domingo, 23 de fevereiro de 2014

Da precedência das coisas (não necessariamente da procedência)

Fotografia de Susana Paiva


«[Não] é justo concluir, unicamente porque um evento, num caso, precede outro, que o primeiro é, por isso, a causa e o segundo o efeito. A sua conjunção pode ser arbitrária e casual.»

David Hume, Investigação sobre o Entendimento Humano, Lisboa, Edições 70.






quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Uma deliciosa brisa das arábias: os filmes Caramel e Offside e a música de Avishai Cohen.

Caramel (França, Líbano, 2007), de Nadine Labaki 

Offside (Irão, 2006), de Jafar Panahi

Beirute. Cinco mulheres encontram-se com regularidade no salão de beleza Sibelle: Layale, amante de um homem casado, sonha com o dia em que ele se separará; Nisrine, que está prestes a casar-se mas não é virgem e não sabe como contar ao noivo; Rima, que sente atração por mulheres; Jamale, que tem medo de envelhecer; e Rose, que abdicou de ter vida própria para cuidar da sua irmã mais velha. De que se falará neste salão de cabeleireira?


Irão. Uma rapariga disfarçada de rapaz tenta passar despercebida e assistir a um jogo de futebol da sua seleção. Mas a coisa corre mal e ela terá de se juntar a outras raparigas também ela descobertas com o meu truque. Impedidas de assistir ao jogo mas martirizadas por apenas ouvirem o que se passa no campo, como vai ser quando uma delas precisar de ir à casa de banho de um estádio concebido exclusivamente para adeptos masculinos?


O que existe de comum entre estes dois filmes? Várias coisas.

Antes de mais, são dois excelentes filmes. Mas há mais. As personagens principais são mulheres, embora os ambientes onde os filmes se desenrolam sejam diametralmente opostos: um salão de cabeleireiro no Líbano e um estádio de futebol no Irão. E também o facto destas mulheres terem sonhos e anseios muitas vezes incompreendidos (e proibidos) nos países onde vivem. Resistirão elas à discriminação de que são alvo?

O melhor é mesmo ver os filmes e ver o que acontece. Mas, para já, sugiro um excelente tema de um grande músico de jazz israelita que ama a música e a cultura árabes: Avishai Cohen.


domingo, 16 de fevereiro de 2014

A Rapariga que Roubava Livros: olhar para o horror a partir de um lugar seguro.


Ontem fui ver este filme e gostei. Não sendo extraordinário (muito longe disso), é um filme agradável e particularmente adequado para uma sessão de cinema familiar de fim de semana, como foi o caso. Trata-se de uma história algo previsível, mas bem contada. Tem imagens fortes, a fotografia das cenas de interiores é excelente e o guarda-roupa é verosímil.
Mas o mais interessante do filme é o facto de nos mostrar como foi vivido o pesadelo do nazismo no dia a dia dos alemães. Mais propriamente, o nazismo do ponto de vista de uma família alemã que com ele não se identificava. Ou, como é referido no filme, por “pessoas que queriam continuar a comportar-se como pessoas”. Neste aspecto, o filme faz lembrar “O Rapaz do Pijama às Riscas”, em que o pior do nazismo é contado do ponto de vista da ingenuidade de duas crianças, e também “A Vida é Bela”, onde um pai faz de tudo para que a dolorosa realidade não perturbe a ingenuidade do seu filho. Também em “A Rapariga que Roubava Livros” assistimos ao esforço para olharmos para o horror do real de um ponto de vista protetor, de um lugar emocionalmente seguro, como um abrigo. Ou uma cave.
Mas não há ilusões que perdurem eternamente, nem “pessoas que vivam para sempre”, como afirma o narrador, a Morte. E, quanto a isso, o filme mostra-nos que não é possível mantermo-nos para sempre afastados da realidade que nos choca, ainda que nos esforcemos muito. Um dia ela bater-nos-á à porta, robusta e incontornável, e não quererá saber se estamos, ou não, preparados para a enfrentar.
Finalmente, o filme é também um elogio ao poder redentor das palavras e da literatura. Nada de novo, claro, mas sempre emocionante para quem ama os livros.



Tudo (ou quase) sobre o filme pode ser encontrado aqui.