Imagem retirada do filme "A Invenção de Hugo", de Martin Scorsese |
Álvaro de Campos
No tempo em que
festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e
ninguém estava morto.
Na casa antiga,
até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de
todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que
festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande
saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente
para entre a família,
E de não ter as
esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter
esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar
para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de
suposto a mim-mesmo,
O que fui de
coração e parentesco.
O que fui de
serões de meia-província,
O que fui de
amarem-me e eu ser menino,
O que fui - ai,
meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!
(Nem o acho... )
O tempo em que
festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje
é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas
paredes...
O que eu sou hoje
(e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje
é terem vendido a casa,
É terem morrido
todos,
É estar eu
sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que
festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como
uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da
alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem
metafísica e carnal,
Com uma dualidade
de eu para mim...
Comer o passado
como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra
vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com
mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com
muitas coisas - doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os
primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que
festejavam o dia dos meus anos. . .
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa
o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu
Deus, meu Deus!
Hoje já não faço
anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando
o for.
Mais nada.
Raiva de não ter
trazido o passado roubado na algibeira!...
Parabéns!Sempre para a frente ... :)
ResponderEliminarBjinho
Maria
Obrigado :)
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