sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Joan Miró, Quino e Manoel de Barros

Joan Miró, O Carnaval do Arlequim, óleo sobre tela, 1924/25



Esta semana recebi em casa este livro que comprara online. Um dia depois, Manoel de Barros faleceu. O poeta brasileiro que dizia não ser da informática, mas da “invencionática”. Que pensava renovar o homem “usando borboletas”, um “apanhador de desperdícios” para quem a poesia “tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria”.

Escolhi este poema de Manoel de Barros para vos desejar um bom fim de semana.

Brinquemos, então ;)

O apanhador de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.

Não gosto das palavras

fatigadas de informar.

Dou mais respeito 
às que vivem de barriga no chão

tipo água pedra sapo.

Entendo bem o sotaque das águas

Dou respeito às coisas desimportantes

e aos seres desimportantes.

Prezo insetos mais que aviões.

Prezo a velocidade

das tartarugas mais que a dos mísseis.

Tenho em mim um atraso de nascença.

Eu fui aparelhado

para gostar de passarinhos.

Tenho abundância de ser feliz por isso.

Meu quintal é maior do que o mundo.

Sou um apanhador de desperdícios:

Amo os restos

como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato

de canto.

Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.

Só uso a palavra para compor meus silêncios.

(Poema retirado daqui).

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

"A Estação", de Thomas McCarthy: um filme encantador que nos desperta o desejo de fazer filmes.


"A Estação" (The Station Agent, EUA, 2003) era um daqueles filmes comprados em saldo por uma qualquer intuição e que, apesar disso, deixamos lá por casa à espera do dia em que nos apetece vê-lo.
Pois bem, vi-o esta noite, e ainda bem que o fiz. Os filmes podem despertar em nós reações várias. Uma delas é a vontade de fazermos nós próprios um filme. É o caso de “A Estação”, curiosamente o primeiro do realizador Thomas McCarthy.

“A Estação” tem a inocência das primeiras obras e a simplicidade encantadora do cinema independente. Centrado em três personagens fundamentais brilhantemente interpretadas por Patricia Clarkson, Peter Drinklage e Bobby Cannavale, o filme faz uma abordagem do tema da solidão e da inadaptação à sociedade de um modo invulgarmente honesto e autêntico, destacando-se a predominância atribuída ao trabalho de ator e a sábia utilização dos silêncios.

Retirada do cinecartaz do Público da altura, aqui fica a sinopse para os interessados:

Finbar McBride (Peter Dinklage) está a tentar viver segundo as suas próprias regras. Na esperança de que o deixem em paz, decide mudar-se para uma antiga estação de comboios numa cidadezinha no campo. Mas, mesmo assim, Finbar acaba por, relutantemente, deixar-se envolver na vida dos seus vizinhos: na de Olivia (Patricia Clarkson), uma artista de 40 anos que tenta lidar com o fim do seu casamento, e na de Joe (Bobby Cannavale), de 30 anos, um homem com um enorme talento para a cozinha e um apetite insaciável para conversar. Assim, a partir desta esquecida estação de comboios, este triângulo de inadaptados forja laços improváveis. "A Estação" ganhou os Prémios de Melhor Argumento, Melhor Interpretação para Patricia Clarkson e o Prémio do Público no Festival de Sundance de 2003.”

Uma interessante crítica com depoimentos do realizador pode ser lida aqui.

Finalmente, deixo-vos com o trailer original.


quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Porque também somos as coisas que não realizamos

Desenho de Hugo Guerreiro
um mp3 inutilmente carregado, uma câmara fotográfica avidamente disponível, uma moleskine que estava pronta (ou, neste caso, simply ready).  bus, metro, voos, railway stations, markets por que nos apaixonamos apenas com um  clique online. as tates todas, o turner tardio numa exposição única, as ruas, a música, django e a palheta de guitarra manouche que nunca esteve tão perto, a reprodução do grimshaw que vai ter de esperar. os pubs e as inevitáveis large beers . ou o harry potter e m & m...

pode sempre haver algo mais forte que nós que nos risca literalmente do mapa das coisas que queríamos muito que acontecessem.

(mas, porque vale realmente a pena, voltaremos a tentar. uma e outra vez)


sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Post de boas-vindas.

Ilustração de Afonso Cruz

Desejo um excelente ano às minhas alunas e aos meus alunos: 10º G, 10º O, 10º N, 11º I e 11º M.
Aqui ficam três sugestões made in Portugal: uma ilustração de Afonso Cruz, um filme de Regina Pessoa e uma música de Frankie Chavez.
Divirtam-se!



sábado, 23 de agosto de 2014

23 de Agosto.


Parabéns ;)

Bendito seja o mesmo sol de outras terras
Que faz meus irmãos todos os homens
Porque todos os homens, um momento do dia, o olham como eu,
E nesse puro momento
Todo limpo e sensível
Regressam imperfeitamente
E com um suspiro que mal sentem
Ao Homem verdadeiro e primitivo
Que via o sol nascer e ainda o não adorava.
Porque isso é natural — mais natural
Que adorar o sol e depois Deus
E depois tudo o mais que não há.

Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos, XXXVIII