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| Joan Miró, O Carnaval do Arlequim, óleo sobre tela, 1924/25 |
Esta semana recebi em casa este livro que comprara online. Um dia
depois, Manoel de Barros faleceu. O poeta brasileiro que dizia não ser da
informática, mas da “invencionática”. Que pensava renovar o homem “usando
borboletas”, um “apanhador de desperdícios” para quem a poesia “tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria”.
Escolhi
este poema de Manoel de Barros para vos desejar um bom fim de semana.
Brinquemos,
então ;)
O apanhador de desperdícios
Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
(Poema retirado daqui).



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