terça-feira, 20 de novembro de 2012

O Lado Selvagem (Into The Wild), a propósito do Dia Mundial da Filosofia


Na Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes cultivamos algumas boas tradições. Escrever textos originais sobre um tema e divulgá-los aos alunos e à comunidade escolar é uma delas. 
Este ano cada professor de Filosofia escreveu sobre um filme por si escolhido. O meu texto (que também estará disponível no blogue oficial do grupo) foi sobre este filme de que gosto muito.

O LADO SELVAGEM (Into The Wild)
Realização: Sean Penn

“Olá amigos!
Esta é a última comunicação que receberão de mim. Vou agora partir para viver no meio da natureza. Cuidem-se, foi muito bom conhecer-vos.”
Alex (Chris McCandless)

A filosofia nasce do espanto, escreveu um dia Aristóteles. Elogiava deste modo a interrogação crítica, o olhar outro que põe em causa a glorificação do olhar “normal”, do pensar o “mesmo”. Num sentido idêntico, Platão celebrou o prisioneiro que se liberta da vida falsa da “caverna”, ou seja, aquele que tem a ousadia de se interrogar e pôr em causa o que parece evidente. Também Descartes dizia que viver sem filosofar era como “ter os olhos fechados sem nunca se esforçar por os abrir”. A filosofia faz-nos pensar e há uma forma de pensar que só existe na filosofia. E há filmes que nos fazem pensar como na filosofia. O Lado Selvagem é um desses filmes.
O Lado Selvagem é um filme que nasce de um livro. Diz Sean Penn, o realizador: Vi a capa do livro. Peguei nele e acabei por o ler todo nessa noite, por duas vezes. Bem cedo, na manhã seguinte, levantei-me e comecei desde logo a tentar obter os direitos do filme. E isso tornou-se numa espécie de namoro de dez anos.” O livro em causa tinha sido escrito por Jon Krakauer, um jornalista americano que dele afirmou ter sido “o único trabalho escrito que me deu realmente prazer ao fazê-lo.” Quando, finalmente, Sean Penn consegue os direitos para realizar o filme, telefona ao seu amigo Eddie Vedder, vocalista dos Pearl Jam, e desafia-o a escrever a banda sonora do filme. Ele aceita e compõe assim o seu primeiro álbum a solo, que viria a receber um globo de ouro.
Chris McCandless é o elo de ligação entre o livro, o filme e o álbum. Filho de um famoso engenheiro aeroespacial, de classe média alta americana, Chris conclui o curso na Universidade de Emory, em Atlanta, em Maio de 1990, com boas notas. No dia da cerimónia de entrega dos diplomas, almoçando com os pais e a irmã, informa-os de que pretende fazer uma das suas habituais viagens solitárias: “acho que vou desaparecer por algum tempo”, são exactamente as suas palavras. Rejeita mais uma vez a oferta de um novo carro (“O meu Datsun de 82 está em muito bom estado, para que quero eu um carro novo?”), doa os cerca de 25 mil dólares que tem na sua conta a uma associação dedicada à luta contra a pobreza e faz-se de novo à estrada, iniciando uma autêntica odisseia rumo ao Alasca. Deixará tudo para trás - família, amigos, até o nome. Passará a responder pelo nome de Alexander Supertramp.
Chris era um apaixonado pela literatura. Segundo a irmã, gostava de utilizar citações dos seus escritores preferidos nas mais variadas situações. Sabemos que ofereceu livros a amigos que conheceu na sua aventura e, no filme, são utilizadas com frequência passagens retiradas dos seus livros preferidos. Adorava em Lev Tolstoi, o grande escritor russo, o despojamento e o elogio de um estilo de vida simples, sem luxos nem gastos desnecessários e a forte ligação à natureza. Identificava-se com Jack London, o célebre escritor americano, que abandonou a escola e saiu de casa aos 14 anos, tendo sido um autêntico Supertramp (super vagabundo), viajando pelos EUA e pelo mundo. Fascinado pela autenticidade selvagem do Alasca, Jack London critica duramente a sociedade capitalista e a importância que as pessoas atribuem ao dinheiro, defendendo um estilo de vida intenso, solidário, simples, autêntico e próximo da natureza. Sobre ele escreverá Chris num pedaço de madeira: “Jack London é o Rei.” Outro dos escritores preferidos de Chris era Henry David Thoreau. Thoreau foi um escritor e pensador ecológico americano que, insatisfeito com a sua vida em sociedade, tomou, aos 38 anos, a decisão de ir morar no meio da floresta, nas margens do lago Walden, numa casa construída por si próprio. Apesar de inexperiente como agricultor, tentou a auto-suficiência, plantando batatas e produzindo inclusive o seu próprio pão. Segundo as suas próprias palavras, foi viver para a floresta porque queria viver intensamente a vida, “em vez de descobrir, à hora da morte, que não tinha vivido”. No filme, Chris cita Thoreau ao afirmar: “Mais do que amor, dinheiro, fama, dêem-me verdade”.
A maior parte das informações sobre o que aconteceu a Chris McCandless foi retirada do seu diário e de testemunhos dos amigos que fazia com naturalidade. Sabemos que utilizou o seu Datsun (que abandonou mais tarde), andou à boleia, em comboios de carga, de canoa, normalmente sem ter um rumo definido. Escreveu no seu diário: “É nas experiências, nas memórias, na enorme alegria triunfante de viver até ao limite, que se encontra o verdadeiro significado.” Uma das pessoas com quem se cruzou diria dele o seguinte: “Acho que se meteu em sarilhos porque pensava de mais. Esforçava-se demasiado por entender o mundo, por compreender a razão que levava as pessoas a serem tão más umas para as outras.” Não sei se Chris “pensava de mais” ou não. Mas o filme inspirado na sua vida dá decerto que pensar. Apresentarei de seguida algumas interrogações filosóficas, na sua maior parte relacionadas com o problema do sentido da vida, que o filme pode suscitar.
Chris McCandless afirma no filme: «A essência do espírito humano vem de experiências novas». Até que ponto a aventura é importante na vida humana? Chris quis testar os seus limites. Deve haver limites a esse desejo de pôr à prova os nossos limites? Durante a maior parte do filme, Chris parece estar convencido de que a obtenção da felicidade individual é incompatível com a vida em sociedade. Será mesmo? Será que a família é indispensável à felicidade individual? Chris entra em ruptura com os pais por não se identificar com os seus valores e estilo de vida. Como avaliar a sua decisão de nunca mais contactar a família, nem sequer a sua irmã? E ainda: será que a nossa vida é mais rica quando temos mais coisas, dinheiro e conforto? Será que uma vida mais próxima da natureza é mais autêntica do que uma vida mais urbana?
Para terminar, escolhi um excerto da letra de Long Nights, a minha música preferida da banda sonora composta por Eddie Vedder. Faz-me sempre imaginar como seriam as noites solitárias de Chris McCandless. Aquela, por exemplo, em que (sabemo-lo pelo seu diário) “recebeu a chegada do novo ano a observar a lua cheia que se elevava sobre o Gran Desierto”:

Have no fear
For when I'm alone
I'll be better off
 Than I was before

I've got this life
I'll be around to grow
Who I was before
I cannot recall

I've got this life
And the will to show
I will always be
Better than before



(A música Long Nights, ilustrada com imagens do próprio Chris McCandless, pode ser ouvida aqui.)

6 comentários:

  1. Adorei o texto, inspira assim como o livro/filme. Parabéns.

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  2. belo!!!!
    fico-lhe imensamente agradecido por ajudar-me a suportar mais um dia...

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  3. Sim Senhor!!! ... mais textos assim, por favor!!!

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