Este é um blogue sobre cinema e filosofia (na sala de aula e não só). Mas também sobre música, arte, literatura, entre outras coisas que enriquecem a minha vida. Neste sentido, é também um blogue pessoal.
A primeira sugestão
cinematográfica do ano é um filme que os meus filhos me sugeriram
insistentemente nos últimos meses e cuja edição em dvd descobri neste Natal. Refiro-me a “Sr. Ninguém” (Mr. Nobody, 2009), escrito e realizado
pelo belga Jaco Van Dormael, com Jared Leto (actor e vocalista da banda 30 Seconds To Mars), Sarah Polley e Diane
Kruger nos principais papéis.
No ano de 2092, Nemo
Ninguém, um homem de 118 anos, é o último mortal entre os seres humanos que se
tornaram imortais devido aos avanços científicos, envolvendo o rejuvenescimento
perpétuo de telômeros. Entrevistado no seu leito de morte, ele revê a sua vida,
surgindo sérias dúvidas sobre se as suas memórias são reais ou apenas
existências possíveis nascidas na sua imaginação.
O filme utiliza habilmente diferentes
teorias científicas, nomeadamente a teoria do Big Bang e a teoria das cordas. Quanto aos aspectos
filosóficos, são de destacar as perplexidades que provoca quanto à natureza do
tempo e à função da memória na definição do “eu”, mas também por levantar outros problemas filosóficos, tais como a questão do livre arbítrio, a questão ética de
saber o que é uma boa escolha ou a dúvida gnosiológica acerca da distinção
entre a realidade e a ficção.
Juntemos a tudo isto um bom
ritmo narrativo, um bom trabalho dos actores, uma excelente utilização de
imagens esteticamente muito fortes e uma rica banda sonora – e eis-nos perante
um bom filme para iniciar o novo ano.
Deixo-vos com algumas
imagens do filme e o trailer original.
Se
podíamos viver sem livre arbítrio? Podíamos, mas não era a mesma coisa...
(Libertismo: tese, argumentos e principais
objeções)
Situação
1. Imagina que chegas à livraria para comprar um manual de filosofia e
descobres que o livro está rigorosamente em branco. Folheias folha após folha e
não há uma única palavra escrita. Estranho, não é verdade? Decerto voltarias à
livraria para devolver o manual, alegando que tinha havido um erro de
impressão. Entregavam-te outro, ficava o caso resolvido e voltavas para casa.
Tudo normal, portanto.
Situação
2. Imagina que voltas um dia mais tarde à livraria para comprares um daqueles
cadernos para servir de diário. Chegas a casa e descobres que o caderno já está
completamente escrito. Folheias folha após folha e não há uma única página em
branco. Estranho, não é verdade? Decerto voltarias à livraria para devolver o
caderno, alegando que já estava usado. Entregavam-te outro, ficava o caso
resolvido e voltavas para casa. Tudo normal, portanto.
Tudo
normal? Normal por quê? Vamos falar disso.
É suposto um manual
escolar já estar escrito, certo? Ele existe para ajudar os alunos a aprender e
os professores a ensinar. Já o caso do diário é diferente. Um diário tem de
estar em branco porque é suposto ir sendo preenchido à medida que o seu autor
vai vivendo o dia a dia. E as folhas têm necessariamente de estar em branco
porque, em rigor, ninguém sabe o que escrever no diário antes de ter vivido. Pode até dizer-se que cada dia da nossa vida é
como se fosse uma página do nosso diário de vida.
Vais ter oportunidade de
discutir esta ideia mais à frente, num diálogo que escrevi sobre este problema
do livre arbítrio. Que diálogo é esse? - perguntas tu. Trata-se de uma
entrevista imaginária a Jean-Paul Sartre, um célebre filósofo francês do séc.
XX. Nela, a jovem estudante de Filosofia que faz de entrevistadora afirma a
dada altura:
“A nossa vida é um livro em branco que nós próprios vamos escrevendo
e de que somos os únicos autores”.
Nesta
frase está presente uma teoria filosófica muito interessante sobre o problema
do livre arbítrio. É habitualmente designada por libertismo. Vou apresentar-te
agora as ideias principais desta teoria. Se me quiseres ouvir (se quiseres,
sim, porque os libertistas acham que és tu quem decide se ficas ou não aqui a
ouvir-me...). Se ficares, explicar-te-ei a tese do libertismo e os argumentos
principais que a sustentam.
Lembras-te
decerto do determinismo radical, a teoria de que falámos no capítulo anterior.
Os deterministas radicais defendem que tudo o que acontece no universo é
determinado por leis físicas, incluindo aqui as ações humanas. Por isso
concluem que tudo é determinado e que não existe livre arbítrio. Pois bem, o
libertismo defende que apenas o
universo físico é determinista. A vontade e a consciência humanas não são
determinadas pelas leis físicas do universo. Jean-Paul Sartre expressa essa
ideia assim:
Não há determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade. Estamos sós e
sem desculpas. É o que traduzirei dizendo que o homem está condenado a ser
livre. Condenado, porque não se criou a si próprio; e no entanto livre, porque
uma vez lançado no mundo, é responsável por tudo quanto fizer.
Jean-Paul Sartre, in O Existencialismo é um
Humanismo
Como
podes verificar, o libertismo é também uma teoria incompatibilista, mas num
sentido oposto ao do determinismo radical. Ambos defendem que a existência em
simultâneo de determinismo e livre arbítrio são incompatíveis. A diferença está
em que o libertismo, aqui exemplificado por Sartre, considera que existe livre
arbítrio e, portanto, não existe determinismo. Vamos agora ver por quê.
Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir
São
dois os argumentos principais do libertismo. O primeiro apela a uma experiência
intuitiva que todos nós temos: a experiência de termos de escolher. Em termos
mais rigorosamente filosóficos, este argumento é habitualmente designado por
argumento da experiência imediata da vontade. Isto quer dizer que todos nós
temos a experiência de sermos confrontados com várias hipóteses e que, em
função da nossa vontade, escolhemos livremente. Quando
decidimos fazer a acção X e não Y, vivemos uma experiência de escolha. Esta
experiência de escolha é algo que acontece de facto, não é um sonho ou uma
ilusão. Ora, livre arbítrio é ter possibilidade de escolha, certo? Logo, existe
livre arbítrio.
O segundo argumento que escolhi
para te apresentar aqui pode ser encontrado no diálogo imaginário com Sartre.
Designa-se habitualmente por argumento da criação artística, uma vez que faz
uma analogia entre a liberdade do artista ao criar a sua obra de arte e a
liberdade do ser humano ao decidir o que fazer da sua vida. Comecemos por aqui:
aceitamos pacificamente que o artista é livre de criar o que quiser. Um
exemplo: perante a tela em branco, é o pintor quem decide livremente o que
pintar - seres ou objectos reais (pintura figurativa) ou formas abstractas,
utilizar cores quentes ou frias, etc.. Portanto, as escolhas do artista são
incondicionadas e são fruto da sua própria vontade. O mesmo acontece com a vida
dos seres humanos. De onde se conclui que a vontade humana é livre. Mas será
esta uma boa teoria?
O seu ponto forte parece ser o
facto de todos nós estarmos familiarizados com a ideia de «escolha». A
sociedade (através de normas como «recompensa», «castigo», «responsabilidade
civil») e a própria linguagem pressupõem-no. Neste sentido, o libertismo é
consistente com a crença de que somos livres e realizamos acções pelas quais
somos responsáveis.
No entanto, como sempre acontece
na filosofia, também há objeções que se podem colocar a esta teoria. Vou
apresentar-te duas dessas objeções.
Mente e cérebro serão a mesma
coisa? Segundo o libertismo, existe uma diferença fundamental entre o cérebro e
a mente: o cérebro (entidade física), obedece às leis deterministas do mundo
físico, enquanto que a mente não é determinada causalmente. Ou seja: defende
que uma coisa não física (a mente) interfere com os fenómenos do mundo físico
(as acções). E daí, qual é o problema? – ouço-te a perguntar. Repara bem: ao
atribuir-se um estatuto especial à mente humana (o lugar onde a vontade livre
toma as decisões), ela surge como uma espécie de «fantasma». Tal como os
fantasmas, seres não físicos e não palpáveis, de quem se diz que podem abrir
portas e arrastar correntes, também a mente (não física) conseguiria interferir
no mundo físico sem, no entanto, ter uma estrutura física. Estranho, no mínimo.
Tanto ou mais estranho que a própria ideia de fantasmas...
Finalmente, parece que o estatuto
especial que o libertismo atribui aos seres humanos (os únicos a disporem de
livre arbítrio, ao contrário de todos
os outros seres existentes no universo) conduz inevitavelmente a esta pergunta:
por quê um poder especial para os seres racionais? O que existe de tão especial
na racionalidade que justifique estar
acima das leis da natureza? Tal como José Mourinho no futebol, será o ser
humano o special one da natureza?
Para finalizar, convido-te a ler a entrevista imaginária a
Jean-Paul Sartre aqui.
Tens a certeza de que não és uma personagem do Sims?
(Determinismo radical: tese, argumentos e principais objeções)
Bom,
antes que perguntes, respondo já: não, não costumo jogar Sims... Mas a minha filha
e as minhas sobrinhas jogavam. Seja como for, a parte que me interessa no Sims
é esta: “jogo eletrónico de simulação de vida.” O que é que isto tem a ver com
a Filosofia? Tudo. Deixa lá o joystick
e ouve.
Quem
joga Sims pode fazer uma série de escolhas divertidas e interessantes ao
“criar” as personagens. Escolher a cor dos olhos, a altura, a cor e o tipo de
cabelo: loiro, ruivo ou moreno, liso, ondulado ou frisado, por exemplo (o corte
de cabelo também está no menu). Pode também escolher traços da personalidade:
tímido ou extrovertido, alegre ou melancólico. Até o quarto pode ser escolhido
previamente (o sonho de todas as mães...). Pode escolher-se o estilo “mamã
feliz e orgulhosa”: quarto todo arrumadinho, cada coisa no seu lugar, sapatos
alinhados, até no cesto a roupa suja está virada e dobrada. Ou a versão “mãe
com os cabelos em pé”: caos completo (tipo cenário de guerra), roupa espalhada
por todo o lado, meias e sapatos órfãos de par, livros e mochila no chão,
cadeira da secretária habilmente camuflada com peças de roupa dispostas aleatoriamente,
carregador ligado à tomada sem telemóvel... E que mais pode escolher quem joga
Sims? Gostos musicais, estilo de roupa, comidas preferidas, etc., etc.
O
que te peço agora é que me acompanhes numa experiência mental, um “truque” que
os filósofos utilizam com muita frequência e algum sucesso. Trata-se de
imaginarmos uma situação que sabemos não ser real, mas que pode ser muito útil
para explicarmos as nossas ideias. Pois bem, a experiência mental que te
proponho é a seguinte.
Esquece
que o Sims é um jogo. Esquece por momentos que todas aquelas personagens foram
criadas por ti. Dá um salto para o interior do jogo e tenta imaginar como as
diferentes personagens se “veem” umas às outras. Consideremos duas possíveis
personagens.
A
Maria, por exemplo. É alta, morena e elegante. Tem cabelo preto, comprido e
ondulado, e gosta de música alternativa. Faz amigos com facilidade, é
extrovertida e adora fazer novas amizades. É daquelas pessoas que está sempre à
vontade, mesmo em situações novas com pessoas desconhecidas. Valoriza a família
acima de tudo o mais e adora crianças.
O
Miguel é tímido e introvertido. Adora desportos, a única situação em que perde
a timidez. Prefere estar sozinho. É amigo da Maria, mas nunca escolheria o
mesmo estilo de vida e a mesma profissão que ela. Mas respeita naturalmente as
opções delas, porque lhe reconhece o direito de fazer as escolhas que melhor se
adequam à sua maneira de ser.
Ao
“pensar” assim, o Miguel está a partir do princípio de que a Maria, chegado o
momento de escolher casar ou não casar, por exemplo, pode muito bem não casar.
O mesmo se aplica à profissão: poderia ter escolhido um trabalho solitário
atrás de uma secretária, mas não o fez. Ou seja, o Miguel vê nas escolhas da
Maria decisões livres. Dito de outro modo, as ações da Maria não foram
determinadas: ela usou o seu livre arbítrio.
O
Miguel pensa assim porque parte do princípio de que as ações que a Maria
realiza ao longo da sua vida são escolha sua, e apenas sua. O que escapa ao
Miguel é que as escolhas da Maria foram determinadas por algo que ela não
escolheu e que a levaram a, inevitavelmente, ter seguido o caminho que seguiu e
não outro qualquer.
A decisão de casar,
por exemplo. À primeira vista, parece que a Maria poderia ter escolhido não o
fazer. No entanto, houve duas características suas que determinaram a sua
escolha. Refiro-me à valorização da família e ao gosto por crianças. Uma
rapariga assim nãoescolhe não casar e não ter filhos! Esse
caminho não é, de facto, uma opção para ela. Pelo que a sua escolha não foi
livre, mas sim determinada. Neste caso, pelo seu “histórico”. Que, ao contrário
do que acontece com os computadores, nunca pode ser apagado, determinando as
nossas opções futuras.
A escolha da
profissão obedece ao mesmo padrão. A Maria tem características de personalidade
que não foram por si escolhidas: extrovertida, confiante, está tão à vontade na
vida social como peixe na água. As suas características de personalidade
determinaram as suas escolhas profissionais. Uma pessoa assim nunca escolheria
ficar uma vida inteira a trabalhar isolada atrás de uma secretária. Talvez
preferisse ir para a universidade...
Vamos agora fazer a
leitura filosófica desta experiência mental que te propus. As personagens do
Sims pensam das outras (e, também, de si mesmas) que as decisões que tomam são
escolhas livres. Mas acontece que lhes escapa um aspecto fundamental: as suas
decisões são determinadas por causas anteriores às suas escolhas e que as
encaminham para essas escolhas e não outras. Inevitavelmente, sem o poderem
evitar. Por isso, em rigor, pode-se dizer que as suas escolhas foram
determinadas e, por isso, não são livres.
Há uma teoria
filosófica que defende o que acabámos de afirmar. E vai mais longe: defende que
o mesmo se passa com os seres humanos na vida real. Esta teoria designa-se
determinismo radical. Irei explicar-te de seguida por que motivos esta
concepção do determinismo é apelidada de radical.
Para
o determinismo radical, todo o universo é determinista, ou seja, tudo o que nele acontece é
o efeito de causas físicas (naturais), incluindo as acções humanas. Ou seja,
não existe livre arbítrio. Ao não admitir excepções para o determinismo, esta
teoria retira aos seres humanos qualquer esperança de serem um caso especial no
universo. O determinista radical raciocina do seguinte modo:
Se existe
determinismo, o livre arbítrio não existe.
Existe
determinismo.
Logo, o livre
arbítrio não existe.
Por aquilo que aprendeste no
último capítulo, estás em condições de concluir que o determinismo radical é
uma teoria incompatibilista, uma vez que defende que a existência de
determinismo e de livre arbítrio são incompatíveis.
Chegado aqui, está na hora de
conheceres os argumentos utilizados pelo determinismo radical para sustentar a
sua tese. Vou apresentar-te dois dos argumentos mais utilizados pelos
defendores desta corrente filosófica.
Comecemos pelo argumento da
causalidade à distância. Este argumento parte da convicção de que as ações dos
seres humanos no momento em que as realizam têm a sua origem no seu passado
mais remoto. No início de tudo temos a herança genética que herdamos dos nossos
pais. Para o determinista radical, grande parte do que cada um de nós vem a ser
no futuro tem a ver com os genes que herdou. Mas não são apenas os genes que
determinam o que fazemos. Também a nossa infância e as influências do meio
familiar e social condicionam grandemente aquilo em que nos tornamos. Voltando
à analogia com os computadores, podemos dizer que aquilo que somos hoje é
fortemente determinado pelo “histórico” da nossa vida. Este histórico é constituído
por tudo o que nos foi acontecendo e tudo o que fomos fazendo no passado. Mas,
contrariamente ao que acontece com os computadores, o nosso histórico não pode
ser apagado para se começar do zero. Cada um de nós tem uma história pessoal
que, a par das nossas características genéticas, fez com que nos tornássemos no
que somos. Comparando com as personagens do Sims, cujas características foram
impostas e não escolhidas, poderíamos dizer que também nós somos o que não
escolhemos ser, uma vez que o que determina as nossas ações (genes e meio
ambiente durante e após a infância) são factores sobre os quais não temos
controlo. Percebes agora a provocaçãozinha que te fiz com o título tens a
certeza de que não és uma personagem do Sims?
Talvez seja a altura ideal para
resumir o argumento da causalidade à distância. Aqui vai, então:
Qualquer acção
que um agente pratique é causada por factores (genes e influências familiares e
sociais) sobre os quais não tem controlo.
Se não tem
controlo sobre o que o faz agir, o agente não tem possibilidade de escolha.
Ser livre é ter
possibilidade de escolha.
Logo, não há
acções livres.
O segundo argumento de que te
quero falar, apesar de menos subtil, é no entanto muito utilizado.Refiro-me ao argumento dos impulsos.Como o próprio nome indica,
pretende-se destacar a importância que os impulsos têm nas nossas ações. Todos
nós ouvimos falar de situações em que pessoas são “levadas” por impulsos. Isso
deve querer dizer que a pessoa não só não controlou esse impulso, como, ainda
por cima, foi controlada por ele. É isto que a expressão “foi mais forte do que
eu” quer habitualmente significar. Ora bem, o argumento dos impulsos pode ser
sintetizado assim:
Se alguém age
determinado por impulsos que não pode controlar, não age livremente.
Os impulsos
existem e interferem nas nossas acções.
Logo, não há
acções livres.
E pronto, aqui tens os dois
argumentos principais. O determinismo radical é uma teoria que tem tido
ilustres seguidores ao longo da história da Filosofia. Vou exemplificar
historicamente esta teoria com uma corrente filosófica nascida na Grécia Antiga
e que, posteriormente, se estendeu ao Império Romano. Refiro-me ao estoicismo.
Os dois mais famosos filósofos estóicos tiveram vidas completamente diferentes:
um, Epitecto, foi escravo, o outro, Marco Aurélio, foi imperador de Roma.
Selecionei um pequeno excerto de cada um deles, retirados de obras suas. Aqui
tens o primeiro excerto, de Epitecto:
“Mentaliza-te de
que és um ator de uma peça que será como o seu autor quiser que seja: curta se
a quiser curta, longa se a quiser longa. Se quiser que representes o papel de
um mendigo, procura representá-lo com naturalidade; e o mesmo se aplica ao
papel de um coxo, um juiz ou outro qualquer. O que de ti depende, pois, é isto:
representar bem o papel que te foi destinado; mas a sua escolha não depende de
ti.”
(Epicteto, Enquiridion, XVII)
Repara na metáfora que o autor utiliza: a vida
é como uma peça de teatro. Segundo ele, nós não somos os autores da nossa vida,
mas apenas actores. Ora, é sabido que aos actores lhes é atribuído um papel,
não sendo eles que escolhem o que vão fazer na peça. Epitecto defende que o
mesmo acontece comigo, contigo, com todos os seres humanos: vários
circunstâncias não escolhidas por nós determinam aquilo em que nos tornamos, o
“papel que nos foi destinado”. Nada podemos contra isso uma vez que, tal como
ele próprio te diz no texto, “a sua escolha não depende de ti”.
Agora é a vez de Marco Aurélio,
imperador de Roma:
“Não fica bem
enfurecermo-nos contra as coisas. Elas não se importam com isso.”
(Marco Aurélio, Pensamentos
Para Mim Próprio, VII, 38)
Ora
aqui está uma posição perturbadora, não te parece? Aceitar tudo o que acontece
com resignação, porque nada ganhamos em nos revoltarmos contra as coisas. Bom,
isto é decerto verdade para fenómenos como a chuva ou as estações do ano, por
exemplo. Mas será realmente assim com as pessoas?
Seja como for, não há dúvida de
que o determinismo radical é consistente com o que a ciência nos diz acerca do
funcionamento do universo. De facto, a ciência defende que o universo obedece a
leis. Quem subscreve a tese do determinismo radical não necessita, portanto, de
pôr em causa a sua crença na veracidade da ciência. Trata-se, sem dúvida, de um
ponto forte a favor do determinismo radical. Mas também há objeções fortes que
podemos colocar a esta teoria. Vejamos algumas.
Primeira: os juízos morais deixam
de fazer sentido. Com efeito, se as acções humanas são determinadas e não
existe possibilidade de escolha, não faz sentido classificar as acções como
sendo «boas» ou «más» nem responsabilizar, elogiar ou punir alguém pelos seus
actos. Ou seja, é o fim da noção de responsabilidade moral, tal como
normalmente a entendemos: quem comete um crime não é responsável por ele, quem
realiza um feito enorme não merece ser elogiado por isso. Deixo-te aqui um
desafio: imagina o discurso de um Cristiano Ronaldo determinista radical no
momento de receber a Bola de Ouro da UEFA, troféu que serve para eleger o
melhor jogador do mundo...
Segunda: implica o fim da
responsabilidade jurídica. Realmente, se o que fazemos fosse apenas determinado
por causa naturais, ninguém poderia ser
responsabilizado juridicamente pelas consequências dos seus actos. Numa
sociedade organizada segundo o determinismo radical, faria ainda sentido punir Anders Behring Breivik, o confesso autor do massacre na Noruega que
matou dezenas de jovens?
Terceira: ao conceber o ser
humano do modo como o faz, não estará o determinismo radical a transformar o
Homem num robot? Ou numa personagem
tipo Sims? Se tudo o que faz é determinado e não permite escolha, o Homem é ou
não uma espécie de máquina?