quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

um pouco mais de azul

Fiodor Dostoievski
(1821, Moscovo / 1881, São Petersburgo)

Um pouco mais de azul é uma lista comentada de sugestões para os meus alunos. A ideia é apresentar obras extraordinárias da cultura mundial que, idealmente, um excelente aluno do secundário deveria conhecer: livros, filmes, música ou arte. Tento, desta forma, estimular a autoaprendizagem e o culto da excelência através de obras que não fazem parte dos currículos escolares. Apenas três notas mais. Um: as escolhas são assumidamente pessoais. Dois: a adesão dos alunos é naturalmente facultativa. Três: a minha disposição para lhes emprestar e com eles discutir as obras é total. O título “Um pouco mais de azul” quer exprimir a ideia de que não basta ser inteligente e ter boas notas para se ser excelente. Também é preciso gostar de enfrentar dificuldades e ter a persistência necessária para o conseguir. E, acima de tudo, ser exigente consigo próprio.
Por muito colorida que seja a nossa vida, ousar querer sempre um pouco mais, um pouco mais de azul...

Porque no princípio era o Verbo, um pouco mais de azul # 1 é um livro. Um dos meus livros preferidos, que li pela primeira vez quando andava no secundário. São inúmeras as referências sobre a obra e o seu autor na internet, pelo que prescindo de as fazer aqui. Deixo-vos então com

Obra: Crime e Castigo
Autor: Fiodor Dostoievski

Para terminar, o poema de Mário de Sá-Carneiro de onde a expressão é tirada:

  • Quasi

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além
Para atingir, faltou-me um golpe de asa ...
Se ao menos eu permanecesse aquém ...

Assombro ou paz ? Em vão ... Tudo esvaído
Num grande mar enganador d´espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor ! - quasi vivido ...

Quasi o amor, quase o triunfo e a chama,
Quasi o princípio e o fim - quasi a expansão ...
Mas na minh´alma tudo se derrama ...
Entanto nada foi só ilusão !

De tudo houve um começo ... e tudo errou ...
- Ai a dor de ser-quasi, dor sem fim ...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou ...

Momentos de alma que desbaratei ...
Templos aonde nunca pus um altar ...
Rios que perdi sem os levar ao mar ...
Ânsias que foram mas que não fixei ...

Se me vagueio, encontro só indícios ...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos d' heroi, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios ...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí ...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi ...

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe d´asa ...
Se ao menos eu permanecesse aquém ...

Paris 1913 - maio 13

Mário de Sá-Carneiro

Poemas Completos
Edição Fernando Cabral Martins
Assírio & Alvim
2001

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Colóquio Internacional: Ensinar/Aprender Filosofia num mundo em rede: uma espécie de balanço pessoal

Manuela Martins, José Arêdes e eu

Tinha prometido dizer como correu. Aqui vai, então, num post que é também um... postal. 

Como espectador, gostei da diversidade dos temas abrangidos pelo colóquio. Algumas comunicações não incidiram sobre a filosofia, mas a relevância pedagógica dos temas também se estende ao ensino da filosofia. De entre as comunicações propriamente ditas a que assisti (e que, de uma maneira geral, patentearam um conhecimento muito seguro sobre os filósofos), permito-me destacar três: a "performance filosófica" de Barata-Moura (percebo agora o carinho com que dele falam os meus colegas que foram seus alunos), a argúcia de Leonel Ribeiro dos Santos ao mostrar as implicações didáticas da preocupação kantiana com a clareza e a "beleza" da comunicação em filosofia (um Kant dos nossos dias talvez utilizasse powerpoint...) e a elegante e bem estruturada defesa do filme enquanto texto filosófico apresentada pela Manuela Martins.
Quanto ao meu contributo para o colóquio, retomei brevemente (a “ditadura” do relógio...) algumas ideias sobre como fazer guiões de exploração filosófica dos filmes. A novidade foi a apresentação das linhas gerais do que agora estou a fazer nesta área.
De que são feitos os heróis ou a ética explicada aos jovens a partir do cinema é uma investigação que espero poder concretizar em livro. Como o nome indica, o objetivo é apresentar, explicar e discutir as principais teorias éticas com recurso ao cinema. Com base numa criteriosa e diversificada escolha de filmes, apresentam-se e exploram-se filosoficamente as dúvidas, os dilemas e as escolhas dos “heróis” do cinema. Ao valorizar a utilização do imaginário do cinema como “experiências mentais” filosoficamente relevantes, exploro a insuperável capacidade do cinema em suscitar no espectador a identificação com o “herói”, levando os jovens a colocarem-se na “pele” das personagens e a refletirem filosoficamente sobre os grandes problemas éticos. O exemplo que apresentei foi o que designei por “herói moral kantiano”, a partir do filme “Confesso” (I Confess, EUA, 1953), de Alfred Hitchcock. O utilitarismo de John Stuart Mill, por exemplo, é outro dos modelos de “herói moral” em que estou a trabalhar, também a partir de alguns filmes previamente escolhidos. A minha comunicação será publicada na íntegra nas actas do colóquio.
Agora o postal, para terminar. Não poderia deixar de destacar a atenta organização do colóquio, que nos proporcionou todas as comodidades e nos brindou com excelentes momentos de convívio académico e social. Obrigado e parabéns, Maria Luísa Ribeiro Ferreira. Também foi muito gratificante a partilha de experiências e ideias com os colegas portugueses (palestrantes e espectadores) com quem tive o prazer de conversar. Termino este postal com selos em forma de abraços para o Uruguai, Argentina, Brasil, Itália e Espanha, dirigidos aos colegas não portugueses em sinal de agradecimento pelo seu saber e simpatia. Um abraço especial de “até breve” para o Javier García Medina, Professor de Filosofia do Direito na Universidade de Valladolid e director do Observatório de Direitos Humanos daquela universidade.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Colóquio Internacional: Ensinar/Aprender Filosofia num mundo em rede


Realizado no âmbito das comemorações do Dia Mundial da Filosofia e com o apoio institucional da Comissão Nacional da UNESCO, decorrerá de 24 a 26 de novembro no Anf. III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Apresentarei uma comunicação sobre cinema e filosofia na tarde do dia 25. Depois darei conta do que por lá acontecer. O programa do colóquio pode ser consultado aqui

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Monty Python na comemoração do Dia a Seguir ao Dia Mundial da Filosofia


Inspirado nos Monty Python, o blogue resolveu comemorar hoje o Dia a Seguir ao Dia Mundial da Filosofia. E, para que não se pense que os filósofos sobrevalorizam o espírito e desprezam o corpo, nada como um jogo de... futebol. Que vençam os melhores!

Filosofia

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Os cafés filosóficos de Paris

Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir e amigos no Café de Flore


OS CAFÉS FILOSÓFICOS DE PARIS

por

Carlos Café

(Dedicado à minha filha Maria Miguel)

Inúmeras coisas nos ocorrem quando pensamos em Paris. Muitas delas associadas à cultura, à música, às artes. É compreensível que assim seja. É em Paris que estão os museus do Louvre e d’Orsay. Em Paris viveram Picasso, Toulouse-Lautrec, Degas, Marcel Duchamp, Baudelaire, Rimbaud. O Hot Club foi o berço onde nasceu o jazz manouche de Django Reinardht. Paris acolheu a nouvelle vague de François Truffaut, Jean-Luc Godard e Alain Resnais. Também a filosofia tem grandes nomes associados a Paris. René Descartes, por exemplo, ali viveu alguns anos, desfrutando das tertúlias privadas, à margem do ambiente académico, que mantinha com figuras de proa da ciência e filosofia de então. Mas não são as marcas que a filosofia deixou em Paris que me interessam agora. Interessa-me falar das marcas que Paris deixou na filosofia.
Os professores e os alunos do Liceu, a escola filosófica que Aristóteles criou quando abandonou a Academia de Platão, tinham um hábito curioso: passeavam ao ar livre enquanto filosofavam. Chamavam-lhes “peripatéticos”, palavra grega que significa “os que ensinam caminhando”. Sócrates filosofava com os seus concidadãos de Atenas também ao ar livre, preferindo no entanto a cidade à natureza. Conta-se que, uma vez interpelado sobre a razão porque não usufruía da natureza, respondeu dizendo que lhe interessava principalmente o que pensam os homens e que esses, os homens, estão nas cidades. Sócrates era filho da pólis e um filósofo da ágora, a praça pública. Os romanos adotaram a ideia e criaram o fórum. O conceito sofreu várias alterações ao longo da história, num processo em que o academismo das universidades triunfou quase sempre sobre a informalidade da ágora. Até que em Paris se inventaram os “cafés filosóficos”.
O Café de Flore é um dos mais famosos. Frequentado por artistas e intelectuais, ficou fortemente associado à filosofia quando nele passaram a ter presença assídua alguns dos mais influentes filósofos parisienses da época. Um casal se destacou de entre os frequentadores habituais: Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Mantendo uma relação amorosa intensa e pouco convencional, foram provavelmente o núcleo mais mediático de um grupo que incluía, entre outros, o filósofo e escritor de origem argelina Albert Camus.
Retomando reflexões anteriores de filósofos como Friedrich Nietzsche, Sören Kierkegaard e Martin Heidegger, que tinham colocado a existência humana e a discussão em torno do seu valor e autenticidade no centro de debate filosófico, a filosofia parisiense da época dará ao tema da existência uma dimensão absolutamente fundamental. Nascia assim o existencialismo.
Apesar das particularidades de cada um dos pensadores (Simone de Beauvoir, por exemplo, destacar-se-á pela teorização do feminismo), os existencialistas partilhavam um grande número de teses, preocupações filosóficas e estratégias de divulgação e discussão das suas ideias.
A tese fundamental é a de que a existência é o mais importante dos assuntos filosóficos. O que fazer dela, como conduzir as nossas vidas, que opções são mais legítimas e autênticas ou que responsabilidades temos na relação com os outros e o curso do mundo – eis algumas das preocupações filosóficas comuns aos existencialistas. Camus chegou a afirmar que o verdadeiro problema filosófico é o suicídio, na medida em que a decisão de nos mantermos vivos pressupõe a resposta ao problema filosófico do sentido da vida. Outro traço particularmente evidente do existencialismo é o seu não academismo. Privilegiando as discussões informais em cafés e tertúlias mais ou menos espontâneas em detrimento da formalidade dos ensaios académicos, apresentam as suas ideias em novelas, romances, peças de teatro e entrevistas, envolvendo desse modo um público interessado mas pouco disponível para a tradicional filosofia das universidades.
Os lugares onde muitas dessas ideias nasciam e floresciam eram, muitas das vezes, os cafés de Paris. Hoje tudo é diferente. Uma boa parte desses cafés ou desapareceu ou são agora locais turísticos, elitistas e caros. Mas mantém-se viva a ideia do café filosófico como tertúlia informal e acessível a todos os que gostam de pensar os problemas filosóficos, resgatando desse modo o velho espírito da ágora ateniense. Resta-nos imaginar como seria o ambiente desses cafés…
Artistas, escritores, filósofos, músicos e muita, muita gente normal. Convivem entre si sem formalidades, com a familiaridade própria dos clientes habituais. Consomem croissants, café au lait, refeições tardias, vinhos tintos e Marie Brizard. Lêem, conversam, observam. Os odores a café e aos tabacos da cachimbo sobressaem de entre os demais. A discussão, apaixonada e apaixonante, surge com espontaneidade. Como o diálogo imaginário que se segue, entre a Maria Miguel, uma jovem aprendiz de filosofia, e o filósofo Jean-Paul Sartre:

Maria Miguel: Obrigado por ter acedido a participar neste diálogo “faz de conta”. Vou aproveitar para satisfazer a minha curiosidade e, ao mesmo tempo, esclarecer as dúvidas com que se deparam normalmente os jovens da minha idade quando, nas aulas de filosofia, se estudam as suas teorias. Posto isto, eis a primeira pergunta: o que têm de comum os existencialistas.
Sartre: O facto de admitirem que a existência precede a essência.
Maria Miguel: Que significa...
Sartre: Significa que o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo; e que só depois se define. Só depois será alguma coisa e tal como a si próprio se fizer. O homem não é mais que o que ele faz. Tal é o primeiro princípio do existencialismo.
Maria Miguel: Cada um decide e é responsável por aquilo que é, pelas suas escolhas. Desamparado?
Sartre: Quando se fala em desamparo, queremos dizer somente que Deus não existe e que é preciso tirar disso as mais extremas consequências.
Maria Miguel: Como por exemplo...
Sartre: O existencialista pensa que é muito incomodativo que Deus não exista, porque desaparece com ele toda a possibilidade de achar valores num céu inteligível. Dostoiewsky escreveu: «Se Deus não existisse, tudo seria permitido». Aí se situa o ponto de partida do existencialismo. Tudo é permitido se Deus não existe, fica o homem, por conseguinte, abandonado, já que não encontra em si, nem fora de si, uma possibilidade a que se apegue.
Maria Miguel: Assim ficamos sem desculpas se as nossas escolhas não forem boas!
 Sartre: Exato. Antes de mais nada, não há desculpas para ele. Estamos sós e sem desculpas. É o que traduzirei dizendo que o homem está condenado a ser livre.
 Maria Miguel: “Condenado a ser livre”? Parece-me uma contradição! Como pode um condenado ser livre? Importa-se de me explicar?
Sartre: Condenado, porque não se criou a si próprio; e, no entanto, livre porque uma vez lançado ao mundo é responsável por tudo quanto fizer.

            C’ est fini. Au revoir.

Notas: Este texto foi escrito para celebrar o Dia Mundial da Filosofia na Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes em 2011. Todos os professores escreveram e expuseram um texto subordinado ao tema: "lugares filosóficos". Escolhi Paris.
O pequeno diálogo é retirado de um texto de minha autoria intitulado “Entrevista Imaginária com Jean-Paul Sartre”, escrito em 1997, o ano de nascimento da minha filha. As “respostas” de Sartre são retiradas textualmente da sua obra O Existencialismo é um Humanismo, editado em Portugal pela Presença.
Este texto foi escrito enquanto ouvia a banda sonora do filme O Fabuloso Destino de Amélie.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Exercícios de lógica a pedido


A pedido de alunos, aqui ficam alguns exercícios de lógica resolvidos. Foram retirados de testes deste ano.

·         A Carla tinha a crença de que sempre que o Hulk e o João Moutinho jogam, o Porto vence. No último fim de semana ficou a saber que a sua crença era falsa, apesar do João Moutinho ter jogado. O Hulk jogou? Reconstitui o raciocínio que te conduziu a essa conclusão.

A proposição tem a estrutura de uma condicional: (PQ) → R. Para ser falsa, a antecedente tem de ser verdadeira e a consequente falsa. Sendo a antecedente uma conjunção, apenas é verdadeira se ambas as proposições forem verdadeiras. Se atribuirmos a Q “João Moutinho joga”, a proposição P (“Hulk joga”) terá de ser verdadeira. Portanto, Hulk jogou.

·         Considere-se a proposição P (QR). Se R for falsa, a proposição pode ser verdadeira? Porquê?

Sim, depende do valor de verdade de P. Tratando-se de uma condicional, a proposição é falsa se, e só se, a antecedente (P, neste caso) for verdadeira e a consequente falsa. Portanto, se P for falsa a proposição é verdadeira. Se P for verdadeira, a proposição é falsa, uma vez que a conjunção QR (a consequente) é falsa porque uma conjunção é verdadeira se, e só se, forem verdadeiras as proposições que a constituem. O que não se verifica porque R é falsa.

·         ¬ (P V Q) é verdadeira. Sendo P falsa, qual é o valor de verdade de Q? Porquê?

Q é falsa. Se a negação é verdadeira, a proposição negada é falsa. A única circunstância em que uma disjunção inclusiva é falsa é quando são falsas as proposições que a constituem. Sendo P falsa, Q terá de ser falsa também.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Elegia ao livro de ponto

A última foto antes do prematuro desaparecimento


ELEGIA AO LIVRO DE PONTO

O livro de ponto deixa saudades.

Era como um amigo que nos habituámos a ter ali. À mão, literalmente.  Nele registámos o nosso dia a dia, ano após ano, como um diário coletivamente partilhado.

O livro de ponto estava para o professor como o caderno onde se tomam notas sobre o doente está para o médico. Em ambos se registam as informações inacessíveis aos doentes e aos alunos: os diagnósticos e as faltas, por exemplo. Ambos são um símbolo de poder: legitimam a autoridade, sustentam as regras de funcionamento, delimitam os dois lados do exercício profissional – o público, acessível a todos, e o privado, da exclusiva responsabilidade de quem exerce. O que se escrevia no livro de ponto era lei: o sumário, as datas dos testes, as faltas. Tempos houve em que a falta a vermelho provocava angústia idêntica a um devastador diagnóstico médico: ambos eram tão temidos quanto inapeladamente irreversíveis.

Mas o livro de ponto também era um hino à caligrafia em toda a sua diversidade. O livro de ponto não era xenófobo: aceitava letra pequena, grande e média, em diferentes cores, feitios e estilos. Era também democrático: quer fossem inclinadas para a direita, rigorosamente centradas ou com evidente inclinação para a esquerda, todas as caligrafias cabiam nele. Também não era nacionalista, o livro de ponto. Aberto ao diálogo intercultural, acolhia com igual disponibilidade os sumários escritos em língua portuguesa (com ou sem acordo ortográfico), inglesa, francesa, espanhola, alemã, ou mesmo latim e grego.  

Foi o livro de ponto que ajudou a identificar a jovem professora na sua primeira aula, resguardando-a do embaraço de ser confundida com uma nova aluna. Que funcionava como um mural onde os professores comunicavam entre si, muito antes de haver os e-mails ou o facebook. Era o livro de ponto que nos disciplinava na marcação dos testes, impedindo que os alunos tivessem mais do que um no mesmo dia. Era atrás dele que procurávamos disfarçar o nervosismo da primeira aula, era através dele que memorizávamos os nomes dos alunos ao fazermos a chamada. A ele confiámos as pequenas mentiras piedosas: a primeira aula que nunca é como nele dizemos que é, a última do ano que sempre acaba antes da hora que nele registamos. Sem ele, perdemos o álibi que nos permitia mandar os alunos ir entrando ao primeiro tempo enquanto íamos à sala de professores buscar o livro de ponto e tomar rapidamente um café...

Conseguem imaginar um médico sem estetoscópio, um funcionário público sem esferográfica, um polícia sem boné, um cozinheiro sem avental?

Descansa em paz, livro de ponto. Viverás para sempre nas nossas memórias.