre quaisquer riscos de cair em contradição. Bom, continuemos na selva. Está perdido e esfomeado. A única maneira de sobreviver é comer um macaco em vias de extinção. Que faz?
           
Kant: O dever de nos mantermos vivos parece-me ser mais importante do que o dever de preservarmos espécies em risco.
           
João Pedro: Tenho uma amiga ambientalista que discorda, concerteza, do que acabou de dizer... Saiamos da selva e voltemos à cidade, mais precisamente ao parque de estacionamento de um hipermercado. Já é de noite. Inadvertidamente, bate com a sua scooter nos faróis do lado direito de um luxuoso Rolls-Royce, deixando-os em muito mau estado. Olha à sua volta e apercebe-se de que ninguém deu por nada. Ainda por cima, lembra-se de que não pagou o seguro e hoje era o último dia para o fazer. E agora? Eu tenho a impressão que me “escapava” o mais despercebidamente possível, mas já sei que o Professor não aprova...
           
Kant: Agora sou eu que imagino uma situação, João Pedro. Já é de noite. Sais do cinema e diriges-te para a tua mota, que ainda estás a pagar. Olhas à volta, mas não a consegues encontrar. De repente, tropeças num monte de tubos cromados e metal encarquilhado. Ficas em estado de choque: é a tua Harley-Davidson, ou melhor, o que resta dela... Nesse momento, um automóvel arranca a toda a velocidade, o que te impede de ver a matrícula, mas reparas que tem uma grande mossa na traseira...
           
João Pedro: Pronto, pronto, já percebi, não é preciso dizer mais nada! Está mesmo na altura de lhe ler as últimas perguntas feitas por nós. Avançava num sinal vermelho, para fugir a um automóvel sem travões que surge, atrás de si, em grande velocidade?
           
Kant: Apenas em último caso, após me ter certificado de que não punha em risco a vida de outras pessoas.
           
João Pedro: Dava uma gorjeta ao arrumador de carros, que é pobre, mesmo sabendo que ele a ia utilizar mal?
           
Kant: Não. Neste caso, ser generoso é não dar dinheiro, embora se corra o risco de nos chamarem avarento.
           
João Pedro: A propósito de avarento: que esmola tem mais valor moral, a do generoso ou a do avarento?
           
Kant: Se o generoso o faz porque lhe dá prazer e o avarento o faz por dever, sem que lhe dê prazer algum, então é forçoso concluir que a esmola do avarento constitui, neste caso, uma atitude moralmente mais nobre.
           
João Pedro: O senhor é jogador de futebol e o seu pai treinador. As equipas que representam defrontam-se hoje. No último minuto, é assinalado um penalty. Cabe-lhe a si a tarefa de o tentar converter. Se for golo, a sua equipa ganha (embora não evite a descida de divisão), enquanto o seu pai é despedido de treinador da equipa adversária. Vai falhar de propósito?
           
Kant: Vou tentar fazer duas coisas: marcar o golo e, no fim do jogo, animar o meu pai.
                       
João Pedro: O exemplo que se segue é dramático, aviso desde já. O senhor vai a bordo do Titanic quando ocorre o naufrágio. No meio daquela confusão toda, conseguiu subir para um dos botes salva-vidas. A seu lado, uma criança de cerca de três anos chora desesperada, gritando pela mãe, com os bracinhos esticados na ânsia de conseguir ajudá-la a subir para o superlotado bote. Em vão. A única hipótese é alguém ceder o seu lugar à mãe da infeliz criança e mergulhar de novo no mar gélido, sabendo que tem pouquíssimas probabilidades de salvação. Que faria o Professor? Cederia o seu lugar?
           
Kant: É realmente uma situação terrível! Trata-se de escolher entre o dever de manter a nossa vida e o dever de salvar a vida de outro. Vou dar-vos trabalho para casa: descubram vocês mesmos o que eu faria nessa situação...
           
João Pedro: As nossas perguntas estão no fim. Eis a última. Tenho um amigo muito curioso. Sempre que falamos sobre a necessidade de ele arranjar um trabalho e organizar a sua vida, ele afirma que isso seria uma prisão e, como tal, deixaria de ser livre. Para ele, liberdade é fazer o que se quer, seguir o instinto. Não partilha desta tese, pois não?
           
Kant: Não. Ser livre não é fazer o que nos apetece; é fazer o que se deve, ainda que não nos apeteça. A moralidade dos actos humanos é algo demasiado importante para ser deixado à mercê de uma coisa tão “volátil” como os apetites.
           
João Pedro: Seja como for, continua a ser uma escolha.
           
Kant: Se me deixo levar pelas inclinações naturais, sabendo que não o devo fazer, como posso falar em escolha? Ser livre é libertarmo-nos de tudo aquilo que nos possa levar a fazer algo distinto do que a consciência nos diz.
           
João Pedro: Mas como não somos nós que escolhemos as nossas tendências e os nossos instintos, não somos responsáveis por eles!
           
Kant: É verdade que não somos nós que escolhemos as inclinações naturais, mas temos a responsabilidade de impedir que elas nos “escolham” a nós. O facto de não as podermos escolher não implica que tenhamos de lhes ceder...

João Pedro: Eu tinha escolhido umas frases suas que me intrigaram um pouco. Importa-se de me ajudar a compreendê-las melhor?

Kant: Estou à tua inteira disposição.

João Pedro: A primeira frase da sua autoria que gostaria que esclarecesse um pouco melhor é a seguinte: “A boa vontade não é boa por aquilo que promove ou realiza, pela aptidão para alcançar qualquer finalidade proposta, mas tão-somente pelo querer, isto é, em si mesma.” (1)

Kant: É simples. Mesmo se a vontade não conseguisse realizar na prática as suas boas intenções, “ela ficaria brilhando por si mesma como uma jóia, como alguma coisa que em si mesma tem o seu pleno valor. A utilidade ou inutilidade nada podem acrescentar a esse valor.” (2) O que vale por dizer o seguinte: “O valor moral da acção não reside, portanto, no efeito que dela se espera.” (3)

João Pedro: As consequências dos nossos actos não contam, portanto. Ainda a propósito de procurarmos utilidade naquilo que fazemos: qual é, afinal, a distinção entre “imperativo hipotético” e “imperativo categórico”?

Kant: Tantas dúvidas numa pergunta só! Vamos por partes. Em primeiro lugar, vou dizer-te como reconhecer um imperativo. O critério é o seguinte: “Todos os imperativos se exprimem pelo verbo dever.” (4)

João Pedro: É como se fosse uma ordem, portanto. Mas isso não quer dizer que nós obedeçamos aos imperativos, pois não?

Kant: Ora aí está. “Eles dizem que seria bom praticar ou deixar de praticar qualquer coisa, mas dizem-no a uma vontade que nem sempre faz qualquer coisa só porque lhe é representado que seria bom fazê-la.” (5)

João Pedro: Quanto à distinção entre os dois tipos de imperativo...

Kant: ...a diferença é a seguinte: “No caso de a acção ser apenas boa como meio para qualquer outra coisa, o imperativo é hipotético; se a acção é representada como boa em si, (...) então o imperativo é categórico.” (6)

João Pedro: Vamos lá ver se eu entendi. Ao não roubar, apenas e tão só por considerar que isso é moralmente inaceitável, sigo o imperativo categórico. Em contrapartida, se eu pensar para comigo: “Não roubes, se não queres passar por uma vergonha”, estou a seguir um imperativo hipotético: apenas é válido se, por hipótese, a pessoa em causa recear a vergonha, o que deixa de lado todos aqueles que não tenham vergonha na cara...

Kant: Exactamente. Mesmo que a nossa vontade não seja suficientemente forte para o seguir, o imperativo categórico é absolutamente indiscutível; quanto aos hipotéticos, por mais que nos apeteça segui-los, não deixam, por isso, de ser discutíveis.

João Pedro: Posso depreender, portanto, que apenas o imperativo categórico tem realmente valor moral, não é verdade?

Kant: Claro! É o único que se nos impõe por si mesmo.

João Pedro: Houve duas afirmações suas que me intrigaram particularmente. Na primeira, o Professor Kant reconhece que “é absolutamente impossível encontrar na experiência com perfeita certeza um único caso em que a máxima de uma acção (...) se tenha baseado puramente em motivos morais e na representação do dever.” (7)

Kant: Quanto à segunda...

João Pedro: Ainda me parece mais estranha, porque o senhor afirma que “nunca podemos penetrar completamente até aos móbiles [motivos] secretos dos nossos actos, porque, quando se fala de valor moral, não é das acções visíveis que se trata, mas dos seus princípios íntimos que se não vêem.” (8)

Kant: Confesso que não estou a perceber por que estás tão intrigado...

João Pedro: Então o Professor dedica toda a sua vida a defender um tipo de conduta moral, para depois reconhecer que não podemos apontar, com segurança, um exemplo que seja dessa mesma conduta?!... E como se isso não bastasse, acaba por dizer que nunca saberemos com total certeza quais os motivos que, secretamente, nos levam a agir!

Kant: Onde é que está a admiração? Não exijas a um filósofo o mesmo que ao jornalista: a este é suposto só interessar o que acontece de facto, ao passo que a mim me preocupa definir aquilo que, de direito, seria correcto acontecer. Portanto, nunca te esqueças: quando nos situamos no âmbito da Moral, não se trata “de determinar os princípios do que acontece mas sim as leis do que deve acontecer, mesmo que nunca aconteça.” (9)

João Pedro: Mas estaremos condenados a apenas perseguir um ideal? Nem ao menos um exemplozinho que seja, para nos encorajar?

Kant: É um exemplo que queres, não é verdade?

João Pedro: Sempre dava uma ajuda...

Kant: Vou fazer-te a vontade. Responde-me, então, a esta pergunta: prezas muito a amizade, João Pedro?

João Pedro: É um valor de que não abdico!

Kant: Fazes muito bem. E que esperas tu de um amigo?

João Pedro: Lealdade.

Kant: E qual é, como amigo, o teu dever mais importante?

João Pedro: Ser leal.

Kant: Compreendo. Mas agora diz-me: conheces algum caso de alguém que tenha sido absoluta e totalmente leal, para com todos os seus amigos e em todas as circunstâncias, sem excepção alguma, por muito insignificante que fosse?

João Pedro: Não conheço, não senhor, nem me parece que exista alguém assim. Seria o “amigo ideal”, sem falhas, mas nós sabemos que ninguém é perfeito...

Kant: Nesse caso, e seguindo o teu raciocínio, devo depreender que, nem tu te esforças por ser leal com os teus amigos, nem eles estarão à espera que tu o sejas...

João Pedro: Eu não sou desses, Professor! Os meus amigos sabem bem que podem sempre contar comigo! Pode perguntar-lhes, se tiver dúvidas!

Kant: Não é preciso, João Pedro, eu acredito em ti. Era precisamente a essa conclusão que eu esperava que chegasses: “a pura lealdade na amizade não pode exigir-se menos de todo o homem pelo facto de até agora talvez não ter existido nenhum amigo leal.” (10)

João Pedro: Estou a perceber. Isso faz-me lembrar a argumentação de um amigo meu, a propósito de se ser ou não infiel. É exactamente o contrário do que acabou de afirmar. Diz ele: como não há ninguém que tenha sido 100 % fiel, pelo menos em pensamento, a namorada não tem o direito de lhe exigir que ele o seja. É assim que ele justifica as “escapadelas” a que, de vez em quando, não consegue resistir...

Kant: Infidelidades?! “Escapadelas”?! Isso são conversas para a tua idade? Esse teu amigo não devia comentar tais assuntos contigo, mas apenas com os adultos que, como ele, estão já casados e têm idade para discutir essas, hum... digamos, vicissitudes da vida conjugal.

João Pedro: O Professor Kant não percebeu: o amigo de quem estou a falar tem quinze anos, não é casado e nem pensa vir a casar tão cedo!

Kant: O quê?! Será que eu ouvi bem?! Quinze anos?!... Não me digas que tu também já...

João Pedro: Ena pá! Parece-me que já meti o pé na argola!... Quer dizer... hã... se calhar, o melhor é fazermos de conta que eu não disse nada! Voltemos, então, à nossa conversa.

Kant: É melhor, é...

João Pedro: Bom, ainda relacionado com esta questão, há um aspecto do seu pensamento que eu gostaria que esclarecesse melhor. Refiro-me à sua atitude face à religião, nomeadamente ao Cristianismo. Eu sei que o senhor é crente. Por isso lhe faço esta pergunta: e se a consciência moral entrar em conflito com a fé? O que se deve fazer?

Kant: “Pode servir de exemplo o mito do sacrifício que Abraão quis fazer, por ordem divina, mediante a imolação e a cremação do seu único filho (a pobre criança teve ainda, sem saber, de transportar a lenha). A esta pretensa voz divina Abraão deveria responder: «É de todo certo que não devo matar o meu bom filho; mas não estou seguro de que tu, que me apareces, sejas Deus, e que tal te possas tornar», mesmo se esta voz ressoasse a partir do céu (visível).” (11)

João Pedro: Mas porquê?

Kant: Porque, no que diz respeito ao ser humano, se o que “lhe é proposto for contrário à lei moral, então, por majestoso que se lhe afigure o fenómeno e ultrapassando até toda a natureza, deve tê-lo por ilusão.” (12)

João Pedro:  Já percebi: é com o nosso critério moral de perfeição que julgamos os exemplos e não os exemplos que nos servem de critério. Isso quer dizer que nada deve escapar à análise racional, nem mesmo a Religião...

Kant: Exactamente. É um princípio caro ao Iluminismo, com o qual estou naturalmente de acordo: cada ser humano deve ter “a liberdade de se servir da própria razão em tudo o que é assunto da consciência”. (13) Apenas nesse caso o homem pode ser considerado um cidadão livre e autónomo.
           
João Pedro: Parece-me que estamos todos esclarecidos. Obrigado, Professor Kant, por nos ter permitido fazer-lhe esta esclarecedora entrevista.
           
Kant: De nada. Disponham sempre. E não te esqueças da palavra de ordem do Iluminismo: “Sapere aude! Tem a coragem de te servires do teu próprio entendimento!”

FIM

(*) Este texto é uma versão muito abreviada do texto homónimo incluído no meu livro Entre o Prazer e o Dever. Variações em torno da moral kantiana, editado em 1999. A maior parte das “perguntas” desta “entrevista a Kant foram inventadas pelos meus alunos do 12º ano de então e discutidas exaustivamente nas aulas, no âmbito do estudo da Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Bons tempos, de facto...

NOTAS:

(1) - Kant, Immanuel, Fundamentação da Metafísica dos Costumes, Lisboa, Edições 70, s/d, pág. 23
(2) - Idem, pág. 23
(3) - Ibidem, pág. 31
(4) - Ibidem, pág. 48
(5) - Ibidem, pág. 48
(6) - Ibidem, pág. 50
(7) - Ibidem, pág. 40
(8) - Ibidem, pág. 40
(9) - Ibidem, pág. 66
(10) - Ibidem, pág. 41
(11) - Idem, pág. 76
(12) - Ibidem, pág. 76