sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Joan Miró, Quino e Manoel de Barros

Joan Miró, O Carnaval do Arlequim, óleo sobre tela, 1924/25



Esta semana recebi em casa este livro que comprara online. Um dia depois, Manoel de Barros faleceu. O poeta brasileiro que dizia não ser da informática, mas da “invencionática”. Que pensava renovar o homem “usando borboletas”, um “apanhador de desperdícios” para quem a poesia “tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria”.

Escolhi este poema de Manoel de Barros para vos desejar um bom fim de semana.

Brinquemos, então ;)

O apanhador de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.

Não gosto das palavras

fatigadas de informar.

Dou mais respeito 
às que vivem de barriga no chão

tipo água pedra sapo.

Entendo bem o sotaque das águas

Dou respeito às coisas desimportantes

e aos seres desimportantes.

Prezo insetos mais que aviões.

Prezo a velocidade

das tartarugas mais que a dos mísseis.

Tenho em mim um atraso de nascença.

Eu fui aparelhado

para gostar de passarinhos.

Tenho abundância de ser feliz por isso.

Meu quintal é maior do que o mundo.

Sou um apanhador de desperdícios:

Amo os restos

como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato

de canto.

Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.

Só uso a palavra para compor meus silêncios.

(Poema retirado daqui).

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