Este é um blogue sobre cinema e filosofia (na sala de aula e não só). Mas também sobre música, arte, literatura, entre outras coisas que enriquecem a minha vida. Neste sentido, é também um blogue pessoal.
10:00 – Adela Cortina –Martha C. Nussbaum: vulnerabilidad y justicia
Moderadora: Mª Luísa Ribeiro Ferreira
10:45 – Pausa
11:00- 13:00
Maria Essunger - ‘God is dog in the English mirror’ – Hélène Cixous and
the performative power of writing
Sandra Escobar – Adriana Cavarero: A teia de Penélope: a subjectividade
feminina nos fios de uma outra narrativa
Moderadora: Cristina Beckert
13:00 - 14:30 - Almoço das conferencistas
14:30 – 15 : 45
Cíntia de Godoy - Val Plumwood: feminista ecológica crítica
Cristina Beckert - Mary Midgley e a natureza da “natureza humana”
Moderadora:Teresa Ximenez
15:45 - Pausa
16:00
Monserrat Galceran - El vitalismo feminista de Rossi Braidotti
Moderadora: Mª José Vaz Pinto
NOTA: O presente colóquio realiza-se
no âmbito da linha de investigação “História da Filosofia” do CFUL. A entrada é
livre, embora a entrega da documentação completa e do certificado de presença
deva ser feita mediante o pagamento de 5 €.
Dia 30, sexta-feira
10:00 -11:00
Evelyne Guillemeau - Elisabeth de Fontenay, ou La passion de
l’intranquillité
Maria Pereira de Almeida - Será a mudança uma alternativa à diferença?
Um diálogo teórico com Vandana Shiva
Moderadora: Cíntia de Godoy
11:00 – Pausa
11:15 – 13:00
Teresa Ximenez - Philippa Foot: Porque somos morais? A racionalidade da
moral
Sofia de Melo Araújo - " Harlequin romances for highbrows": a
narratividade e as margens em Iris Murdoch
Joana Gameiro - A condição feminina no Pensamento Maternal de Sara
Ruddick
Moderadora: Fernanda Henriques
13:00 - 14:30 - Almoço das conferencistas
14:30 – 15:45
Maria José Vaz Pinto - Simone Weil filósofa: a reflexão sobre os valores
Maria Teresa López de la Vieja - Filosofía con otra perspectiva: Jeanne
Hersch
Moderadora: Mª Luísa Ribeiro Ferreira
15:45 -16:00 - pausa
16:15 – 17:30
Margarida Amaral - Hannah Arendt: um olhar marginal sobre quatro temas
transversais
Marília Rosado Carrilho - A marginalidade de Maria de Lourdes
Pintasilgo: uma não filósofa entre as filósofas
Moderadora: Teresa Ximenez
17: 30 – 18:30
Maria do Céu Pires - A razão cordial em Adela Cortina - ou sobre a
possibilidade de uma razão inclusiva
Mª Luísa Ribeiro Ferreira - Victoria Camps e uma nova ética para o
século XXI
CLÁUDIA:Pelo que ouvi, podemos concluir que Karl
Popper foi um filósofo muito inovador. Diz-me uma coisa: se tivesses de
escolher de entre os seus contributos
originais para a filosofia da ciência, que aspectos destacarias como mais
importantes?
CARLA:Hum, deixa cá pensar... Talvez destacasse
três aspectos, que até estão interligados.
MARCO:Qual o primeiro?
CARLA:O primeiro
é, sem dúvida, o facto de ter mudado o critério de cientificidade.
CLÁUDIA:Que palavrão! Que é que isso significa?
CARLA:É muito simples. O critério de cientificidade é aquilo que permite dizer que
determinado enunciado é científico.
CLÁUDIA:Já percebi! É uma espécie de “certificado de
garantia”: certifica que a teoria que obedecer a esse critério é científica de
certeza.
CARLA:Sim, é essa a ideia. Ora, no método
científico simples o critério era a verificabilidade.
De acordo com o critério de verificabilidade, podemos afirmar que uma teoria é
científica sempre que ela foi verificada experimentalmente, isto é, foi
confirmada por um grande número de experimentações.
CLÁUDIA:Para Popper não é esse, claro...
CARLA:Pois não. Ele propõe como critério de
cientificidade a falsificabilidade. De acordo com este novo critério, uma
conjectura só deve ser considerada científica se enunciar com rigor e clareza
as condições em que pode ser falsificada. É essa disponibilidade para poder ser
refutada que, segundo Popper, caracteriza o verdadeiro espírito científico.
MARCO:Muito bem. E a segunda inovação?
CARLA:A segunda
decorre da anterior: Popper fornece-nos um critério
claro para distinguir uma hipótese científica de uma não científica.
MARCO:Qual é esse critério?
CARLA:O critério
é este: para uma hipótese ser considerada
científica é necessário que essa hipótese possa ser refutada por meio de testes
rigorosos. Popper recomenda que formulemos as teorias de maneira tão clara
quanto possível, de modo a expô-las à refutação sem ambiguidades. O cientista
não se limita a apresentar a sua conjectura; deve também enunciar aquilo que,
no caso de acontecer, prova que a sua conjectura é falsa. E depois vai realizar
os testes, exactamente para ver se acontece aquilo que era suposto não
acontecer.
CLÁUDIA:Ou seja, vai tentar encontrar cisnes negros...
CARLA:Já vi que percebeste. É dessa forma que
uma teoria genuinamente científica se coloca permanentemente em risco. A ideia
é esta: quanto mais falsificável um enunciado for, mais útil é à ciência. Mas,
para ser falsificável, ele não deve ser vago: tem que ser claro e directo.
MARCO:Dá-me um exemplo.
CARLA:Imaginemos que são cinco para o meio dia.
Neste caso, o enunciado “É meio dia em ponto” é falso. Apesar disso, contém
mais informação e revela-se mais útil do que este: “Estamos entre as dez da
manhã e as quatro da tarde”. Algumas conjecturas utilizam este “truque” (a
vagueza) para passarem por científicas.
MARCO:Referes-te a quê?
CARLA:Refiro-me à astrologia, por exemplo. Já
repararam que as previsões dos astrólogos são sempre vagas? Isso permite
encontrar posteriormente alguns acontecimentos que, eventualmente, “encaixem”
na previsão feita.
CLÁUDIA:Pois é, tens razão. Se um astrólogo previr,
para o próximo ano, que vão acontecer desgraças num país europeu, quase de
certeza que acerta. Mas se ele dissesse exactamente que desgraça seria e qual o
país onde ela se iria verificar, então seria facílimo saber se a previsão era
ou não verdadeira.
MARCO:Quer isso dizer que, para Karl Popper, a
astrologia não é uma ciência...
CARLA:Exactamente. Mas não é por ter falhado
nas previsões que o astrólogo não merece ser considerado cientista. Isso é
absolutamente irrelevante! A razão é esta: as hipóteses astrológicas não são
formuladas com clareza e precisão e não indicam quais as circunstâncias em que
se pode provar que são falsas; como não se conhecem os factos capazes de as
refutar, não é possível testá-las; como não são susceptíveis de testes, as
hipóteses da astrologia não são científicas. É por isso que a astrologia, à luz
deste critério, é considerada uma pseudociência.
MARCO:Para concluir: qual é a vantagem de
existir esse critério de demarcação entre ciência e não ciência?
CARLA:Como já afirmei, quanto mais falsificável
for um enunciado, mais útil à ciência ele é. Enquanto que uma hipótese não
falsificável é inútil para a ciência, uma hipótese falsificável é sempre de
grande utilidade. Se não passou nos testes de falsificabilidade, leva os
cientistas a formularem outra hipótese que resista melhor; se passou nos
testes, a teoria merece ser levada a sério.
MARCO:Tinhas falado em três aspectos
particularmente importantes que, na tua opinião, se podem encontrar na
filosofia da ciência de Karl Popper. Já apresentaste dois: a mudança de
critério de cientificidade e o critério de demarcação entre ciência e não
ciência. Só falta o terceiro...
CARLA:Que está intimamente relacionado com os
anteriores e que é este: ele defende uma nova
concepção da ciência, bastante diferente da concepção que tradicionalmente
se ensina nas escolas.
CLÁUDIA: Qual a principal diferença?
CARLA: A principal diferença é esta: a ciência
deixa de ser visto como um conhecimento inequivocamente verdadeiro e passa a ser
encarado como um conhecimento aproximado. Há dois aspectos em que esta mudança
se torna evidente. O primeiro é este: enquanto que segundo a perspectiva
tradicional da ciência o conhecimento é constituído por «leis», na concepção de
Popper fala-se de «conjecturas». O segundo aspecto tem a ver com as
expectativas da ciência: segundo a perspectiva tradicional, a ciência aspira à
verdade; para Popper, no entanto, a expectativa é bem mais modesta: uma vez que
foi posta de parte essa ilusão de uma verdade indiscutível, o objectivo da
ciência é a construção de conjecturas concebidas para serem melhores do que as
conjecturas (ou teorias) anteriores.
CLÁUDIA:Ou seja: nunca saberemos com toda a certeza se
uma teoria é verdadeira, apenas podemos saber que é melhor que a anterior.
CARLA:Exactamente. É por isso que prefere falar
em «aproximação à verdade».
in CAFÉ, Carlos, Eles não sabem que eu sonho… — Um jovem
poeta no país da Ciência, 3ª edição, Porto, Edições Asa, 2005
E agora algo completamente diferente: as teses de Popper ilustradas pelos Gato Fedorento.
Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que
ainda não viajei! Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor
de sangue, sangue verdadeiro, encarnado!
Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de
viagens!
Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.
Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um
por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me
ao teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu
viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas
palavras.
Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado! Eu quero
ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também quero ter um feitio
que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.
Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão
verdade!
José de Almada Negreiros, inA invenção do Dia Claro