quarta-feira, 21 de maio de 2014

"Marginalidade e alternativa - Filósofas dos séculos XX e XXI": colóquio na FLUL


Marginalidade e alternativa
Filósofas dos séculos XX e XXI

COLÓQUIO dias 29 e 30 de Maio
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Dia 29, quinta-feira

9:30 – Abertura
10:00 – Adela Cortina –Martha C. Nussbaum: vulnerabilidad y justicia
Moderadora: Mª Luísa Ribeiro Ferreira
10:45 – Pausa
11:00- 13:00
Maria Essunger - ‘God is dog in the English mirror’ – Hélène Cixous and the performative power of writing
Sandra Escobar – Adriana Cavarero: A teia de Penélope: a subjectividade feminina nos fios de uma outra narrativa
Moderadora: Cristina Beckert
13:00 - 14:30 - Almoço das conferencistas
14:30 – 15 : 45
Cíntia de Godoy - Val Plumwood: feminista ecológica crítica
Cristina Beckert - Mary Midgley e a natureza da “natureza humana”
Moderadora:Teresa Ximenez
15:45 - Pausa
16:00
Monserrat Galceran - El vitalismo feminista de Rossi Braidotti
Moderadora: Mª José Vaz Pinto

NOTA: O presente colóquio realiza-se no âmbito da linha de investigação “História da Filosofia” do CFUL. A entrada é livre, embora a entrega da documentação completa e do certificado de presença deva ser feita mediante o pagamento de 5 €.

Dia 30, sexta-feira

10:00 -11:00
Evelyne Guillemeau - Elisabeth de Fontenay, ou La passion de l’intranquillité
Maria Pereira de Almeida - Será a mudança uma alternativa à diferença? Um diálogo teórico com Vandana Shiva
Moderadora: Cíntia de Godoy
11:00 – Pausa
11:15 – 13:00
Teresa Ximenez - Philippa Foot: Porque somos morais? A racionalidade da moral
Sofia de Melo Araújo - " Harlequin romances for highbrows": a narratividade e as margens em Iris Murdoch
Joana Gameiro - A condição feminina no Pensamento Maternal de Sara Ruddick
Moderadora: Fernanda Henriques
13:00 - 14:30 - Almoço das conferencistas
14:30 – 15:45
Maria José Vaz Pinto - Simone Weil filósofa: a reflexão sobre os valores
Maria Teresa López de la Vieja - Filosofía con otra perspectiva: Jeanne Hersch
Moderadora: Mª Luísa Ribeiro Ferreira
15:45 -16:00 - pausa
16:15 – 17:30
Margarida Amaral - Hannah Arendt: um olhar marginal sobre quatro temas transversais
Marília Rosado Carrilho - A marginalidade de Maria de Lourdes Pintasilgo: uma não filósofa entre as filósofas
Moderadora: Teresa Ximenez
17: 30 – 18:30
Maria do Céu Pires - A razão cordial em Adela Cortina - ou sobre a possibilidade de uma razão inclusiva
Mª Luísa Ribeiro Ferreira - Victoria Camps e uma nova ética para o século XXI
Moderadora: Fernanda Henriques

terça-feira, 13 de maio de 2014

Será a astrologia uma ciência? Claro que não, diz Karl Popper




CLÁUDIA:  Pelo que ouvi, podemos concluir que Karl Popper foi um filósofo muito inovador. Diz-me uma coisa: se tivesses de escolher de entre os seus contributos originais para a filosofia da ciência, que aspectos destacarias como mais importantes?

CARLA:       Hum, deixa cá pensar... Talvez destacasse três aspectos, que até estão interligados.

MARCO:      Qual o primeiro?

CARLA:       O primeiro é, sem dúvida, o facto de ter mudado o critério de cientificidade.

CLÁUDIA:  Que palavrão! Que é que isso significa?

CARLA:       É muito simples. O critério de cientificidade é aquilo que permite dizer que determinado enunciado é científico.

CLÁUDIA:  Já percebi! É uma espécie de “certificado de garantia”: certifica que a teoria que obedecer a esse critério é científica de certeza.

CARLA:       Sim, é essa a ideia. Ora, no método científico simples o critério era a verificabilidade. De acordo com o critério de verificabilidade, podemos afirmar que uma teoria é científica sempre que ela foi verificada experimentalmente, isto é, foi confirmada por um grande número de experimentações.

CLÁUDIA:  Para Popper não é esse, claro...

CARLA:       Pois não. Ele propõe como critério de cientificidade a falsificabilidade. De acordo com este novo critério, uma conjectura só deve ser considerada científica se enunciar com rigor e clareza as condições em que pode ser falsificada. É essa disponibilidade para poder ser refutada que, segundo Popper, caracteriza o verdadeiro espírito científico.

MARCO:      Muito bem. E a segunda inovação?

CARLA:       A segunda decorre da anterior: Popper fornece-nos um critério claro para distinguir uma hipótese científica de uma não científica.

MARCO:      Qual é esse critério?

CARLA:       O critério é este: para uma hipótese ser considerada científica é necessário que essa hipótese possa ser refutada por meio de testes rigorosos. Popper recomenda que formulemos as teorias de maneira tão clara quanto possível, de modo a expô-las à refutação sem ambiguidades. O cientista não se limita a apresentar a sua conjectura; deve também enunciar aquilo que, no caso de acontecer, prova que a sua conjectura é falsa. E depois vai realizar os testes, exactamente para ver se acontece aquilo que era suposto não acontecer.

CLÁUDIA:  Ou seja, vai tentar encontrar cisnes negros...

CARLA:       Já vi que percebeste. É dessa forma que uma teoria genuinamente científica se coloca permanentemente em risco. A ideia é esta: quanto mais falsificável um enunciado for, mais útil é à ciência. Mas, para ser falsificável, ele não deve ser vago: tem que ser claro e directo.

MARCO:      Dá-me um exemplo.

CARLA:       Imaginemos que são cinco para o meio dia. Neste caso, o enunciado “É meio dia em ponto” é falso. Apesar disso, contém mais informação e revela-se mais útil do que este: “Estamos entre as dez da manhã e as quatro da tarde”. Algumas conjecturas utilizam este “truque” (a vagueza) para passarem por científicas.

MARCO:      Referes-te a quê?

CARLA:       Refiro-me à astrologia, por exemplo. Já repararam que as previsões dos astrólogos são sempre vagas? Isso permite encontrar posteriormente alguns acontecimentos que, eventualmente, “encaixem” na previsão feita.

CLÁUDIA:  Pois é, tens razão. Se um astrólogo previr, para o próximo ano, que vão acontecer desgraças num país europeu, quase de certeza que acerta. Mas se ele dissesse exactamente que desgraça seria e qual o país onde ela se iria verificar, então seria facílimo saber se a previsão era ou não verdadeira.

MARCO:      Quer isso dizer que, para Karl Popper, a astrologia não é uma ciência...

CARLA:       Exactamente. Mas não é por ter falhado nas previsões que o astrólogo não merece ser considerado cientista. Isso é absolutamente irrelevante! A razão é esta: as hipóteses astrológicas não são formuladas com clareza e precisão e não indicam quais as circunstâncias em que se pode provar que são falsas; como não se conhecem os factos capazes de as refutar, não é possível testá-las; como não são susceptíveis de testes, as hipóteses da astrologia não são científicas. É por isso que a astrologia, à luz deste critério, é considerada uma pseudociência.

MARCO:      Para concluir: qual é a vantagem de existir esse critério de demarcação entre ciência e não ciência?

CARLA:       Como já afirmei, quanto mais falsificável for um enunciado, mais útil à ciência ele é. Enquanto que uma hipótese não falsificável é inútil para a ciência, uma hipótese falsificável é sempre de grande utilidade. Se não passou nos testes de falsificabilidade, leva os cientistas a formularem outra hipótese que resista melhor; se passou nos testes, a teoria merece ser levada a sério.

MARCO:      Tinhas falado em três aspectos particularmente importantes que, na tua opinião, se podem encontrar na filosofia da ciência de Karl Popper. Já apresentaste dois: a mudança de critério de cientificidade e o critério de demarcação entre ciência e não ciência. Só falta o terceiro...

CARLA:       Que está intimamente relacionado com os anteriores e que é este: ele defende uma nova concepção da ciência, bastante diferente da concepção que tradicionalmente se ensina nas escolas.

CLÁUDIA:  Qual a principal diferença?

CARLA:       A principal diferença é esta: a ciência deixa de ser visto como um conhecimento inequivocamente verdadeiro e passa a ser encarado como um conhecimento aproximado. Há dois aspectos em que esta mudança se torna evidente. O primeiro é este: enquanto que segundo a perspectiva tradicional da ciência o conhecimento é constituído por «leis», na concepção de Popper fala-se de «conjecturas». O segundo aspecto tem a ver com as expectativas da ciência: segundo a perspectiva tradicional, a ciência aspira à verdade; para Popper, no entanto, a expectativa é bem mais modesta: uma vez que foi posta de parte essa ilusão de uma verdade indiscutível, o objectivo da ciência é a construção de conjecturas concebidas para serem melhores do que as conjecturas (ou teorias) anteriores.

CLÁUDIA:  Ou seja: nunca saberemos com toda a certeza se uma teoria é verdadeira, apenas podemos saber que é melhor que a anterior.

CARLA:       Exactamente. É por isso que prefere falar em «aproximação à verdade».


in CAFÉ, Carlos, Eles não sabem que eu sonho… — Um jovem poeta no país da Ciência, 3ª edição, Porto, Edições Asa, 2005

E agora algo completamente diferente: as teses de Popper ilustradas pelos Gato Fedorento

Divirta-se ;)

Professor Chibanga: previsões para 2007



Professor Chibanga: previsões para 2010


domingo, 4 de maio de 2014

Almada Negreiros no Dia da Mãe.

Almada Negreiros, Maternidade


Mãe!
Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei! Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue verdadeiro, encarnado!

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens!
Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.

Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me ao teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.

Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também quero ter um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!

José de Almada Negreiros, in A invenção do Dia Claro



sábado, 26 de abril de 2014

Tons de azul

Henri Matisse, A dança


Quase

Um pouco mais de sol – eu era brasa,

Um pouco mais de azul – eu era além.

Para atingir, faltou-me um golpe de asa…

Se ao menos eu permanecesse aquém…

Assombro ou paz? Em vão…
Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;

E o grande sonho despertado em bruma,

O grande sonho – ó dor! – quase vivido…

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,

Quase o princípio e o fim – quase a expansão…

Mas na minh’alma tudo se derrama…

Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo … e tudo errou…

— Ai a dor de ser — quase, dor sem fim…

Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,

Asa que se elançou mas não voou…

Momentos de alma que, desbaratei…

Templos aonde nunca pus um altar…

Rios que perdi sem os levar ao mar…

Ânsias que foram mas que não fixei…

Se me vagueio, encontro só indícios…

Ogivas para o sol — vejo-as cerradas;

E mãos de herói, sem fé, acobardadas,

Puseram grades sobre os precipícios…

Num ímpeto difuso de quebranto,

Tudo encetei e nada possuí…

Hoje, de mim, só resta o desencanto

Das coisas que beijei mas não vivi…

Um pouco mais de sol — e fora brasa,

Um pouco mais de azul — e fora além.

Para atingir faltou-me um golpe de asa…

Se ao menos eu permanecesse aquém…

Mário de Sá Carneiro