Mostrar mensagens com a etiqueta Fernando Pessoa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Fernando Pessoa. Mostrar todas as mensagens

sábado, 7 de março de 2015

Descobertas do baú: a consciência moral segundo Immanuel Kant

Caravaggio, Sacrifício de Isaque, 1603, óleo sobre tela


            Em tempos, o programa de filosofia do secundário incluía a discussão do problema da origem da consciência moral. Na sequência dessa discussão, acabava por surgir um outro bem mais interessante, a saber, o problema do valor da moral.
            Apesar de não serem autores obrigatórios, eu gostava de confrontar os alunos com as teses defendidas por vários filósofos: Kant, do lado da “moral tradicional” e Marx, Freud e Nietzsche, do lado dos “adversários”.
            A escolha destes três “mestres da suspeita” tinha também como objetivo dar a conhecer aos jovens adolescentes teorias que vieram a ter repercussões enormes não só na filosofia, mas também na arte, na cultura e na política. Embora telegráficas e caricaturais, as breves apresentações que na altura escrevi para os alunos e que aqui reproduzo praticamente sem alterações, cumpriam a função de “facilitador de descobertas” para os mais interessados.
            Hoje, é possível um estudante terminar o 12º ano com excelentes classificações sem ter uma ideia minimamente consistente sobre o marxismo ou a psicanálise, por exemplo.
            Espero que estes pequenos textos que escrevi há vários anos lhes despertem a vontade de descobrir estes e outros pensadores que marcaram tanto o século XX.

Qual é a origem da consciência moral?

            Pode definir-se consciência moral como uma espécie de “voz da consciência” ou “juiz interior”, cujo papel principal seria o de funcionar como uma “bússola”, capaz de nos ajudar a discernir o que é “certo” e o que é “errado” em termos éticos. Assim entendida, a consciência moral parece ser exclusiva do ser humano.
            Um dos critérios utilizados para classificar as diferentes teses sobre este assunto pode ser o seguinte: ou a consciência moral já nasce com o ser humano ou é algo que se adquire posteriormente. Chamam-se às primeiras teses inatistas e às segundas teses não inatistas. De seguida iremos aplicar este critério a alguns dos pensadores estudados nas aulas.


KANT: a lei moral ensina-nos a sermos dignos da felicidade

            Kant é um dos mais célebres defensores da tese inatista. Considera este filósofo que a dimensão moral faz parte da natureza humana, sendo algo que já nasce connosco, ou seja, é inata.
            A consciência moral é, para Kant, a consciência do dever, que se nos apresenta na forma de “lei moral”. Kant diz que, nas escolhas morais, a vontade humana se encontra numa “encruzilhada”: ou o prazer ou o dever.
            É certo que a busca do prazer também é natural. Não se trata, contudo, da nossa característica principal. Mais importante que a tendência natural para a felicidade, existe no ser humano o sentido racional da moralidade.
            O instinto busca a felicidade, a razão a dignidade. É ele próprio quem o afirma: "A moral, propriamente dita, não é a doutrina que nos ensina como sermos felizes, mas como devemos tornar-nos dignos da felicidade." Ambas as disposições são naturais no Homem, ambas nascem connosco. Mas o sentido mais nobre da existência humana consiste na vitória da razão sobre o instinto.
            Ainda que o não siga, todo o ser humano sabe o que é o dever. Mesmo o mais analfabeto dos homens tem a capacidade de descobrir em si o que é certo ou errado. Por outro lado, o mais sábio dos homens pode revelar-se um absoluto cretino. Por isso, não é a sabedoria que faz de uma pessoa uma pessoa boa, mas a força de vontade para seguirmos o que a consciência nos diz.
            Como afirma Kant, a consciência moral é uma espécie de ”bússola”, com a qual qualquer pessoa “sabe perfeitamente distinguir, em todos os casos que se apresentem, o que é bom e o que é mau”. Portanto, “não é preciso nem ciência nem filosofia para que ela saiba o que há a fazer para se ser honrado e bom”.

 .........................

            Para finalizar este primeiro post sobre o tema, aqui fica uma última sugestão: comparar as teses de Kant com esta pintura de Henri Matisse e este poema de Fernando Pessoa...

Henri Matisse, Le bonheur de vivre, 1905, óleo sobre tela


 Liberdade

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa 

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Pensar filosoficamente Alberto Caeiro no Dia Mundial da Filosofia

Como já é tradição, o Dia Mundial da Filosofia celebrou-se na minha escola. Este ano, escolhemos o tema "Filosofia e Literatura" e os professores do grupo escreveram um texto de abordagem filosófica de um livro. Aqui fica para todos vós o meu contributo.





LIVRO: Poemas Completos de Alberto Caeiro, de Fernando Pessoa


Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.

Alberto Caeiro

À primeira vista, fazer uma leitura filosófica da obra de Alberto Caeiro parece uma missão impossível. De facto, como se comenta filosoficamente a obra de um poeta que se classifica a si mesmo como “um temperamento sem filosofia”? Como tornar claras as ideias de alguém cuja “alma era de certezas poéticas, não buscando esclarecer-se”? Ou que afirma que a sua obra “não se pode comentar, porque se não pode pensar o que é directo, como o céu e a terra”?
Não obstante a aversão do poeta às conjecturas filosóficas, existe um pensamento ecológico em Alberto Caeiro. Uma das teses que perpassa toda a sua poesia é a da existência de uma nítida dicotomia entre o “mundo natural” e o “mundo humano”. Para ele, a natureza é um lugar caracterizado pela paz e comunhão com as coisas (Toda a paz da Natureza sem gente / Vem sentar-se a meu lado.). Quanto ao homem contemporâneo, não só já não pertence a esse mundo natural, como é, inclusive, um factor de perturbação da harmonia da natureza. Entre a “simplicidade” da natureza e a “confusão” do mundo dos homens, o poeta não hesita:

            Ah, como os mais simples dos homens
São doentes e confusos e estúpidos
Ao pé da clara simplicidade
E saúde em existir
Das árvores e das plantas!

Pelas mesmas razões, Caeiro prefere a aldeia e o campo, rejeitando a “claustrofobia” que a cidade lhe provoca:

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o ceu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram tudo e também não podemos olhar
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

Se encarado a partir das teorias ecológicas contemporâneas, Caeiro revela-se um ecologista radical, já que defende a total preservação da natureza  (Deixemos o universo exterior e os outros homens onde a natureza os pôs).  
Também encontramos na sua obra o igualitarismo biosférico, uma concepção absolutamente não hierarquizada da natureza segundo a qual cada ser é valorizado na sua riqueza insubstituível (Se sou mais que uma pedra e uma planta? Não sei. / Sou differente. Não sei o que é mais ou menos.). Para ele, cada ser existente na natureza vale por si mesmo, ou seja, tem um valor intrínseco e não meramente instrumental (A espantosa realidade das coisas / É a minha descoberta de todos os dias. / Cada coisa é o que é, / E é difficil explicar a alguem quanto isso me alegra, / E quanto isso me basta. / Basta existir para se ser completo.).
Podemos designar esta tese de anti-antropocêntrica, porque defende que a Natureza não existe para o Homem, uma vez que o Homem não vale mais que os seres da natureza. (Quando vier a primavera, / Se eu já estiver morto, / As flores florirão da mesma maneira / E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada. / A realidade não precisa de mim.). 
Alberto Caeiro faz a apologia do regresso à natureza. Trata-se de um regresso ao admirável mundo primitivo, em que o Homem tem de descobrir a aprendizagem do “desaprender”  (Procuro despir-me do que apprendi, / Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram, / E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos, / Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras, / Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro, / Mas um animal humano que a Natureza produziu.).
A “natureza” de que nos fala o poeta já quase não existe. Quanto ao seu “projeto”: será que resiste? Fica no ar a pergunta...
Para finalizar, deixo-vos com um dos poemas de Alberto Caeiro que mais aprecio:

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
            Se elle quizesse que eu accreditasse nelle,
            Sem duvida que viria fallar commigo
            E entraria pela minha porta dentro
            Dizendo-me, Aqui estou!

            Mas se Deus é as flores e as arvores
            E os montes e sol e o luar,
            Então acredito nelle,
            Então acredito nelle a toda a hora,
            E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
            E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.


Carlos Café

Nota: Todas as citações da obra de Alberto Caeiro aparecem em itálico num tamanho de letra ligeiramente inferior ao do texto.  Por razões de espaço, prescindimos de identificar os poemas citados. As citações respeitam a grafia original. A edição utilizada é: PESSOA, Fernando – Poemas Completos de Alberto Caeiro: Prefácio de Ricardo Reis, Posfácio de Álvaro de Campos. Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha; posfácio de Luís de Sousa Rebelo. 1ª ed. Lisboa: Editorial Presença, 1994. 351 p. (Ler Pessoa).


sábado, 23 de agosto de 2014

23 de Agosto.


Parabéns ;)

Bendito seja o mesmo sol de outras terras
Que faz meus irmãos todos os homens
Porque todos os homens, um momento do dia, o olham como eu,
E nesse puro momento
Todo limpo e sensível
Regressam imperfeitamente
E com um suspiro que mal sentem
Ao Homem verdadeiro e primitivo
Que via o sol nascer e ainda o não adorava.
Porque isso é natural — mais natural
Que adorar o sol e depois Deus
E depois tudo o mais que não há.

Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos, XXXVIII