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terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Bibliofilmoteca n.º 3: O Livro de Areia, de Jorge Luis Borges


Recordo ter ouvido essas figuras ao pai do meu pai. Tu e eu somos poetas; vou salvar-te. Agora não definimos cada facto que inflama o nosso canto; cifrámo-lo numa só palavra que é a Palavra.
"Respondi-lhe:
"- Não pude ouvi-la. Peço-te que me digas qual é.
"Vacilou uns instantes e respondeu:
"- Jurei não revelá-la. Aliás, ninguém pode ensinar nada. Deves procurá-la sozinho.

Jorge Luis Borges in O Livro de Areia

domingo, 12 de fevereiro de 2012

"Professor, pode sugerir-me um bom livro para ler?"


Esta é uma das perguntas que mais gosto que me façam. Quem me pede que lhe indique livros que adoro tem, desde logo, o meu agradecimento (é amoroso pedir a alguém que fale do que ama). Mas também tem de estar preparado para outra coisa: é que quem fala do que ama talvez não se cale tão cedo. Posto isto, vamos lá então ao post.

O pedido surgiu, espontâneo, numa das aulas da última sexta. O pretexto foi o contrato de leitura na disciplina de Português, mas rapidamente os horizontes foram muito para  além disso. Colocaram-me algumas condicionantes: livros em língua portuguesa, não muito extensos e agradáveis de ler. De autores portugueses ou não. 
Logo ali, de imediato, lembrei-me de alguns. Mas esclareci também as minhas condições: livros de que gostasse particularmente e que, ou tenha lido no secundário quando tinha a idade deles ou que possam marcar positivamente um jovem adolescente à descoberta do mundo e do melhor de si mesmo.
Apresento hoje as duas primeiras sugestões.


O Que Diz Molero
Edição/reimpressão: 2007
Páginas: 172
Editor: Bertrand Editora
ISBN: 9789722515689

Dinis Machado
Com duas dezenas de edições em Portugal, o livro alcançou ainda um sucesso retumbante em França e no Brasil, onde foi também adaptado para teatro (em cena durante mais de quatro anos), e vai ter em breve uma versão cinematográfica. Pequenas coisas que são suficientes para encher de satisfação Dinis Machado, que responde também pelo nome de Dennis McShade, autor de três policiais que fizeram história e de um quarto que será publicado no ano que vem, assinalando os 40 anos da criação de Peter Maynard, um assassino com preocupações filosóficas. Ler mais aqui.



A Pomba
Edição/reimpressão: 1998
Páginas: 92
Editor: Editorial Presença
ISBN: 9789722319911
Coleção: Aura

Patrick Süskind 

O primeiro romance de Patrick Süskind foi o livro «O Perfume» que imediatamente o celebrizou como autor e que continua a ser um livro de culto para sucessivas camadas de leitores atraídos por uma verdadeira obra-prima de ficção. Em "A Pomba", o porteiro Jonathan, figura central do livro, que partilha a sua monótona existência entre a mansarda que habita e o banco onde trabalha, vê de um momento para o outro a sua vida abalada quando um pássaro ferido tomba a seus pés. A partir deste "fait-divers", feito do encontro entre um homem e um pássaro ferido, Patrick Süskind constrói uma pequena maravilha.
Uma leitura da obra pode ser lida aqui.

Para a semana voltarei com mais sugestões.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

um pouco mais de azul

Fiodor Dostoievski
(1821, Moscovo / 1881, São Petersburgo)

Um pouco mais de azul é uma lista comentada de sugestões para os meus alunos. A ideia é apresentar obras extraordinárias da cultura mundial que, idealmente, um excelente aluno do secundário deveria conhecer: livros, filmes, música ou arte. Tento, desta forma, estimular a autoaprendizagem e o culto da excelência através de obras que não fazem parte dos currículos escolares. Apenas três notas mais. Um: as escolhas são assumidamente pessoais. Dois: a adesão dos alunos é naturalmente facultativa. Três: a minha disposição para lhes emprestar e com eles discutir as obras é total. O título “Um pouco mais de azul” quer exprimir a ideia de que não basta ser inteligente e ter boas notas para se ser excelente. Também é preciso gostar de enfrentar dificuldades e ter a persistência necessária para o conseguir. E, acima de tudo, ser exigente consigo próprio.
Por muito colorida que seja a nossa vida, ousar querer sempre um pouco mais, um pouco mais de azul...

Porque no princípio era o Verbo, um pouco mais de azul # 1 é um livro. Um dos meus livros preferidos, que li pela primeira vez quando andava no secundário. São inúmeras as referências sobre a obra e o seu autor na internet, pelo que prescindo de as fazer aqui. Deixo-vos então com

Obra: Crime e Castigo
Autor: Fiodor Dostoievski

Para terminar, o poema de Mário de Sá-Carneiro de onde a expressão é tirada:

  • Quasi

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além
Para atingir, faltou-me um golpe de asa ...
Se ao menos eu permanecesse aquém ...

Assombro ou paz ? Em vão ... Tudo esvaído
Num grande mar enganador d´espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor ! - quasi vivido ...

Quasi o amor, quase o triunfo e a chama,
Quasi o princípio e o fim - quasi a expansão ...
Mas na minh´alma tudo se derrama ...
Entanto nada foi só ilusão !

De tudo houve um começo ... e tudo errou ...
- Ai a dor de ser-quasi, dor sem fim ...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou ...

Momentos de alma que desbaratei ...
Templos aonde nunca pus um altar ...
Rios que perdi sem os levar ao mar ...
Ânsias que foram mas que não fixei ...

Se me vagueio, encontro só indícios ...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos d' heroi, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios ...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí ...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi ...

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe d´asa ...
Se ao menos eu permanecesse aquém ...

Paris 1913 - maio 13

Mário de Sá-Carneiro

Poemas Completos
Edição Fernando Cabral Martins
Assírio & Alvim
2001