sábado, 7 de março de 2015

Descobertas do baú: a consciência moral segundo Immanuel Kant

Caravaggio, Sacrifício de Isaque, 1603, óleo sobre tela


            Em tempos, o programa de filosofia do secundário incluía a discussão do problema da origem da consciência moral. Na sequência dessa discussão, acabava por surgir um outro bem mais interessante, a saber, o problema do valor da moral.
            Apesar de não serem autores obrigatórios, eu gostava de confrontar os alunos com as teses defendidas por vários filósofos: Kant, do lado da “moral tradicional” e Marx, Freud e Nietzsche, do lado dos “adversários”.
            A escolha destes três “mestres da suspeita” tinha também como objetivo dar a conhecer aos jovens adolescentes teorias que vieram a ter repercussões enormes não só na filosofia, mas também na arte, na cultura e na política. Embora telegráficas e caricaturais, as breves apresentações que na altura escrevi para os alunos e que aqui reproduzo praticamente sem alterações, cumpriam a função de “facilitador de descobertas” para os mais interessados.
            Hoje, é possível um estudante terminar o 12º ano com excelentes classificações sem ter uma ideia minimamente consistente sobre o marxismo ou a psicanálise, por exemplo.
            Espero que estes pequenos textos que escrevi há vários anos lhes despertem a vontade de descobrir estes e outros pensadores que marcaram tanto o século XX.

Qual é a origem da consciência moral?

            Pode definir-se consciência moral como uma espécie de “voz da consciência” ou “juiz interior”, cujo papel principal seria o de funcionar como uma “bússola”, capaz de nos ajudar a discernir o que é “certo” e o que é “errado” em termos éticos. Assim entendida, a consciência moral parece ser exclusiva do ser humano.
            Um dos critérios utilizados para classificar as diferentes teses sobre este assunto pode ser o seguinte: ou a consciência moral já nasce com o ser humano ou é algo que se adquire posteriormente. Chamam-se às primeiras teses inatistas e às segundas teses não inatistas. De seguida iremos aplicar este critério a alguns dos pensadores estudados nas aulas.


KANT: a lei moral ensina-nos a sermos dignos da felicidade

            Kant é um dos mais célebres defensores da tese inatista. Considera este filósofo que a dimensão moral faz parte da natureza humana, sendo algo que já nasce connosco, ou seja, é inata.
            A consciência moral é, para Kant, a consciência do dever, que se nos apresenta na forma de “lei moral”. Kant diz que, nas escolhas morais, a vontade humana se encontra numa “encruzilhada”: ou o prazer ou o dever.
            É certo que a busca do prazer também é natural. Não se trata, contudo, da nossa característica principal. Mais importante que a tendência natural para a felicidade, existe no ser humano o sentido racional da moralidade.
            O instinto busca a felicidade, a razão a dignidade. É ele próprio quem o afirma: "A moral, propriamente dita, não é a doutrina que nos ensina como sermos felizes, mas como devemos tornar-nos dignos da felicidade." Ambas as disposições são naturais no Homem, ambas nascem connosco. Mas o sentido mais nobre da existência humana consiste na vitória da razão sobre o instinto.
            Ainda que o não siga, todo o ser humano sabe o que é o dever. Mesmo o mais analfabeto dos homens tem a capacidade de descobrir em si o que é certo ou errado. Por outro lado, o mais sábio dos homens pode revelar-se um absoluto cretino. Por isso, não é a sabedoria que faz de uma pessoa uma pessoa boa, mas a força de vontade para seguirmos o que a consciência nos diz.
            Como afirma Kant, a consciência moral é uma espécie de ”bússola”, com a qual qualquer pessoa “sabe perfeitamente distinguir, em todos os casos que se apresentem, o que é bom e o que é mau”. Portanto, “não é preciso nem ciência nem filosofia para que ela saiba o que há a fazer para se ser honrado e bom”.

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            Para finalizar este primeiro post sobre o tema, aqui fica uma última sugestão: comparar as teses de Kant com esta pintura de Henri Matisse e este poema de Fernando Pessoa...

Henri Matisse, Le bonheur de vivre, 1905, óleo sobre tela


 Liberdade

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa 

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