domingo, 4 de maio de 2014

Almada Negreiros no Dia da Mãe.

Almada Negreiros, Maternidade


Mãe!
Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei! Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue verdadeiro, encarnado!

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens!
Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.

Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me ao teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.

Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também quero ter um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!

José de Almada Negreiros, in A invenção do Dia Claro



sábado, 26 de abril de 2014

Tons de azul

Henri Matisse, A dança


Quase

Um pouco mais de sol – eu era brasa,

Um pouco mais de azul – eu era além.

Para atingir, faltou-me um golpe de asa…

Se ao menos eu permanecesse aquém…

Assombro ou paz? Em vão…
Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;

E o grande sonho despertado em bruma,

O grande sonho – ó dor! – quase vivido…

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,

Quase o princípio e o fim – quase a expansão…

Mas na minh’alma tudo se derrama…

Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo … e tudo errou…

— Ai a dor de ser — quase, dor sem fim…

Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,

Asa que se elançou mas não voou…

Momentos de alma que, desbaratei…

Templos aonde nunca pus um altar…

Rios que perdi sem os levar ao mar…

Ânsias que foram mas que não fixei…

Se me vagueio, encontro só indícios…

Ogivas para o sol — vejo-as cerradas;

E mãos de herói, sem fé, acobardadas,

Puseram grades sobre os precipícios…

Num ímpeto difuso de quebranto,

Tudo encetei e nada possuí…

Hoje, de mim, só resta o desencanto

Das coisas que beijei mas não vivi…

Um pouco mais de sol — e fora brasa,

Um pouco mais de azul — e fora além.

Para atingir faltou-me um golpe de asa…

Se ao menos eu permanecesse aquém…

Mário de Sá Carneiro

sexta-feira, 25 de abril de 2014

25 de Abril. Sempre.

Largo do Carmo
"Onde é que estão as novas gerações?”, perguntava sorridente José Afonso neste concerto mítico. Tive a felicidade de assistir à parte final do concerto no Porto, quando o músico mandou abrir as portas para que pudessem entrar todos os que, como eu, não tinham bilhete. Entrámos. E foi uma festa inesquecível.
Infelizmente, hoje nem sequer é preciso perguntar onde estão os vampiros. Aparecem a toda a hora numa televisão perto de si…

25 de Abril. Sempre.


quinta-feira, 24 de abril de 2014

Igualdade: tratar de modo igual o que é diferente ou tratar de modo diferente o que não é igual?

(Pescado na net)


É necessário um conjunto de princípios que permitam op­tar por entre as diversas formas de ordenação social que determinam esta divisão dos benefícios, bem como obter um acordo sobre a repartição adequada dos mesmos. Es­tes princípios são os da justiça social: são eles que fornecem um critério para a atri­buição de direitos e deveres nas instituições básicas da sociedade e definem a dis­tribuição adequada dos encargos e benefícios da cooperação social.


John Rawls, Uma Teoria da Justiça, Editorial Presença, 1993, pp. 27-28     

domingo, 20 de abril de 2014

Celebração da Natureza.

Fotografia de Maria Miguel Café, retirada daqui
(Clique na imagem para ampliar)

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
         Se elle quizesse que eu accreditasse nelle,
         Sem duvida que viria fallar commigo
         E entraria pela minha porta dentro
         Dizendo-me, Aqui estou!

       (...)

         Mas se Deus é as flores e as arvores
         E os montes e sol e o luar,
         Então acredito nelle,
         Então acredito nelle a toda a hora,
         E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
         E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

CAEIRO, Alberto, O Guardador de Rebanhos, V