domingo, 24 de novembro de 2013

Uma leitura filosófica do filme Truman Show


O filme Truman Show e a filosofia (*)

Esteticamente considerado, Truman Show está naturalmente muito longe de ser uma obra prima. Mas poucos filmes terão a capacidade de suscitar uma tão grande diversidade de problemas filosóficos como o filme de Peter Weir. Refiro-me, naturalmente, a problemas filosóficos que fazem parte dos conteúdos da disciplina de filosofia no ensino secundário. Ademais, acresce a essa “filodiversidade” o carácter intuitivo, actual e “realista” da situação de que o filme parte: um reality show. Comecemos precisamente por aqui.
Cada vez mais as programações televisivas incluem programas deste tipo. E são cada vez mais as horas que lhes são concedidas, muitas vezes em horário nobre. As estatísticas sobre as audiências mostram-nos que cada vez há mais espectadores para estes programas. É aqui que os nossos alunos “entram”, vítimas de um voyeurismo social generalizado, um autêntico rolo compressor que tudo “normaliza” à sua passagem. E é aqui que a filosofia deve entrar em cena.
A filosofia nasce do espanto, da interrogação crítica, do olhar outro que põe em causa a glorificação do olhar “normal”, do pensar o “mesmo”. Platão celebrou o prisioneiro que se liberta da vida falsa da caverna; Descartes dizia que viver sem filosofar era como “ter os olhos fechados sem nunca se esforçar por os abrir”; nesse sentido, Truman é o herói filosófico que se liberta, o ex-prisioneiro da caverna, aquele que ousa abrir os olhos e tornar mais autêntica a sua vida.
Tenho vindo a defender que o cinema, com a sua  insuperável capacidade de suscitar no espectador a identificação com o “herói”, permite aos jovens colocarem-se na “pele” das personagens e reflectirem filosoficamente sobre os grandes problemas filosóficos. Paradoxalmente, é precisamente a identificação afectiva com o herói que facilita o distanciamento crítico em relação à realidade. Assim entendido, o cinema funciona como um laboratório virtual onde se produzem diferentes e estimulantes “experiências mentais” filosoficamente relevantes. Posto isto, regressemos à sala de cinema.
Como já referi, o filme Truman Show permite abordagens filosóficas invulgarmente diversificadas, no que às disciplinas filosóficas diz respeito. Vejamos quais.
Comecemos pela filosofia da acção e o problema filosófico do livre arbítrio. Toda a vida de Truman, decidida e supervisionada por Christof, obedece a uma apertada rede de condicionamentos sociais que tem como objectivos principais reduzir as suas escolhas a um leque o mais estreito possível de possibilidades e, assim, garantir o sucesso do programa televisivo. Ou seja, quanto mais Truman se parece com uma simples personagem, mais o argumentista/realizador, Christof, se parece com Deus. Ora, apesar de todos os condicionamentos sociais hábil e estrategicamente engendrados (fobia ao mar e à navegação, por exemplo), há algo em Truman que lhes resiste. Predisposição genética, como gostam de invocar os deterministas radicais? Ou será uma vontade livre que está para além da herança genética e dos condicionamentos sociais, como afirmam os defensores do livre arbítrio? Está lançado o debate.
Também a ética perpassa por todo o filme. Desde logo quando surge a questão: é moralmente errado enganar uma pessoa se, com isso, se proporcionar satisfação e bem-estar a milhões de outras pessoas? Funcionará neste caso o princípio da maximização da felicidade tão caro ao utilitarismo (proporcionar o máximo de bem estar ao maior número possível de pessoas)? Ou será que, como defende Kant, a dignidade da pessoa humana está para além de tais cálculos? Finalmente: ao decidir abandonar o programa, estará Truman a ser egoísta? Quem decide, afinal, o que é certo e errado? É tudo subjectivo? Ou será que o bem e o mal são relativos a cada sociedade? Ou...
E eis-nos já na inevitável paragem seguinte: a filosofia política. No filme refere-se que a adopção de Truman foi a primeira realizada por uma empresa, com toda a legalidade. Deveria tal coisa ser permitida? Deverá o Estado estabelecer limites à exposição pública da vida privada dos cidadãos? Se sim, quais? E que dizer dos contratos de trabalho celebrados entre a empresa e os actores que participam no programa? Fazer de esposa como se fosse a vida real?!
Chegados aqui, percorremos já cerca de 2/3 do programa de filosofia. Mas poderíamos ainda, no final do 10º ano, explorar como tema de opção o problema do sentido da vida e teríamos mais uma vez a odisseia de Truman no centro da discussão...
As férias de Verão já lá vão e estamos em Janeiro, a iniciar a unidade de teoria do conhecimento do 11º ano. Entre outras coisas, questionamos o valor e a solidez das nossas crenças acerca do mundo. Descobrimos, com Platão, o texto histórico da alegoria da caverna e a coragem de um prisioneiro que ousou libertar-se. Surpreendemo-nos com a bizarra hipótese do génio maligno inventada por Descartes, que serviu de inspiração aos irmãos Wachowski em Matrix: imagina que existe um ser poderosíssimo que se diverte a enganar-nos. Imagina, ainda, que esse ser perverso e mau tem o poder de criar em nós falsas impressões, de tal maneira que tudo à nossa volta não passa de uma ilusão, como se estivéssemos num daqueles sonhos em que tudo parece real, mas não é. Poderá a nossa vida ser apenas um sonho permanente de que ainda não despertámos?
Termino com um excerto da entrevista que Christof concede a uma estação de televisão. À pergunta do entrevistador “porque nunca descobriu Truman a verdade?”, Christof responde com toda a convicção:

“As pessoas aceitam a realidade do mundo em que vivem. É tão simples como isso.”

Será?

Deixo-vos com o trailer do filme



(*) Produzi este texto no âmbito de uma acção de formação intitulada Por dentro do filme II - Produção de Guiões de trabalho, a partir de filmes seleccionados, que decorreu em Portimão e teve como formadora Graça Lobo. Foi a melhor acção de formação que frequentei em toda a minha vida de professor. 

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