quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O que é um bom professor? Diálogo imaginado entre Agostinho da Silva e um jovem filósofo

Agostinho da Silva e um dos seus inseparáveis gatos


O QUE É UM BOM PROFESSOR? 

Diálogo entre Agostinho da Silva e um Jovem Filósofo


Há uns anos li muito Agostinho da Silva. Sempre com prazer, inúmeras vezes em total desacordo. Nunca o li como um filósofo, que penso (e ele também) que não é. Recordo com carinho as Conversas Vadias na televisão, um programa singelo nos intentos e na produção, que provavelmente hoje nenhum canal pensaria sequer em pôr no ar. “Libertei-me” dele da maneira que mais aprecio: escrevendo sobre a obra. Este texto tem mais de 10 anos. Discordo frontalmente de muitas das suas palavras que escolhi para o diálogo. Agrada-me imenso tê-lo feito. Também me agrada pensar que a minha discordância lhe agradaria.

                  Uma última observação: todas as “respostas” que, neste diálogo imaginado, são atribuídas ao Professor Agostinho da Silva, constituem citações literais retiradas da sua obra Sete Cartas A Um Jovem Filósofo - Seguidas de outros documentos para o estudo de José Kertchy Navarro.


            LUÍS  Foi muito simpático da sua parte, Professor Agostinho da Silva, ter acedido ao meu pedido para que nos encontrássemos. Aqui há uns anos, era eu ainda muito jovem, passou na televisão uma série de programas com o Professor, cujo título era “Conversas Vadias”. Embora nem sempre tenha percebido tudo o que lá se dizia, lembro-me de ter gostado bastante de os ver, principalmente devido ao modo simples e acessível como o senhor falava dos assuntos. Fiquei com a ideia de que é uma pessoa serena, afectuosa e muito sábia em relação aos assuntos da vida. Por isso, como vou ser professor de filosofia, ocorreu-me que me pudesse ajudar, dando-me alguns conselhos sobre a maneira mais adequada de me relacionar com os meus futuros alunos. Pois bem, a minha dúvida é esta: afinal, o que é um bom professor?

            AGOSTINHO  Se o Luís vai ser um professor de filosofia, então, de facto, só há que desejar-lhe felicidade, e bem sabe que sinceramente o faço.

            LUÍS  Obrigado, Professor. Que me sugere desde já, em relação à filosofia?

            AGOSTINHO  Procure compreender os sistemas dos outros antes de criar um seu: se acha errado um grande filósofo, pense sempre que o erro é seu: é fora de dúvida que se não pôs e não venceu a fácil objecção que você lhe levanta (e talvez você até ao fim da vida só possa levantar fáceis objecções), é porque ela não tem razão de ser e vem dum engano seu. Estude ferozmente, com os dentes cerrados, empregue toda a sua força, estoire os músculos; ou você domina a filosofia ou a filosofia o domina a você.

            LUÍS  Não é o meu entusiasmo com a filosofia que me preocupa, mas o modo como me devo comportar na nova função que me espera, ou seja, a de professor. É que há tanta coisa errada que estou ansioso por mudar, tantos os projectos que quero pôr em prática!

            AGOSTINHO  Aqui tem você um conselho que lhe poderá servir para a sua filosofia: não force nunca; seja paciente pescador neste rio do existir. Não force a arte, não force a vida, nem o amor, nem a morte. Deixe que tudo aconteça como um fruto maduro que se abre e lança no solo as sementes fecundas.

            LUÍS  Lançar no solo “as sementes fecundas”? Não estará o Professor a esperar demasiado das pessoas? A maioria delas só liga à vulgaridade rotineira do dia-a-dia, não quer saber da ciência para nada, nem da arte, nem da filosofia...

            AGOSTINHO  Mesmo quem não estude filosofia vale muito, amigo Luís; mesmo quem não entende as funções exponenciais vale muito, amigo Luís; mesmo quem não vale nada vale muito. E não entendo os seus ares superiores.

            LUÍS  O que eu queria dizer era que, em termos culturais, essas pessoas simples nos são indiscutivelmente inferiores.

            AGOSTINHO  Inferiores porquê, inferiores em quê? Não sabem matemática? Talvez saibam viver, que é mais difícil. Não entendem filosofia? Talvez sonhem, o que é mais belo. Não têm eles, para viver, a coragem que lhe faltará um dia, talvez, a você, filósofo e sábio? Não têm eles, às vezes, a sério, com as mulheres e amigos e as filhas, as conversas que você seria incapaz de sustentar?

            LUÍS  Não me interprete mal. Eu até sou uma pessoa tolerante!

            AGOSTINHO  Entre as palavras e as ideias detesto esta: tolerância.

            LUÍS  Porquê?

            AGOSTINHO  É uma ideia de desdém; parecendo celeste, é diabólica; é um revestimento de desprezo, com a agravante de muita gente que o enverga ficar com a convicção de que anda vestida de raios de sol.

            LUÍS  Não sei se o estou a entender...

            AGOSTINHO  Porquê tolerar? Parece-me ainda pior do que perseguir. No perseguir há um reconhecimento do valor. No tolerar, somos nós os deuses e consentimos que haja, lá muito abaixo de nós, uns mesquinhos seres insignificantes.

            LUÍS  Deixe-me dizer-lhe que não estou de acordo. Tolerar também é aceitar os outros como são, respeitá-los. Não temos de amar a Humanidade inteira...

            AGOSTINHO  Não os amar vem da inferioridade sua, não da inferioridade deles. Eles são amáveis, podem ser amados; você, porém, é estreito, e não os ama. Depois disto, como se fizesse uma grande concessão, declara que os tolera. Porque o Luís, com esse bocadinho de filosofia que já aprendeu, já me vai tomando uns ares irritantes de filósofo superior e agressivo. Já declara que o não compreendem. Tome cuidado; a comédia espreita-o.

            LUÍS  Mas é precisamente isso que eu espero da filosofia, que me ajude a compreender todas estas coisas!

            AGOSTINHO  Quando nos gelamos a ponto de não entendermos os outros, de nos afastarmos deles porque os julgamos, ou realmente são, menos interessantes ou menos cultos, a filosofia só prejudica.

            LUÍS  Temos maneiras de ser muito diferentes, realmente. Eu gostaria, contudo, de aprofundar este assunto, porque me parece que tem a ver com o que, na profissão de professor, me assusta mais do que tudo o resto: a indiferença dos alunos! A experiência que tive das aulas, como estagiário, deixou-me bastante apreensivo. Já percebi que o Professor dá muita importância à relação entre as pessoas. Mas veja bem: o que é que se faz quando temos pela frente uma turma de alunos que não ligam rigorosamente nada ao que lhes estamos a dizer? Podemos estar a falar do tema mais fascinante do mundo, que para eles tanto faz! E nós insistimos: “Olhem que estes assuntos dizem-vos respeito! Não querem ficar uns ignorantes a vida inteira, pois não?” E eles? Nada, rigorosamente nada! Tanto se lhes dá como se lhes deu! E nós a gastarmos o nosso “Latim”, a tentar convencê-los de que estudar é importante, etecetra e tal... Pois bem, é o mesmo que estar a falar para as paredes! É isso que me deixa incomodado: não nos ligam nenhuma, por muito excelentes que sejam os argumentos que lhes apresentamos!

            AGOSTINHO  Você julga que alguém foi convencido por argumentos? O próprio verbo convencer se devia banir da linguagem corrente: as pessoas aderem, não são convencidas. E às suas ideias, por exemplo, hão-de aderir muito menos pelo que você pensar do que por aquilo que você for.

            LUÍS  Mas o meu papel, como professor, também é esse, o de tentar convencê-los de que a escola e o estudo são importantes para eles.

            AGOSTINHO  O essencial na vida não é convencer ninguém, nem talvez isso seja possível; o que é preciso é que eles sejam nossos amigos: para tal, seremos nós amigos deles; que forças hão-de trabalhar o mundo se pusermos de parte a amizade?

            LUÍS  Está bem, reconheço que a afectividade é importante na relação professor/aluno. Mas eles também devem ver as coisas de um ponto de vista racional; caso contrário, acabam por só estudar a matéria das disciplinas em que têm um professor de que gostam! É por isso que eu dou muita importância aos argumentos: é através deles que o aluno compreende, de modo mais imparcial e menos afectivo, que aquilo que se aprecia mais nem sempre é o mais importante.

            AGOSTINHO  Se lhes for com argumentos, é fatal que ao terceiro que não aceitem ou não compreendam (e você ficará sempre convencido de que não aceitam porque não compreendem), o Luís esteja pensando que se encontra a falar com os mais perfeitos imbecis que têm existido no mundo; ao quarto argumento, todo você freme, mal se contendo: no entanto, lembra-se do estoicismo e ainda aguenta; mas ao quinto argumento, você insulta-os. As consequências desvantajosas são as seguintes, e pondo de seguro que não é consequência desvantajosa eles ficarem na mesma: você fica mal disposto, não foi nada filosófico, azeda cada vez mais, e os homens passam a aborrecê-lo, talvez mesmo a odiá-lo.

            LUÍS  Se os meus alunos me odiarem, que posso eu fazer? Eu estou na escola para ensinar, antes de mais, e não para fazer amizade com todos os alunos. É natural que muitos deles não gostem de mim, até porque eu não lhes “aparo o jogo” e, além disso, obrigo-os a trabalhar! É para isso que me pagam, não é verdade? Quanto ao resto, digo-o sinceramente, pouco me importa...

            AGOSTINHO  Que lhe importa? Mas importa muito, importa tudo. Você veio aqui para separar ou para unir?

            LUÍS A principal preocupação de um filósofo deve ser a busca da verdade!

            AGOSTINHO  E julga que a verdade precisa de si para alguma coisa? Se o mundo é segundo o modelo idealista, continuará sendo, mesmo que os outros ou você o neguem; se não for, também nada se remedeia. E o mesmo com o kantismo e o pessimismo e o positivismo e tudo o restismo.

            LUÍS  Ainda que assim seja, tal não significa que deixemos de a procurar. Mas eu vou ser franco, Professor: se pudesse, escolheria não ter de dar aulas. Agrada-me muito mais estudar filosofia do que ter de ensiná-la.

            AGOSTINHO  Repito o que lhe disse: quando se perde humanidade, não vale a pena ser filósofo. Você, pelo que me parece, tem certos germes de afastamento: há, por vezes, no meio de todas as suas afabilidades, um certo tom superior, uma distância, uma reserva, uma vaidade que é tudo quanto você quiser menos filosófica e um gosto de inteligência a que se não une uma forte afectividade. Temo que o hábito dos filósofos e a vantagem terrível de os perceber com clareza lhe agrave esses defeitos e nos traga daqui a uns anos um Luís impossível, cheio de si e das suas pobres verdades.

            LUÍS  O Professor desculpe, mas tudo isso é muito lindo até ao momento em que temos de enfrentar uma turma enorme, constituída por alunos que não percebem “patavina” do que lhes estamos a dizer. A dura realidade é mesmo assim! O que me sugere que faça, em situações desse tipo?

            AGOSTINHO  Seja sereno, seja afectuoso, se lhe pedirem que explique, explique trinta vezes, com a mesma calma e o mesmo interesse da primeira; se o não perceberem a você, perceba você os outros.

            LUÍS  Se calhar, o preço a pagar pela nossa dedicação ao estudo é precisamente esse: ficarmos sós e incompreendidos...

            AGOSTINHO  Mas há duas espécies de solidão: uma, que vem de não acompanharmos os outros, outra que vem de nos não acompanharem eles; a segunda é que vale.

            LUÍS  O Professor parece esquecer que, quando alguém se destaca, são mais as invejas que suscita do que os apoios que recebe...

            AGOSTINHO  É preciso que os homens à sua volta nunca tenham nenhuma angústia, não sofram nunca por o sentirem a você superior a eles; a sua superioridade, se existir, deve ser como um bálsamo nas feridas, deve consolá-los, aliviar-lhes as dores. A sua grandeza, querido amigo, deve servir para os tornar grandes, no que lhes é possível, não para os humilhar, para os lançar no desespero, no rancor, na inveja.

            LUÍS  Olhe que a Escola é um meio muito complicado, quando se trata de méritos e invejas...

            AGOSTINHO  Há muitos meios, amigo Luís, em que é muito difícil não tomar grandes ares, ou porque tudo à volta é bastante inferior ou porque os muros de orgulho se levantam como um castelo de defesa.

            LUÍS  Mas voltemos à questão do relacionamento com os alunos. Ainda que o faça da maneira que o Professor defende, haverá sempre uns que “crescem” mais do que os outros. Ou não será?

            AGOSTINHO  Para o pai não existe a sua própria altura, existe a pequenez dos filhos; e por isso os pais se curvam para eles, e os acariciam e os tomam nos braços, e já são grandes, Luís, e descobrem, erguidos ao alto, os horizontes que o pai nem sonha.

            LUÍS  Até parece que, para si, ninguém é pequeno...

            AGOSTINHO  É verdade, querido amigo: nada é pequeno, se o levantarmos, utilizando toda a nossa altura, e toda a nossa força, se o levantarmos acima de nós, o mais que pudermos, até quase não suportarmos as dores nos músculos. Vai ser esta para você a mais difícil de todas as artes, mas oxalá não lhe faltem os recursos afectivos que não deixem ter a sua inteligência o aspecto seco, repulsivo, de tanta inteligência superior.

            LUÍS  Ou seja: não basta a competência como professor, também é preciso sermos o amigo, o “pai”, o companheiro... Não estará a exigir muito de mim?

            AGOSTINHO  Estou a exigir muito de si? Quem lhe há-de exigir muito senão os seus amigos? Eles receberam o encargo de não o deixar amolecer e, pela minha parte, tenha você a certeza de que o hei-de cumprir. Você há-de dar tudo o que puder. Quando você saltar e saltar bem, eu direi sempre: Agora mais alto! Que me importa que você caia. O que é preciso é que você se levante. Os fracos vieram só para cair, mas os fortes vieram para esse tremendo exercício: cair e levantar-se; sorrindo.

            LUÍS  O que o Professor diz soa bem, mas não será um tanto utópico?

            AGOSTINHO  Só há homem quando se faz o impossível; o possível todos os bichos fazem.

            LUÍS  Bom, parece que esta conversa, que era para ser muito curta, acabou mesmo por se estender, sem que tivéssemos dado conta disso. Gostei muito de o ouvir, Professor, e agradeço-lhe mais uma vez a simpatia e a atenção que me dispensou. Vou decerto pensar muito em tudo o que me disse. Mas permita-me que volte à pergunta inicial: afinal, o que é preciso para se ser um bom professor?

            AGOSTINHO  Do que você precisa, acima de tudo, é de se não lembrar do que eu lhe disse; nunca pense por mim, pense sempre por você; fique certo de que valem mais todos os erros se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu do que todos os acertos, se eles forem meus, não seus.

            LUÍS  Se assim é, que faço eu com os conselhos que me deu?

            AGOSTINHO  Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois da oposição venha a pensar o mesmo que eu; mas nessa altura já o pensamento lhe pertence.

            LUÍS  Que estranho! Quase todas as pessoas gostam de ter discípulos, mas o Professor dá conselhos para não serem seguidos...

            AGOSTINHO  São meus discípulos, se alguns tenho, os que estão contra mim; porque esses guardaram no fundo da alma a força que verdadeiramente me anima e que mais desejaria transmitir-lhes: a de se não conformarem. Feche, pois, os ouvidos ao que lhe ensino, se alguma coisa lhe ensino; faça a viagem por sua conta e risco, você mesmo ao leme; se tivermos naufrágio, far-lhe-emos uma Elegia marítima: duas páginas de versos todos cheios do ritmo das vagas e desse estranho soluçar do vento nos altos mastros dos navios.


FIM DO DIÁLOGO

domingo, 18 de dezembro de 2011

"O Barão Trepador", de Italo Calvino


Um dos livros que a minha memória guarda com mais carinho. 
Um livro que vou reler em 2012. 
Um livro mágico que impede que a imaginação abandone as nossas vidas. 
Um livro que amo como poucos. E a que prestarei um dia o tributo que merece. 
Entretanto, sugiro o que outros dizem dele aqui. 

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

um pouco mais de azul

Fiodor Dostoievski
(1821, Moscovo / 1881, São Petersburgo)

Um pouco mais de azul é uma lista comentada de sugestões para os meus alunos. A ideia é apresentar obras extraordinárias da cultura mundial que, idealmente, um excelente aluno do secundário deveria conhecer: livros, filmes, música ou arte. Tento, desta forma, estimular a autoaprendizagem e o culto da excelência através de obras que não fazem parte dos currículos escolares. Apenas três notas mais. Um: as escolhas são assumidamente pessoais. Dois: a adesão dos alunos é naturalmente facultativa. Três: a minha disposição para lhes emprestar e com eles discutir as obras é total. O título “Um pouco mais de azul” quer exprimir a ideia de que não basta ser inteligente e ter boas notas para se ser excelente. Também é preciso gostar de enfrentar dificuldades e ter a persistência necessária para o conseguir. E, acima de tudo, ser exigente consigo próprio.
Por muito colorida que seja a nossa vida, ousar querer sempre um pouco mais, um pouco mais de azul...

Porque no princípio era o Verbo, um pouco mais de azul # 1 é um livro. Um dos meus livros preferidos, que li pela primeira vez quando andava no secundário. São inúmeras as referências sobre a obra e o seu autor na internet, pelo que prescindo de as fazer aqui. Deixo-vos então com

Obra: Crime e Castigo
Autor: Fiodor Dostoievski

Para terminar, o poema de Mário de Sá-Carneiro de onde a expressão é tirada:

  • Quasi

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além
Para atingir, faltou-me um golpe de asa ...
Se ao menos eu permanecesse aquém ...

Assombro ou paz ? Em vão ... Tudo esvaído
Num grande mar enganador d´espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor ! - quasi vivido ...

Quasi o amor, quase o triunfo e a chama,
Quasi o princípio e o fim - quasi a expansão ...
Mas na minh´alma tudo se derrama ...
Entanto nada foi só ilusão !

De tudo houve um começo ... e tudo errou ...
- Ai a dor de ser-quasi, dor sem fim ...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou ...

Momentos de alma que desbaratei ...
Templos aonde nunca pus um altar ...
Rios que perdi sem os levar ao mar ...
Ânsias que foram mas que não fixei ...

Se me vagueio, encontro só indícios ...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos d' heroi, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios ...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí ...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi ...

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe d´asa ...
Se ao menos eu permanecesse aquém ...

Paris 1913 - maio 13

Mário de Sá-Carneiro

Poemas Completos
Edição Fernando Cabral Martins
Assírio & Alvim
2001

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Colóquio Internacional: Ensinar/Aprender Filosofia num mundo em rede: uma espécie de balanço pessoal

Manuela Martins, José Arêdes e eu

Tinha prometido dizer como correu. Aqui vai, então, num post que é também um... postal. 

Como espectador, gostei da diversidade dos temas abrangidos pelo colóquio. Algumas comunicações não incidiram sobre a filosofia, mas a relevância pedagógica dos temas também se estende ao ensino da filosofia. De entre as comunicações propriamente ditas a que assisti (e que, de uma maneira geral, patentearam um conhecimento muito seguro sobre os filósofos), permito-me destacar três: a "performance filosófica" de Barata-Moura (percebo agora o carinho com que dele falam os meus colegas que foram seus alunos), a argúcia de Leonel Ribeiro dos Santos ao mostrar as implicações didáticas da preocupação kantiana com a clareza e a "beleza" da comunicação em filosofia (um Kant dos nossos dias talvez utilizasse powerpoint...) e a elegante e bem estruturada defesa do filme enquanto texto filosófico apresentada pela Manuela Martins.
Quanto ao meu contributo para o colóquio, retomei brevemente (a “ditadura” do relógio...) algumas ideias sobre como fazer guiões de exploração filosófica dos filmes. A novidade foi a apresentação das linhas gerais do que agora estou a fazer nesta área.
De que são feitos os heróis ou a ética explicada aos jovens a partir do cinema é uma investigação que espero poder concretizar em livro. Como o nome indica, o objetivo é apresentar, explicar e discutir as principais teorias éticas com recurso ao cinema. Com base numa criteriosa e diversificada escolha de filmes, apresentam-se e exploram-se filosoficamente as dúvidas, os dilemas e as escolhas dos “heróis” do cinema. Ao valorizar a utilização do imaginário do cinema como “experiências mentais” filosoficamente relevantes, exploro a insuperável capacidade do cinema em suscitar no espectador a identificação com o “herói”, levando os jovens a colocarem-se na “pele” das personagens e a refletirem filosoficamente sobre os grandes problemas éticos. O exemplo que apresentei foi o que designei por “herói moral kantiano”, a partir do filme “Confesso” (I Confess, EUA, 1953), de Alfred Hitchcock. O utilitarismo de John Stuart Mill, por exemplo, é outro dos modelos de “herói moral” em que estou a trabalhar, também a partir de alguns filmes previamente escolhidos. A minha comunicação será publicada na íntegra nas actas do colóquio.
Agora o postal, para terminar. Não poderia deixar de destacar a atenta organização do colóquio, que nos proporcionou todas as comodidades e nos brindou com excelentes momentos de convívio académico e social. Obrigado e parabéns, Maria Luísa Ribeiro Ferreira. Também foi muito gratificante a partilha de experiências e ideias com os colegas portugueses (palestrantes e espectadores) com quem tive o prazer de conversar. Termino este postal com selos em forma de abraços para o Uruguai, Argentina, Brasil, Itália e Espanha, dirigidos aos colegas não portugueses em sinal de agradecimento pelo seu saber e simpatia. Um abraço especial de “até breve” para o Javier García Medina, Professor de Filosofia do Direito na Universidade de Valladolid e director do Observatório de Direitos Humanos daquela universidade.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Colóquio Internacional: Ensinar/Aprender Filosofia num mundo em rede


Realizado no âmbito das comemorações do Dia Mundial da Filosofia e com o apoio institucional da Comissão Nacional da UNESCO, decorrerá de 24 a 26 de novembro no Anf. III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Apresentarei uma comunicação sobre cinema e filosofia na tarde do dia 25. Depois darei conta do que por lá acontecer. O programa do colóquio pode ser consultado aqui. 

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Monty Python na comemoração do Dia a Seguir ao Dia Mundial da Filosofia


Inspirado nos Monty Python, o blogue resolveu comemorar hoje o Dia a Seguir ao Dia Mundial da Filosofia. E, para que não se pense que os filósofos sobrevalorizam o espírito e desprezam o corpo, nada como um jogo de... futebol. Que vençam os melhores!

Filosofia

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Os cafés filosóficos de Paris

Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir e amigos no Café de Flore


OS CAFÉS FILOSÓFICOS DE PARIS

por

Carlos Café

(Dedicado à minha filha Maria Miguel)

Inúmeras coisas nos ocorrem quando pensamos em Paris. Muitas delas associadas à cultura, à música, às artes. É compreensível que assim seja. É em Paris que estão os museus do Louvre e d’Orsay. Em Paris viveram Picasso, Toulouse-Lautrec, Degas, Marcel Duchamp, Baudelaire, Rimbaud. O Hot Club foi o berço onde nasceu o jazz manouche de Django Reinardht. Paris acolheu a nouvelle vague de François Truffaut, Jean-Luc Godard e Alain Resnais. Também a filosofia tem grandes nomes associados a Paris. René Descartes, por exemplo, ali viveu alguns anos, desfrutando das tertúlias privadas, à margem do ambiente académico, que mantinha com figuras de proa da ciência e filosofia de então. Mas não são as marcas que a filosofia deixou em Paris que me interessam agora. Interessa-me falar das marcas que Paris deixou na filosofia.
Os professores e os alunos do Liceu, a escola filosófica que Aristóteles criou quando abandonou a Academia de Platão, tinham um hábito curioso: passeavam ao ar livre enquanto filosofavam. Chamavam-lhes “peripatéticos”, palavra grega que significa “os que ensinam caminhando”. Sócrates filosofava com os seus concidadãos de Atenas também ao ar livre, preferindo no entanto a cidade à natureza. Conta-se que, uma vez interpelado sobre a razão porque não usufruía da natureza, respondeu dizendo que lhe interessava principalmente o que pensam os homens e que esses, os homens, estão nas cidades. Sócrates era filho da pólis e um filósofo da ágora, a praça pública. Os romanos adotaram a ideia e criaram o fórum. O conceito sofreu várias alterações ao longo da história, num processo em que o academismo das universidades triunfou quase sempre sobre a informalidade da ágora. Até que em Paris se inventaram os “cafés filosóficos”.
O Café de Flore é um dos mais famosos. Frequentado por artistas e intelectuais, ficou fortemente associado à filosofia quando nele passaram a ter presença assídua alguns dos mais influentes filósofos parisienses da época. Um casal se destacou de entre os frequentadores habituais: Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Mantendo uma relação amorosa intensa e pouco convencional, foram provavelmente o núcleo mais mediático de um grupo que incluía, entre outros, o filósofo e escritor de origem argelina Albert Camus.
Retomando reflexões anteriores de filósofos como Friedrich Nietzsche, Sören Kierkegaard e Martin Heidegger, que tinham colocado a existência humana e a discussão em torno do seu valor e autenticidade no centro de debate filosófico, a filosofia parisiense da época dará ao tema da existência uma dimensão absolutamente fundamental. Nascia assim o existencialismo.
Apesar das particularidades de cada um dos pensadores (Simone de Beauvoir, por exemplo, destacar-se-á pela teorização do feminismo), os existencialistas partilhavam um grande número de teses, preocupações filosóficas e estratégias de divulgação e discussão das suas ideias.
A tese fundamental é a de que a existência é o mais importante dos assuntos filosóficos. O que fazer dela, como conduzir as nossas vidas, que opções são mais legítimas e autênticas ou que responsabilidades temos na relação com os outros e o curso do mundo – eis algumas das preocupações filosóficas comuns aos existencialistas. Camus chegou a afirmar que o verdadeiro problema filosófico é o suicídio, na medida em que a decisão de nos mantermos vivos pressupõe a resposta ao problema filosófico do sentido da vida. Outro traço particularmente evidente do existencialismo é o seu não academismo. Privilegiando as discussões informais em cafés e tertúlias mais ou menos espontâneas em detrimento da formalidade dos ensaios académicos, apresentam as suas ideias em novelas, romances, peças de teatro e entrevistas, envolvendo desse modo um público interessado mas pouco disponível para a tradicional filosofia das universidades.
Os lugares onde muitas dessas ideias nasciam e floresciam eram, muitas das vezes, os cafés de Paris. Hoje tudo é diferente. Uma boa parte desses cafés ou desapareceu ou são agora locais turísticos, elitistas e caros. Mas mantém-se viva a ideia do café filosófico como tertúlia informal e acessível a todos os que gostam de pensar os problemas filosóficos, resgatando desse modo o velho espírito da ágora ateniense. Resta-nos imaginar como seria o ambiente desses cafés…
Artistas, escritores, filósofos, músicos e muita, muita gente normal. Convivem entre si sem formalidades, com a familiaridade própria dos clientes habituais. Consomem croissants, café au lait, refeições tardias, vinhos tintos e Marie Brizard. Lêem, conversam, observam. Os odores a café e aos tabacos da cachimbo sobressaem de entre os demais. A discussão, apaixonada e apaixonante, surge com espontaneidade. Como o diálogo imaginário que se segue, entre a Maria Miguel, uma jovem aprendiz de filosofia, e o filósofo Jean-Paul Sartre:

Maria Miguel: Obrigado por ter acedido a participar neste diálogo “faz de conta”. Vou aproveitar para satisfazer a minha curiosidade e, ao mesmo tempo, esclarecer as dúvidas com que se deparam normalmente os jovens da minha idade quando, nas aulas de filosofia, se estudam as suas teorias. Posto isto, eis a primeira pergunta: o que têm de comum os existencialistas.
Sartre: O facto de admitirem que a existência precede a essência.
Maria Miguel: Que significa...
Sartre: Significa que o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo; e que só depois se define. Só depois será alguma coisa e tal como a si próprio se fizer. O homem não é mais que o que ele faz. Tal é o primeiro princípio do existencialismo.
Maria Miguel: Cada um decide e é responsável por aquilo que é, pelas suas escolhas. Desamparado?
Sartre: Quando se fala em desamparo, queremos dizer somente que Deus não existe e que é preciso tirar disso as mais extremas consequências.
Maria Miguel: Como por exemplo...
Sartre: O existencialista pensa que é muito incomodativo que Deus não exista, porque desaparece com ele toda a possibilidade de achar valores num céu inteligível. Dostoiewsky escreveu: «Se Deus não existisse, tudo seria permitido». Aí se situa o ponto de partida do existencialismo. Tudo é permitido se Deus não existe, fica o homem, por conseguinte, abandonado, já que não encontra em si, nem fora de si, uma possibilidade a que se apegue.
Maria Miguel: Assim ficamos sem desculpas se as nossas escolhas não forem boas!
 Sartre: Exato. Antes de mais nada, não há desculpas para ele. Estamos sós e sem desculpas. É o que traduzirei dizendo que o homem está condenado a ser livre.
 Maria Miguel: “Condenado a ser livre”? Parece-me uma contradição! Como pode um condenado ser livre? Importa-se de me explicar?
Sartre: Condenado, porque não se criou a si próprio; e, no entanto, livre porque uma vez lançado ao mundo é responsável por tudo quanto fizer.

            C’ est fini. Au revoir.

Notas: Este texto foi escrito para celebrar o Dia Mundial da Filosofia na Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes em 2011. Todos os professores escreveram e expuseram um texto subordinado ao tema: "lugares filosóficos". Escolhi Paris.
O pequeno diálogo é retirado de um texto de minha autoria intitulado “Entrevista Imaginária com Jean-Paul Sartre”, escrito em 1997, o ano de nascimento da minha filha. As “respostas” de Sartre são retiradas textualmente da sua obra O Existencialismo é um Humanismo, editado em Portugal pela Presença.
Este texto foi escrito enquanto ouvia a banda sonora do filme O Fabuloso Destino de Amélie.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Exercícios de lógica a pedido


A pedido de alunos, aqui ficam alguns exercícios de lógica resolvidos. Foram retirados de testes deste ano.

·         A Carla tinha a crença de que sempre que o Hulk e o João Moutinho jogam, o Porto vence. No último fim de semana ficou a saber que a sua crença era falsa, apesar do João Moutinho ter jogado. O Hulk jogou? Reconstitui o raciocínio que te conduziu a essa conclusão.

A proposição tem a estrutura de uma condicional: (P∧Q) → R. Para ser falsa, a antecedente tem de ser verdadeira e a consequente falsa. Sendo a antecedente uma conjunção, apenas é verdadeira se ambas as proposições forem verdadeiras. Se atribuirmos a Q “João Moutinho joga”, a proposição P (“Hulk joga”) terá de ser verdadeira. Portanto, Hulk jogou.

·         Considere-se a proposição P → (Q∧R). Se R for falsa, a proposição pode ser verdadeira? Porquê?

Sim, depende do valor de verdade de P. Tratando-se de uma condicional, a proposição é falsa se, e só se, a antecedente (P, neste caso) for verdadeira e a consequente falsa. Portanto, se P for falsa a proposição é verdadeira. Se P for verdadeira, a proposição é falsa, uma vez que a conjunção Q∧R (a consequente) é falsa porque uma conjunção é verdadeira se, e só se, forem verdadeiras as proposições que a constituem. O que não se verifica porque R é falsa.

·         ¬ (P V Q) é verdadeira. Sendo P falsa, qual é o valor de verdade de Q? Porquê?

Q é falsa. Se a negação é verdadeira, a proposição negada é falsa. A única circunstância em que uma disjunção inclusiva é falsa é quando são falsas as proposições que a constituem. Sendo P falsa, Q terá de ser falsa também.