Este é um blogue sobre cinema e filosofia (na sala de aula e não só). Mas também sobre música, arte, literatura, entre outras coisas que enriquecem a minha vida. Neste sentido, é também um blogue pessoal.
Depois de algumas hesitações, regressei a este texto para me despedir de vocês e, deste modo, agradecer-vos o prazer e o privilégio que foi para mim ter sido vosso professor. Fecha-se um ciclo, precisamente com um dos textos de boas vindas à Filosofia que vos ofereci no início do 10º ano. Ilustrado com duas fotografias de Henri Cartier-Bresson, um fotógrafo genial que muito aprecio.
Porque, tal como vos disse hoje na última aula, acredito que o conhecimento, a arte e a cultura fazem de nós melhores pessoas e tornam mais ricas as nossas vidas.
E tinha que haver uma música, claro. Jack Johnson, uma mensagem de esperança para que realizem os vossos sonhos.
Divirtam-se :)
«Do que você precisa, acima de tudo,
é de se não lembrar do que eu lhe disse; nunca pense por mim, pense sempre por
você; fique certo de que valem mais todos os erros se forem cometidos segundo o
que pensou e decidiu do que todos os acertos, se eles forem meus, não seus. Os
meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois
da oposição venha a pensar o mesmo que eu; mas nessa altura já o pensamento lhe
pertence. São meus discípulos, se alguns tenho, os que estão contra mim; porque
esses guardaram no fundo da alma a força que verdadeiramente me anima e que
mais desejaria transmitir-lhes: a de se não conformarem. Feche, pois, os
ouvidos ao que lhe ensino, se alguma coisa lhe ensino; faça a viagem por sua
conta e risco, você mesmo ao leme.»
Agostinho
da Silva, in Sete Cartas a Um Jovem Filósofo
Ontem fui assistir a um
concerto especial: Steve Hackett Genesis
Extended 2014. Uma revisitação da banda mítica inglesa pela mão do seu
virtuoso guitarrista e compositor. O concerto foi magnífico. Não era fácil
recriar em palco a atmosfera musical dos Genesis,
principalmente no que diz respeito à “substituição” de Peter Gabriel. Muito
menos agradar a uma plateia conhecedora ao pormenor dos discos em vinil. Mas
tudo isso foi conseguido – e muito mais. Dancing with the Moonlit Knight e Supper's Ready foram perfeitos, The Musical Box perfeitamente sublime.
Tal como há uns anos realizei o sonho de ver ao vivo Paco de Lucía junto do meu
filho João Pedro, desta vez acompanhou-me a minha filha Maria Miguel. (Falta-me,
talvez, Van Morrison, mas sei que nessa noite teremos de estar lá todos...)
Depois do concerto fomos beber um copo, conversar e, desse modo,
libertar as palavras que precisavam de ser ditas depois de uma noite assim. Uma
coisa puxa a outra, e acabámos a comparar o modo como os adolescentes de então
e os de hoje vivem a música. E eu, que antevira já neste concerto um pretexto
que me levaria inevitavelmente a regressar às minha próprias memórias, achei
por bem partilhar convosco este texto.
Mais do que um elogio de uma banda histórica, é um regresso a mim, à minha
história como pessoa.
Falo de memórias da
adolescência. Ávido, inquieto, muitas vezes perdido. Quando a música que ouvia
dizia mais sobre mim que tudo o mais. Quando ouvir música era, para um rebelde
adolescente orgulhosamente ateu, um ritual espiritual por excelência, uma
vivência mística, uma experiência iniciática. Quando caminhar na rua (e não
havia phones...) correspondia a uma marcha triunfal ao som da música que ecoava
delirantemente dentro de mim, como se um mar de indiferentes se abrisse à minha
passagem, celebrando sem o saberem a minha secreta superioridade musical.
Sim, tudo isto fazia todo o
sentido. Um sentido original e talvez único, raramente partilhado (tipo um
tesouro, dir-se-ia hoje), que funcionava como um escudo invisível que me
protegia generosamente da esmagadora maioria da “gente” que à minha volta se
arrastava. Principalmente na escola, esse lugar insuportavelmente formatado,
onde exigia que me deixassem ser eu próprio sem que, no entanto, soubesse ainda
muito bem o que era ou o que queria ser.
Mas que interessava isso,
se o que mais importava era saber que tinha deixado já a inércia da mediania e
me aventurava numa descoberta sem fim à vista, como se uma força interior que
desconhecia (mas reconhecia como minha) me impelisse a mergulhar no
desconhecido simultaneamente belo e assustador?
Como muitas vezes acontece,
apenas mais tarde descobri as palavras certas para o que me esmagava na altura.
Com Cioran, percebi que o que nascia então em mim era a “tentação de existir”
e, portanto, a recusa visceral de estar condenado a ser apenas mais uma coisa
que existe.
Vendo bem, tudo contribuía
para isso. Os discos em vinil (que, religiosamente, se levavam para a escola),
a dificuldade em os encomendar (muitas vezes só em Viseu ou Coimbra), o preço e
as negociações incontornáveis a fazer com os pais, o pavor de que os discos se
riscassem. Havia em tudo isto algo que nos distinguia e que, por estranho que
possa parecer, parecia autorizar que nos víssemos como especiais.
Falo agora de mim. Não eram
as notas ou os elogios dos professores que me animavam. Gostava disso, claro,
principalmente da ideia entretanto difundida de que viria a ser “um escritor”.
Mas ali, naquela altura, eu, puto adolescente, não queria saber disso. Sentia-me
membro de um reservadíssimo clube de adolescentes especiais, tragicamente
incompreendidos pela multidão que, alegre e ruidosamente à nossa volta, exibia
sem sequer o saber uma leveza assustadoramente feliz, incompreensível e quase obscena.
Distinguíamo-nos por diversas
coisas, mas principalmente pela disponibilidade para ouvir música. Ouvir, sem nada
mais. Suspender por horas o mundo e os outros e o que quer que fosse
(colocando-nos a nós próprios entre parêntesis). Momentos únicos: sentir que
tudo estava finalmente perfeito, pegar no braço do gira-discos e, com o rigor
meticuloso de um ato cirúrgico, colocar a agulha no início do disco e voltar
rapidamente ao local prévia e cuidadosamente selecionado para uma audição que
era uma deliciosa entrega. Total, brutal, quase escandalosamente amorosa.
Não sei bem como explicar,
por isso vai mesmo assim: naquela altura ouvíamos álbuns, não curtíamos músicas
avulsas. Como qualquer ritual respeitável, um álbum tinha uma sequência
concebida pelos seus criadores e assim deveria ser. E se, por hipótese, um tema
do álbum nos parecia menos bem conseguido, partíamos do princípio de que a
falha era nossa, não dele. Este exercício de paciência e humildade era
indispensável para que evoluíssemos musicalmente. A maioria não superava esta
prova de fogo e, fosse pelo que fosse, ficava por um patamar mais elementar.
Sabíamos intuitivamente quais as músicas ou os álbuns que funcionavam como
indicadores de nível de apreciação musical. Era fácil gostar de I Know What I Like, por exemplo, mas
quantos reconheceriam a complexidade sublime de Supper's Ready? É
também por isso que, para um apaixonado pelos Genesis, a banda acabou realmente com a saída de Peter Gabriel. É
absolutamente irrelevante que Trick Of
The Tail até não seja um mau álbum. A verdade é que, apesar de Peter
Gabriel não ser o Messias, Phil Collins será sempre visto como o
Usurpador.Tratou-se de um caso evidente
de ruptura afectiva, que só pode ser
escrita assim mesmo, em total desrespeito por esta modernidade insuportável
(inevitável?) do acordo ortográfico. Como não preferir a autenticidade original
que criou novos mundos em nós, contra os mapas previsivelmente repetidos sobre
papel vegetal? Como não perpetuar o movimento inicial, o trilho sublimemente
apenas esboçado, o gesto inaugural?
Acredito que as nossa vidas
têm uma banda sonora. A da minha adolescência está repleta de músicas dos Genesis, como estaria provavelmente de
temas dos Joy Division ou Echo & The Bunnymen se tivesse
nascido uns anos mais tarde. Mas isto das bandas sonoras das nossa vidas é um
pouco como os paradigmas de Thomas Kuhn: de tão intrinsecamente diferentes, são
incontornavelmente incomensuráveis. Como decidir entre os Doors, Beatles ou Joy Division, por exemplo? Razão tinha
Vergílio Ferreira quando escreveu que, afinal, não envelhecemos, limitamo-nos a
mudar de constelação...
Era mais ou menos isto que
queria dizer. E não, não é um ajuste de contas. É apenas uma história que um
dia teria de contar. Justamente por uma questão de justiça...
Walter Alvarez, geólogo norte-americano Professor na Universidade de Berkeley, Califórnia, E.U.A.
Descobri esta interessante entrevista no jornal
“Público” de hoje, uns minutos antes de dar uma aula sobre a filosofia da ciência
de Thomas Kuhn. Claro que acabei por me referir a ela, nomeadamente a propósito
do conceito de “revolução científica”.
Prometi aos meus alunos que faria um post sobre o
assunto. Aqui fica, então, um excerto da entrevista:
“O título da conferência
que vai apresentar em Serralves é O Estudo da Grande História –
Supercontinentes, e como Portugal Inventou a Ciência. Presumo que a última
parte se refira aos Descobrimentos, mas acha mesmo que marcam o início da
ciência ou está a forçar o argumento para ser simpático?
Normalmente, as pessoas acham que a ciência moderna
começou com Copérnico e Galileu, com Kepler e Newton. O cientista português
Henrique Leitão e eu temos trabalhado juntos a partir da ideia de que talvez
Portugal tenha sido o lugar onde a ciência moderna se iniciou.
Uma hipótese séria, portanto?
Absolutamente. Não estou a brincar. Quer que o convença?
Faça o favor.
Numa revolução científica, e acho que os Descobrimentos
foram uma genuína revolução científica, o que acontece é que alguns conceitos
antigos se mostram errados e entra em cena um novo conceito. Darwin fez isso ao
perceber que as espécies se formam por selecção natural, e Einstein também o
fez, mostrando que Newton só tinha razão parcial e que a sua teoria não
funciona quando lidamos com objectos que se movem mesmo muito depressa. No meu
campo, o da geologia, tivemos duas revoluções científicas nos últimos 30 ou 40
anos. Com a tectónica de placas provou-se que os continentes se movem, e isso
leva-nos aos tais supercontinentes de que falarei na conferência: agora os
continentes estão aqui e ali, mas há 200 milhões de anos, o que até nem é assim
tanto tempo, estavam todos juntos num supercontinente…
…mas voltando aos Descobrimentos, que conceitos é que as
expedições atlânticas vieram pôr em causa ?
Numa revolução científica, as ideiam mudam, e foi isso o
que aconteceu em Portugal nos séculos XV e XVI. Antes dos navegadores
portugueses, os europeus recuavam a Cláudio Ptolomeu e pensavam que o Oceano
Índico era completamente fechado, como um lago enorme, ao qual não se podia
chegar navegando. Os portugueses mostraram que era possível atingi-lo por mar
contornando a costa africana. Ou seja, todos os mapas baseados em Ptolomeu
estavam simplesmente errados. Como geólogo, interessa-me a Terra, e isto era uma
grande descoberta acerca da Terra.
Numa revolução científica também se desenvolvem novos
instrumentos e técnicas, e foi o que os portugueses fizeram, com as caravelas e
outros barcos, ou com a invenção do astrolábio. E quer outro argumento? Todas
as ciências têm uma base matemática forte, e no tempo dos Descobrimentos
existiu um grande matemático, Pedro Nunes. Temos cartas de matemáticos ingleses
da época que dizem que ele é o maior matemático vivo. O que Nunes fez foi
calcular como se pode navegar no mar alto, no Atlântico. No Mediterrâneo era
fácil, ninguém se perdia. Só Ulisses é que andou lá perdido uns 20 anos...
(...) O que
acontece numa revolução científica é que é tudo tão emocionante que mal se
consegue suportar a excitação. As pessoas aprendem coisas novas e não conseguem
esperar para partilhar o que descobriram. Há uma atmosfera eléctrica nos
encontros científicos. Henrique Leitão convenceu-me de que foi isso que
aconteceu em Portugal durante os Descobrimentos. Estive nos Jerónimos e vi
aqueles extraordinários motivos decorativos, com animais, pássaros, cordas,
esferas armilares. Deve ter sido tudo tão emocionante, sobretudo depois de uma
Idade Média em que as coisas mudaram pouco e devagar. Estou convencido de que
foi mesmo uma revolução científica, e como geólogo gosto de pensar que foi uma
revolução geológica que inaugurou a ciência.”
Nota: a entrevista pode ser lida na íntegra clicando aqui.
10:00 – Adela Cortina –Martha C. Nussbaum: vulnerabilidad y justicia
Moderadora: Mª Luísa Ribeiro Ferreira
10:45 – Pausa
11:00- 13:00
Maria Essunger - ‘God is dog in the English mirror’ – Hélène Cixous and
the performative power of writing
Sandra Escobar – Adriana Cavarero: A teia de Penélope: a subjectividade
feminina nos fios de uma outra narrativa
Moderadora: Cristina Beckert
13:00 - 14:30 - Almoço das conferencistas
14:30 – 15 : 45
Cíntia de Godoy - Val Plumwood: feminista ecológica crítica
Cristina Beckert - Mary Midgley e a natureza da “natureza humana”
Moderadora:Teresa Ximenez
15:45 - Pausa
16:00
Monserrat Galceran - El vitalismo feminista de Rossi Braidotti
Moderadora: Mª José Vaz Pinto
NOTA: O presente colóquio realiza-se
no âmbito da linha de investigação “História da Filosofia” do CFUL. A entrada é
livre, embora a entrega da documentação completa e do certificado de presença
deva ser feita mediante o pagamento de 5 €.
Dia 30, sexta-feira
10:00 -11:00
Evelyne Guillemeau - Elisabeth de Fontenay, ou La passion de
l’intranquillité
Maria Pereira de Almeida - Será a mudança uma alternativa à diferença?
Um diálogo teórico com Vandana Shiva
Moderadora: Cíntia de Godoy
11:00 – Pausa
11:15 – 13:00
Teresa Ximenez - Philippa Foot: Porque somos morais? A racionalidade da
moral
Sofia de Melo Araújo - " Harlequin romances for highbrows": a
narratividade e as margens em Iris Murdoch
Joana Gameiro - A condição feminina no Pensamento Maternal de Sara
Ruddick
Moderadora: Fernanda Henriques
13:00 - 14:30 - Almoço das conferencistas
14:30 – 15:45
Maria José Vaz Pinto - Simone Weil filósofa: a reflexão sobre os valores
Maria Teresa López de la Vieja - Filosofía con otra perspectiva: Jeanne
Hersch
Moderadora: Mª Luísa Ribeiro Ferreira
15:45 -16:00 - pausa
16:15 – 17:30
Margarida Amaral - Hannah Arendt: um olhar marginal sobre quatro temas
transversais
Marília Rosado Carrilho - A marginalidade de Maria de Lourdes
Pintasilgo: uma não filósofa entre as filósofas
Moderadora: Teresa Ximenez
17: 30 – 18:30
Maria do Céu Pires - A razão cordial em Adela Cortina - ou sobre a
possibilidade de uma razão inclusiva
Mª Luísa Ribeiro Ferreira - Victoria Camps e uma nova ética para o
século XXI